O novo Todo Mundo em Pânico chega aos cinemas nesta quinta-feira (04) com a descarada leveza de quem sabe exatamente o que o público precisa: uma boa e velha gargalhada sem cerimônia. Quando grande parte de Hollywood aposta em dramas densos e universos cinematográficos de peso épico, os irmãos Wayans voltam com um capítulo que entende sua própria missão com rara clareza e a cumpre com entusiasmo contagiante. Não é pouca coisa, num mercado que frequentemente confunde ambição artística com distanciamento emocional do espectador.
O roteiro assinado por quatro dos irmãos Wayans e Rick Alvarez é uma colcha de retalhos afetiva, costurada com referências que vão de Corra!, passando por Halloween e Ma, até John Wick, construindo um mosaico que celebra o gênero do terror com a afeição de quem cresceu assustado e aprendeu a rir do próprio susto. Nessas mãos, a paródia deixa de ser simples pastiche para se tornar algo mais próximo de uma carta de amor torta e hilária ao cinema de horror. A familiaridade com os filmes referenciados aumenta exponencialmente o prazer, mas não é pré-requisito para aproveitar o espetáculo.

O que surpreende neste capítulo é justamente quando a produção se permite respirar fora do ritmo frenético das recriações cena a cena. Há momentos em que o roteiro abandona a necessidade de reencenação direta e investe em sacadas mais autorais, como a piada de fundo sobre a franquia Premonição, que arranca risadas de uma forma quase involuntária, pela leveza com que aparece. São esses lampejos de criatividade genuína que elevam o longa acima da média das comédias de paródia contemporâneas e revelam que a família Wayans ainda tem muito fogo criativo a oferecer.
A dinâmica entre os personagens veteranos e os recém-chegados funciona com uma naturalidade que muitas franquias de grande porte demoram trilogias inteiras para alcançar. Cindy (Anna Faris) e Brenda (Regina Hall), ícones do gênero desde o primeiro filme, mantêm uma química que parece absolutamente orgânica, e as cenas em que os dois universos colidem geram alguns dos momentos mais genuinamente engraçados da produção. O diretor Michael Tiddes conduz esse equilíbrio com mão firme, sabendo quando acelerar e quando deixar a piada respirar antes de estilingá-la contra a plateia.

Existe também uma camada metalinguística que merece reconhecimento: o longa usa o próprio mecanismo das legacy sequels, que dominou Hollywood por mais de uma década, como alvo de suas paródias mais certeiras. Ao zoar a tendência de misturar personagens clássicos e novatos para capitalizar sobre a nostalgia do público, Todo Mundo em Pânico não está só fazendo graça, está fazendo crítica de indústria com embalagem pop. É um truque caro de puxar, e a produção o executa com uma esperteza que vai passar despercebida para alguns, mas que enriquece a experiência para quem acompanha o cinema comercial de perto.
As atuações elevam consideravelmente o material. Marlon Wayans entrega uma performance cômica que equilibra o exagero calculado do gênero com uma humanidade surpreendente em determinados momentos, especialmente nas cenas que envolvem dinâmicas familiares com um humor mais contemporâneo e inclusivo. A presença de Kenan Thompson, mesmo em sequência de impacto menor, é um deleite para qualquer fã de comédia das últimas décadas, e o simples ato de vê-lo na tela traz consigo anos de afeto popular bem sedimentado.


A trama sabe que sua missão é entreter, e essa consciência o liberta de qualquer ansiedade artística desnecessária. Há uma honestidade refrescante na maneira como Todo Mundo em Pânico se apresenta ao mundo: sem pretensões de redefinir o gênero, mas com a competência e o prazer de quem domina seu ofício. Em tempos nos quais tanto conteúdo audiovisual tenta ser simultaneamente tudo para todos e acaba não sendo nada para ninguém, um produto que sabe exatamente o que é e entrega isso com generosidade tem um valor que não deve ser subestimado.
Conclusão
Para quem cresceu com a franquia, é um reencontro emocionante com velhos amigos em forma. Para os novatos, é uma porta de entrada divertidíssima para um universo que combina cinefilia e palhaçada com um equilíbrio que pouquíssimas produções conseguem. Os Wayans estão de volta, e a sessão vale cada segundo.
Confira o trailer:
Ficha Técnica
Direção: Michael Tiddes;
Roteiro: Shawn e Keenen Ivory Wayans, Rick Alvarez e Craig Wayans;
Elenco: Anna Faris, Regina Hall, Marlon Wayans, Shawn Wayans, Chris Elliott, Dave Sheridan, Cheri Oteri, Damon Wayans Jr;
Gênero: Comédia, Paródia, Terrir;
Duração: 95 minutos;
Distribuição: Paramount Pictures;
Classificação indicativa: 18 anos;
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