Há filmes que entretém. Há filmes que emocionam. E há filmes raros que fazem as duas coisas ao mesmo tempo em que plantam uma semente incômoda no peito do espectador, algo entre a saudade e a urgência. Toy Story 5 é exatamente esse tipo de obra. Depois de três décadas desde que Woody e Buzz Lightyear pisaram pela primeira vez numa tela de cinema e mudaram para sempre a história da animação, a Pixar entrega seu capítulo mais maduro, mais afiado e surpreendentemente mais necessário.
A grande sacada do roteiro está em não repetir fórmulas. Enquanto muitas sequências de franquias confortáveis se contentam em revisitar o que já funcionou, Toy Story 5 abre os olhos para o presente e encara de frente o elefante na sala que ninguém no cinema infantil tinha coragem de nomear: as crianças pararam de brincar. Não por falta de imaginação, mas porque o mundo adulto colocou nas mãos delas um atalho brilhante e luminoso chamado tela.

A protagonista desta vez é Jessie, a vaqueira de cabelos ruivos, com alma de interior e um vocabulário repleto de expressões deliciosamente antiquadas. Joan Cusack entrega uma performance vocal que é pura alegria, combinando humor físico com aquela vulnerabilidade que marca os melhores momentos da série. Ao lado dela, Bonnie, a dona dos brinquedos, representa uma geração que não sabe mais sentar no chão e inventar mundos. Ela não é uma vilã. Ela é um diagnóstico.
Andrew Stanton, o mesmo gênio que criou Wall-E e sua poesia visual sobre o vazio tecnológico, assume a direção de um filme da franquia pela primeira vez. E o resultado é um acerto cirúrgico de tom. Stanton entende que Toy Story nunca foi apenas sobre brinquedos. Foi sempre sobre o que se perde quando se cresce rápido demais. Dessa vez, porém, o crescimento precoce não é mais uma questão de idade. É uma questão de algoritmo.

O Lilypad, tablet infantil com cara de sapo e voz de Greta Lee, é o grande antagonista do filme e, ao mesmo tempo, seu personagem mais fascinante. O roteiro tem a inteligência de não demonizá-lo. Ele não é mau. Ele é sedutor, eficiente e profundamente solitário. Assim como qualquer ferramenta que promete conexão mas entrega apenas proximidade virtual. O filme sabe disso e diz isso com a sofisticação narrativa que só a Pixar tem coragem de exigir do público infantil.
Buzz Lightyear voltou, e nunca esteve tão humano. Tim Allen retorna ao personagem com uma ternura nova, de quem já viveu o suficiente para saber o que realmente importa. Quando Buzz aparece voando em um cavalo alado de princesa para impressionar Jessie, a sala inteira ri e suspira ao mesmo tempo. É esse o equilíbrio perfeito que a série sempre perseguiu e raramente alcançou com tanta elegância.

As sequências de brincadeira imaginativa são o coração pulsante do filme. Com cores fluorescentes e uma lógica completamente caótica e infantil, essas cenas capturam algo que a maioria dos filmes falha em reproduzir: a textura real da fantasia de uma criança. Não é bonita da forma que os adultos esperam. É estranha, ruidosa, contraditória e absolutamente perfeita do jeito que é.
Conan O’Brien empresta sua voz a Smarty Pants, um penico falante com mais autoestima do que devia ter, e entrega o alívio cômico mais inesperado e bem-vindo dos últimos anos no cinema de animação. Craig Robinson como Atlas, um hipopótamo com GPS existencialmente perdido, completa um trio de dispositivos tecnológicos obsoletos que são, paradoxalmente, os mais humanos do filme. A Pixar sempre soube que os melhores personagens são aqueles que carregam uma solidão discreta.

No clímax, durante uma cerimônia de casamento que precisaria de cinco adjetivos só para ser descrita e ainda assim sairia incompleta, Toy Story 5 entrega sua mensagem não com um sermão, mas com pura alegria cinematográfica. Não é um filme que prega. É um filme que mostra. E nessa diferença sutil está todo o talento de uma equipe criativa que ainda acredita que o cinema pode mudar a forma como as pessoas enxergam o mundo.
Conclusão
Toy Story 5 é daqueles filmes que saem da tela e entram na memória afetiva sem pedir licença. Ele chega num momento em que a indústria do entretenimento debate exaustivamente o futuro das franquias, a fadiga das sequências e a crise da originalidade. E responde a tudo isso com uma obra que é, ao mesmo tempo, uma celebração do passado e um olhar corajoso para o futuro. Brincar, o filme nos lembra, não é um luxo da infância. É uma necessidade humana. E talvez seja a coisa mais revolucionária que alguém possa fazer hoje em dia.
Confira o trailer:
Ficha Técnica
Direção: Andrew Stanton;
Roteiro: Andrew Stanton, Kenna Harris;
Elenco: Tom Hanks, Tim Allen, Joan Cusack, Greta Lee, Conan O’Brien, Scarlett Spears, Shelby Rabara, Mykal-Michelle Harris, Craig Robinson;
Gênero: Animação, Drama;
Duração: 102 minutos;
Distribuição: Walt Disney Studios;
Classificação indicativa: Livre;
Assistiu à cabine de imprensa a convite da Espaço Z