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Teatro e Dança

Teatro Engrenagem recebe estreia de Cicuta, montagem que aproxima filosofia e democracia contemporânea

Montagem do Grupo-Teatro Caleidoscópio estreia no Teatro Engrenagem e utiliza a história de Sócrates para provocar reflexões sobre democracia, educação e pensamento crítico em tempos de polarização

Aline Teixeira

31/07/2026 5h00

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Foto: Andre Amahro

Nesta sexta-feira (31), estreia no Teatro Engrenagem o espetáculo Cicuta (ou Um tal de Sócrates), montagem do Grupo-Teatro Caleidoscópio que transforma o julgamento e a morte de Sócrates em um convite à reflexão sobre os desafios da democracia e da educação nos dias atuais.

Longe de apresentar Sócrates como uma figura distante dos livros de história, a peça reconstrói seu julgamento e condenação como um espelho das tensões que ainda atravessam a sociedade contemporânea. Questões relacionadas à democracia, ao pensamento crítico e à educação aparecem no centro da narrativa.

Para o dramaturgo e diretor do espetáculo, revisitar a trajetória do filósofo foi uma forma natural de discutir desafios atuais. “Percebi que Sócrates nunca deixou de ser contemporâneo. Hoje, como na Atenas do século IV a.C., a democracia depende da capacidade de pensar criticamente, dialogar e discordar com responsabilidade. Ao revisitar sua história, compreendi que discutir educação é, inevitavelmente, discutir o futuro da própria democracia.”

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Foto: Andre Amahro

A proposta da montagem não é oferecer respostas prontas ao público, mas provocar questionamentos. Segundo o diretor, o teatro pode ser um espaço privilegiado para o exercício da reflexão em tempos marcados pela polarização e pela velocidade da informação. “O teatro não deve oferecer respostas prontas, mas formular boas perguntas. Nossa intenção é criar um espaço de reflexão, onde o público confronte suas próprias convicções e perceba que a democracia depende menos de certezas e mais da disposição para pensar, dialogar e assumir a responsabilidade pelas escolhas que faz.”

Um Sócrates interpretado por uma mulher

Um dos elementos que mais chamam atenção na montagem é a escolha de Vanessa Di Farias para interpretar Sócrates. Integrando um elenco majoritariamente feminino, a atriz assume um dos personagens mais emblemáticos da filosofia ocidental.

Para o diretor, a decisão está ligada à própria natureza do fazer teatral. “O teatro é, por excelência, o território do simbólico. Nele, a identidade de gênero do intérprete não limita a personagem, porque o ator é um corpo ficcional capaz de dar existência a qualquer experiência humana.”

Mais do que uma inversão de expectativas, a escolha amplia as possibilidades de leitura da obra. De acordo com ele, a presença de Vanessa acrescentou novas camadas à encenação. “A escolha de Vanessa Di Farias para viver Sócrates reafirma essa liberdade poética e desloca o olhar do público para aquilo que realmente importa: as ideias.”

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Foto: Andre Amahro

O diretor destaca ainda que a atuação da artista, uma mulher negra, permitiu incorporar referências à mitologia dos Orixás nos debates sobre religiosidade presentes no espetáculo. “Sua presença trouxe novas camadas à dramaturgia ao incorporar, de forma orgânica, referências à mitologia dos Orixás no debate sobre os deuses, ampliando a reflexão sobre diversidade religiosa e mostrando que o pensamento filosófico floresce justamente quando diferentes tradições entram em diálogo, e não quando uma pretende silenciar a outra.”

Teatro e educação como ferramentas de emancipação

A defesa da educação como instrumento de emancipação crítica é um dos pilares da montagem. Em cena, a história de Sócrates se transforma em uma reflexão sobre a importância do conhecimento e da capacidade de questionar.

Para o dramaturgo, o teatro ocupa um papel fundamental nesse processo justamente por oferecer uma experiência oposta à lógica das redes sociais. “O teatro desacelera o pensamento. Enquanto as redes sociais favorecem respostas imediatas, ele convida à escuta, à dúvida e ao encontro com perspectivas diferentes.”

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Foto: Andre Amahro

Na visão do diretor, a educação e a arte compartilham a responsabilidade de estimular a autonomia intelectual e a capacidade de diálogo. “Educadores têm um papel decisivo: estimular a curiosidade, o diálogo e a autonomia intelectual, em vez de cristalizar crenças ou saberes. Teatro e educação, juntos, formam cidadãos mais críticos, sensíveis e preparados para a vida democrática.”

Com trilha sonora original executada ao vivo por Elias Santos, iluminação de Claudio Lago e direção de arte assinada por Amahro e Lago, Cicuta (ou Um tal de Sócrates) aposta na força da palavra e do pensamento para aproximar um dos maiores filósofos da história das inquietações do Brasil contemporâneo.

Serviço
Cicuta (ou Um tal de Sócrates)
Quando: de 31 de julho a 9 de agosto
Horários: sextas-feiras, às 20h; sábados e domingos, às 18h
Onde: Teatro Engrenagem (SHCGN 708/709 Bloco B, entrada 30, subsolo)
Ingressos: a partir de R$ 30
Duração: 60 minutos
Classificação indicativa: 14 anos
Bilheteria: Sympla – Cicuta (ou Um tal de Sócrates)

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