No palco, atrás das cortinas ou mesmo improvisando em espaços alternativos, o teatro segue vivo, pulsando como um dos mais potentes instrumentos de expressão cultural. Celebrado nesta sexta-feira (27), o Dia Mundial do Teatro é, para artistas do Distrito Federal, mais do que uma data simbólica, é um convite à reflexão sobre os caminhos, desafios e a força de uma cena que resiste.
O teatro, uma das mais antigas formas de expressão artística, tem origens na Antiguidade e foi consolidado na Grécia Antiga, influenciando o desenvolvimento da linguagem teatral no Ocidente ao longo dos séculos. Presente em diferentes culturas e épocas, evoluiu em diversos gêneros e se espalhou pelo mundo, chegando ao Brasil no século XVI com os jesuítas. Para valorizar essa arte, o Instituto Internacional do Teatro criou, em 1961, o Dia Mundial do Teatro, com o objetivo de promover sua importância, incentivar artistas e comunidades teatrais, ampliar o acesso do público e difundir a arte como instrumento de reflexão, cultura e alegria.
Com mais de três décadas de trajetória, a atriz e diretora Juliana Drummond traduz esse sentimento ao falar da própria relação com a arte. “O teatro é uma parte essencial da nossa identidade cultural. É um espaço onde podemos nos expressar, questionar e refletir sobre a realidade”, afirma. Para ela, a data reforça a necessidade de valorização contínua da arte e de quem a produz. “O teatro tem um papel fundamental em promover inclusão, diversidade cultural e senso crítico.”
A trajetória de Juliana começou em 1995, na Oficina dos Menestréis, e desde então atravessa diferentes linguagens: do palco à televisão, da formação de novos artistas à direção de espetáculos. Em Brasília, ela também ajudou a construir coletivos e projetos que seguem ativos, como a Cia. Infiltrados Teatro de Ocupação. Ainda assim, os desafios persistem e são concretos. “Um dos maiores problemas são os espaços. São poucos, disputados e, muitas vezes, sem estrutura adequada”, relata. A consequência, segundo ela, é uma sensação constante de recomeço. “É como se a gente estivesse sempre começando do zero, sem conseguir criar uma base sólida para o trabalho”, declara a atriz.

Essa realidade também é percebida por outros grupos da cidade. Fundada em 2012, a Companhia Novos Candangos aposta em uma linguagem contemporânea e acessível, com a proposta de um “teatro pop”, que começa pelo riso, mas convida à reflexão. Para o diretor Diego de León, o teatro é, antes de tudo, encontro. “Teatro é troca viva. Buscamos criar espetáculos que dialoguem com o público, que convidem a estar junto, a se reconhecer. O que nos move é a comunicação que chega e atravessa”, explica.
Ao contrário do que se imagina, ele não vê as novas tecnologias como ameaça direta. “Quando surgem novas mídias, sempre anunciam o fim de algo. Mas as linguagens se reorganizam. O problema do teatro hoje é visibilidade e acesso”, pontua. Segundo ele, enquanto grandes produções concentram divulgação e público, trabalhos locais seguem à margem, mesmo com qualidade.
A formação de plateia, aliás, aparece como um dos principais pontos de atenção. “O público brasiliense é receptivo, mas precisa ser convocado”, diz Diego. A barreira, muitas vezes, não é o desinteresse, mas a falta de acesso ou identificação com os espaços culturais.
Se para alguns grupos o desafio está na ocupação dos palcos, para outros ele passa pela preservação de tradições. É o caso do Mamulengo Presepada, referência no teatro popular de bonecos no DF, criado nos anos 1980 pelo mestre bonequeiro Chico Simões.

Com mais de 40 anos dedicados à arte, Chico relembra o primeiro contato com o mamulengo, uma paixão à primeira vista que nasceu ainda na juventude e se consolidou em viagens pelo Nordeste, convivendo com mestres da cultura popular. “O mamulengo é uma brincadeira viva, feita de improviso e comunicação direta com o público”, explica.
A linguagem, marcada por bonecos de madeira, música e histórias que misturam humor e crítica social, carrega também um forte papel formador. “A gente não forma só plateia, forma cidadãos”, afirma. Para ele, o teatro, especialmente o popular, é uma ferramenta de educação e de conexão entre gerações.
Apesar do reconhecimento como patrimônio cultural, Chico ressalta a necessidade de políticas públicas mais efetivas. “Agora precisamos de ações de salvaguarda, para fortalecer e difundir essa cultura”, defende.
Em Brasília, onde cerca de 20 grupos mantêm viva a tradição do mamulengo, o contato com o público acontece principalmente em escolas, o que ajuda a formar novas gerações de espectadores. Ainda assim, Chico faz um convite. “O teatro é para todos. Crianças e adultos podem se divertir juntos”, afirma.
Espetáculo neste final de semana
Essa capacidade de reunir diferentes públicos também se manifesta em novas propostas cênicas. É o caso do espetáculo imersivo “Vinicius”, que acontece nesta sexta 27 e sábado 28, no Teatro Mapati. Codirigido por Juliana Drummond, o projeto recria o ambiente intimista das reuniões promovidas por Vinicius de Moraes, aproximando plateia e atores.
Com sessões para apenas 45 pessoas, a montagem rompe a chamada “quarta parede” e transforma o público em parte da cena. “A ideia é que as pessoas se sintam dentro da casa do poeta, participando daquela atmosfera”, explica Juliana. A experiência mistura música ao vivo, narrativa e interação direta, uma tentativa de reinventar a relação com o espectador. “Fazer arte em Brasília é um desafio, mas é justamente isso que torna a cena tão resiliente”, resume Juliana.
SERVIÇO
LOCAL: Teatro Mapati (St. de Habitações Coletivas e Geminadas Norte 707 CASA 13 – Asa Norte, Brasília – DF, 70740-741
DATAS: 27 e 28 de Março (sexta-feira e sábado)
HORÁRIO: 19h (não será tolerado atrasos)
CAPACIDADE: 45 pessoas
CLASSIFICAÇÃO: 18 anos
DURAÇÃO MÉDIA DA PEÇA: 120 minutos.