Existe uma Brasília que raramente aparece nos roteiros turísticos ou nos cartões-postais da capital. É desse território que nasce Príncipe do Gueto, novo espetáculo de Roni Sousa, que estreiou com sessões gratuitas entre os dias 11 e 13 de maio, no Centro de Ensino Médio 04 de Sobradinho II. Agora a temporada segue na Casa dos 4, na Asa Norte, entre os dias até domingo (17). Com direção de Humberto Pedrancini, a montagem propõe um mergulho nas experiências da juventude periférica do Distrito Federal, abordando temas como violência, afeto, sobrevivência e desejo de ascensão.
Estruturada em três atos, a peça acompanha a trajetória de Príncipe, jovem atravessado por ciclos de exclusão, expectativas e enfrentamentos cotidianos. Livremente inspirada na trajetória de Roni Sousa que é filho de migrantes nordestinos, nascido e criado na Vila Rabelo, em Sobradinho II, a dramaturgia estabelece uma ponte entre memória individual e questões coletivas, transformando experiências pessoais em reflexão social.

Segundo o artista, o processo de criação foi construído ao longo de anos de pesquisa, leituras e experimentações em cena. “Quando comecei a ler autores como Conceição Evaristo, Édouard Louis e James Baldwin, fui entendendo que escrever sobre si também podia ser uma forma de elaborar questões coletivas, sociais e políticas. No teatro, não basta contar uma história, é preciso transformar memória em ação, em conflito, em presença”, afirma. De acordo com ele, o espetáculo nasceu do encontro entre escrita autobiográfica, improvisação e trabalho coletivo em sala de ensaio.
Além da dramaturgia, Príncipe do Gueto incorpora projeções audiovisuais gravadas na própria Vila Rabelo com jovens da comunidade. Para a construção das cenas em vídeo, Roni promoveu oficinas de teatro e cinema com moradores da região, aproximando adolescentes da linguagem artística e transformando o bairro em cenário e personagem da obra.

Durante o processo de preparação do espetáculo, o contato com os jovens das oficinas também provocou novas leituras sobre família, futuro e pertencimento. “Trabalhar com os jovens do meu bairro me atravessou muito. Ver o quanto eles sonham, o quanto querem existir, ser vistos e reconhecidos, renovou minha fé na arte e até na vida”, relata.
Ao longo das oficinas, realizadas em ruas, estacionamentos e espaços públicos da Vila Rabelo, Roni viu a transformação dos participantes diante da experiência artística. “No começo, muitos estavam tímidos, nunca tinham tido contato com teatro ou cinema. Aos poucos, foram perdendo a vergonha e começaram a sentir orgulho de fazer parte daquilo. No final do processo, já ocupavam os espaços de outra maneira, mais livres, mais confiantes, mais presentes”, conta.
O vínculo com o território, segundo o ator, é inseparável da criação artística. “A Vila Rabelo é um território muito complexo e muito potente. Cresci entre morros, vegetação e num contato muito intenso com a natureza. Mas também vivi de perto processos de remoção, perdi amigos e familiares para o crime e para as drogas. Cresci entendendo que a periferia não pode ser reduzida a um único discurso”, diz. Para ele, a arte surge justamente da necessidade de disputar outras narrativas sobre esses espaços.

A escolha de estrear o espetáculo em uma escola pública de Sobradinho II também carrega significado simbólico. Roni conta que espera que os jovens se reconheçam na história e possam ampliar suas perspectivas sobre o próprio futuro. “Na idade deles, eu ouvi, inclusive dentro da escola, que não teria futuro, que não seria nada. Durante muito tempo achei que meu destino já estivesse traçado. Hoje entendo que sobreviver e construir outro caminho também é uma forma de resistência”, afirma.
Mais do que retratar a dor ou a precariedade, o artista ressalta que a proposta da montagem é construir identificação e humanidade. “Não me interessa produzir uma visão exotificada da periferia. O espetáculo não quer transformar a dor em espetáculo. O que me interessa é criar identificação, desconforto, reflexão e humanidade”, explica.
Serviço
Príncipe do Gueto
Quando: 15 e 16 de maio – 20h, 17 de maio – 19h
Local: Casa dos 4, Asa Norte, Brasília
Ingressos: R$ 40 (inteira) e R$ 20 (meia) pelo link