A força e a complexidade do universo feminino atravessam a montagem “Se Eu Fosse Eu – Clarices”, que chega ao Espaço Cultural Renato Russo para uma curta temporada até domingo (22). O espetáculo, encenado na Sala Multiuso Túllio Guimarães, terá sessões às 20h de quinta a sábado e às 19h no domingo.
Inspirada em três contos marcantes de Clarice Lispector, a peça propõe uma imersão nas inquietações da autora, transformando sua escrita introspectiva em uma experiência cênica sensorial. Estão na base da montagem os textos O ovo e a galinha, Miss Algrave e Perdoando Deus.
Segundo a atriz Juliana Drummond, o processo de adaptação foi “um desafio criativo e orgânico”. A montagem nasceu a partir do conto O ovo e a galinha, interpretado por Camila Guerra, que impulsionou a escolha dos outros textos. “As atrizes se envolveram de forma profunda no projeto, cada uma ficando responsável pelo conto da outra, dirigindo e construindo juntas a fusão dos três contos”, explica.

A construção dramatúrgica partiu de leituras e experimentações. “Buscamos manter a essência e a linguagem poética de Clarice, mas adaptando para o formato cênico. O livro virou nosso oráculo, fazíamos leituras aleatórias para guiar o processo criativo”, conta Juliana. Entre as adaptações, O ovo e a galinha passou por cortes para se adequar à estrutura da peça, enquanto Miss Algrave teve mudanças na ordem e Perdoando Deus se manteve mais fiel ao original.
A encenação aposta em um ambiente íntimo. As três atrizes permanecem no palco durante toda a apresentação, transformado em uma cozinha onde um bolo é preparado ao longo do espetáculo. “Durante uma hora, o público é convidado a se conectar com temas como maternidade, prazer e existência, apresentados de forma explícita e verdadeira”, afirma.

Elementos simbólicos ajudam a construir a narrativa. “O rato, presente em Perdoando Deus, representa o conflito existencial e a espiritualidade. A maçã, em Miss Algrave, traz o símbolo do pecado e do prazer. Já o ovo, em O ovo e a galinha, se relaciona à maternidade”, detalha a atriz. A própria preparação do bolo também ganha significado. “É um processo orgânico e sensorial, com cheiro, sabor e texturas que evocam as experiências femininas.”
Para Juliana, a montagem funciona como uma metáfora da vida. “A encenação é uma metáfora para a vida, com todas as suas complexidades e emoções. É um convite para refletir sobre a própria existência e se conectar com as próprias experiências.”
Além da atuação, direção e concepção assinadas por Camila Guerra, Juliana Drummond e Rosanna Viegas, o espetáculo também carrega a força de um processo coletivo. Integrantes da Agrupação Teatral Amacaca, grupo ligado ao legado do diretor Hugo Rodas, as artistas constroem a montagem a partir da escuta e da troca. “É um processo bem orgânico, de muita comunicação. A direção é compartilhada e a concepção nasce desse encontro de ideias”, explica.

A criação também foi atravessada por experiências fora do palco. Oficinas realizadas com mulheres em situação de vulnerabilidade em regiões como Ceilândia, São Sebastião e Estrutural contribuíram diretamente para a dramaturgia. “Isso nos trouxe um material riquíssimo, que influenciou muito a concepção do espetáculo”, diz.
Para as criadoras, revisitar a obra de Clarice Lispector amplia o debate sobre identidade e liberdade. “É uma oportunidade de conectar as mulheres a uma narrativa que fala diretamente a elas, sobre elas e para elas. Um convite para se reconhecer e se empoderar”, conclui Juliana.
SERVIÇO
Se Eu Fosse Eu – Clarices
Espaço Cultural Renato Russo 508 Sul – Sala Multiuso Túllio Guimarães
De 19 a 22 de março de 2026
Quinta a sábado às 20h
Domingo às 19h
Ingressos disponíveis via Sympla
R$ 80 (inteira) e R$ 40 (meia)
Doadores de um pacote de absorventes pagam meia
Classificação indicativa: 18 anos