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Todas as cores de Brasília traduzidas em arte urbana

Arquivo Geral

30/04/2014 7h00

Os traços retilíneos característicos de Brasília e o canteiro de obras que permeou – e ainda permeia – a expansão da capital federal para as regiões administrativas têm ganhado cada vez mais cor graças aos grafites, inscrições artísticas gravadas sobre diferentes superfícies das ruas da cidade.

Por muito tempo comparado com pichação, o grafite se incorporou no rol das artes visuais urbanas. Pelos quatro cantos, o Distrito Federal exala a arte urbana dos grafiteiros. Seja em uma simples placa revitalizada na UnB, ou em centros de cultura, caso do Espaço Cultural Renato Russo (508 Sul). O grafite está por toda parte.

O coordenador-geral da Rede Urbana de Ações Socioculturais (R.U.A.S), Antônio de Pádua, acentua a importância do grafite em Brasília. “É um meio de inserção social. São tantas as obras espalhadas pela cidade que é impossível precisar um número, principalmente pelo caráter efêmero do grafite”, ressalta.

Segundo Antônio, a Praça do Cidadão, localizada em Ceilândia Norte, é um dos pontos de maior concentração desse tipo de intervenção urbana. Na pracinha, vê-se grafite nas residências, nos muros e até na farmácia popular do local. “A cidade e a população clamam pela intervenção da bela arte. Foram os próprios donos da farmácia que pediram para que os grafiteiros deixassem sua marca por lá”, conta.

 

Grafitaço

Artista, grafiteiro e responsável pela pintura de várias intervenções urbanas espalhadas por Brasília, Julimar Pereira dos Santos relembra alguns momentos marcantes do grafite na história da cidade, como o primeiro Grafitaço, realizado em 2011. O evento reuniu mais de cem grafiteiros para pintar os tapumes que envolviam a construção do novo Estádio Nacional Mané Garrincha. “A ação representava a contagem regressiva dos mil dias que antecediam a Copa do Mundo”, explica.

Outro grande evento de ação urbana foi realizado no aniversário de Brasília do ano passado. Em homenagem ao título  de Capital Ibero-americana da Juventude , a festança, um mutirão de jovens grafiteiros ocupou o Museu da República para construir a chamada Praça Ibero-americana da Juventude. “Foi uma linda ação”, diz Julimar.

 

Co-produção feita em spray

O famoso muro do Espaço Cultural Renato Russo é um marco da arte do grafite na cidade. Em uma ação realizada em 2009, em comemoração ao ano da França no Brasil, o centro cultural ganhou contornos e coloridos que permanecem (quase) inalterados até os dias de hoje. Produtora cultural e coordenadora do evento intitulado O Encontro! Arte Urbana em Brasília, Tereza Rolemberg explica como foi realizada a obra, que contou com o apoio do GDF: “Reunimos em torno de oito grafiteiros brasileiros e quatro franceses para pintar o espaço. Foram dias grafitando, mas o resultado valeu muito a pena”. Segundo ela, algumas ações individuais de grafiteiros foram feitas após a data mas, no geral, o Renato Russo ainda conta com vários traços deixados pelo evento.

 

Saiba Mais

Sancionada pela presidente Dilma Rousseff, a Lei 12.408 de 2011 regularizou a prática do grafite.

Segundo detalha a lei, a prática do grafite é permitida desde que consentida pelo proprietário particular e autorizada pelo órgão competente, observadas as normas de conservação do patrimônio histórico a artístico nacional.

A Rede Urbana de Ações Socioculturais – R.U.A.S trabalha desde 2007 com a revitalização de espaços públicos e inserção de jovens na sociedade por meio da arte urbana.

Antes representados pela extinta Cufa – DF (Central Única das Favelas), que hoje só existe em âmbito nacional, o R.U.A.S, foi oficializado como instituição no último dia 12 de abril.

 
Dos muros para o cinema
A importância do grafite ganhou destaque também na sétima arte. O tema virou um longa-metragem nas mãos dos diretores Marcelo Mesquita e Guilherme Valiengo. Cidade Cinza, é o nome do documentário que estreou no circuito de festivais pela mostra É Tudo Verdade do ano passado.
O filme acompanha a trajetória de grafiteiros brasileiros como Os Gêmeos, Nina e Nunca, na São Paulo brutalizada e cimentada. Depois de uma nova lei de combate à poluição visual, a prefeitura passou a cobrir as pinturas de cinza. “O grafite é a voz das ruas, do povo é uma maneira de inserção social. E é democrático. Basta você pegar uma lata e sair para rua”, exclama o cineasta Marcelo Mesquita.
 
Colaborativo
O filme é independente e, por não ter conseguido captar todos os recursos necessários via Lei de Incentivo, contou com a ajuda do financiamento colaborativo. Era necessário R$ 83 mil para que o longa fosse lançado e, após 530 apoiadores, foi arrecadado um valor superior a R$ 98 mil.
 
Sorriso como ponto de partida
A paixão pela arte urbana motivou o sociólogo carioca Rafael Hiran a largar tudo para se inserir no mercado artístico. Há três anos em Brasília, ele hoje é reconhecido como um dos maiores grafiteiros do País.
Na capital, ele deixou a marca do grafite e de seu personagem, Angatu, em mais de cem pontos da cidade. Criado em 1998, Angatu é seu personagem central. “Uma alma boa, feliz”, traduz o artista, que usou a língua tupi-guarani como inspiração para a escolha do nome.
O largo sorriso do personagem pode ser contemplado na exposição Angatu e Pez – O Poder do Sorriso, em cartaz até o dia 23 de maio no Instituto Cervantes (707/907 Sul). Na mostra, 22 telas originais de Hiran dividem espaço com 19 obras do aclamado artista contemporâneo espanhol El Pez.
 
Obra de arte
Para além da exposição, a figura de Angatu se faz presente em placas da Universidade de Brasília (UnB), no Lago Norte, em muros do Sudoeste e até numa obra em construção em Águas Claras. “A construção estava largada. Transformei o canteiro de obras em obra de arte”, brinca.
O artista participa, ainda este ano, em Miami, do Arte Basel, um dos maiores encontros de arte contemporânea do mundo. “O grafite é um braço desse encontro. Seu reconhecimento é mundial”, destaca.
 

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