A complexidade das relações familiares e os desafios de lidar com a saúde mental na adolescência estão no centro de “O Filho”, peça do dramaturgo e cineasta francês Florian Zeller, que ganha sua primeira montagem brasileira. Depois de passar por mais de 20 países e também ser adaptado para o cinema, o espetáculo chega a Brasília para duas apresentações no Teatro UNIP, neste fim de semana.
Com direção de Léo Stefanini, a montagem reúne no elenco Maria Flor, Gabriel Braga Nunes, Bruna Miglioranza, Andreas Trotta, Marcio Marinello e Luciano Schwab. A peça acompanha Nicolas, adolescente de 16 anos que atravessa um quadro de depressão e se sente perdido diante das transformações da juventude. Filho de pais separados, ele deixa a casa da mãe para morar com o pai, em uma tentativa de encontrar algum sentido para o momento que vive.

O espetáculo marca o segundo trabalho de Stefanini com uma obra de Zeller. Antes, o diretor esteve à frente de “O Pai”, montagem que rendeu o Prêmio Shell de melhor ator a Fúlvio Stefanini. A ideia de levar “O Filho” aos palcos brasileiros, segundo o diretor, existe desde 2018.
“Graças ao sucesso de ‘O Pai’, reconhecido pelo próprio Florian, que nos parabenizou pelo trabalho em sua rede social, foi muito legal podermos trazer ‘O Filho’, que também ambienta esse conturbado universo das relações familiares”, afirma Stefanini.
Reflexão sobre a dificuldade
Na montagem, o drama de Nicolas também se transforma em uma reflexão sobre a dificuldade de familiares e pessoas próximas reconhecerem e compreenderem os sinais de sofrimento psicológico. Para Gabriel Braga Nunes, que interpreta o pai do adolescente, a história expõe justamente a falta de repertório das famílias para lidar com questões relacionadas à saúde mental.

“Acho bonita a luta desse pai e dessa mãe, que fazem o seu melhor. A luta é de todos. A comunicação não é fácil e o ato de simplesmente prestar atenção pode ser revolucionário dentro de casa”, afirma o ator.
A dificuldade de comunicação aparece como um dos elementos centrais da narrativa. Mais do que explicar diretamente o que os personagens sentem, o texto trabalha com aquilo que permanece oculto, criando uma rede de silêncios, tentativas de aproximação e incompreensões. É justamente nas entrelinhas que Maria Flor, intérprete da mãe de Nicolas, encontra parte da força da montagem.
“Eu acho que a encenação e o texto são muito delicados. Eu acho que a gente faz um trabalho, como atores, de tirar do texto tudo aquilo que precisa ser dito, tudo aquilo que precisa ser encenado. Para mim, o objetivo central é estar conectado àquilo que aqueles personagens estão tentando dizer e, muitas vezes, não conseguindo dizer”, explica.

A abordagem da peça também evita apresentar respostas fáceis para o sofrimento de Nicolas. O texto de Zeller mergulha na tentativa dos pais de compreender o filho e encontrar maneiras de ajudá-lo, ao mesmo tempo em que expõe os limites dessa tentativa. Para Gabriel Braga Nunes, a experiência reforça a necessidade de atenção permanente às pessoas próximas.
“O que mais nos desafia é perceber que pessoas e relacionamentos não são tão previsíveis. Portanto, precisamos estar atentos a quem amamos. Buscar ajuda não é vergonha para ninguém. Pelo contrário”, diz o ator.
Stefanini destaca que a escolha do tema acompanha uma questão que considera relevante para a sociedade atual. A depressão entre adolescentes, segundo o diretor, aparece na peça como um ponto de partida para uma discussão mais ampla sobre os caminhos possíveis diante do sofrimento psíquico.
“Não faltam dados que comprovam o aumento exponencial de casos, em todas as classes sociais, em grande parte dos países do mundo. Não à toa a peça se tornou uma febre, sendo montada em todos os continentes. E poder jogar luz sobre o tema é importante para impactar o público de maneira única, provocando a reflexão sobre os caminhos possíveis para a redução de um quadro alarmante”, explica.
Em cena, a proposta do diretor é concentrar a atenção nos atores e nas relações construídas entre os personagens. Em vez de recorrer a uma estrutura visual carregada, a montagem aposta na proximidade e nas expressões dos intérpretes para conduzir o público pelo drama familiar.

“O público vai acompanhar um espetáculo em ‘close’, valorizando cada detalhe da trama através de seus olhares e expressões. Neste sentido, não há ‘pirotecnia’ na cena. O cenário, a luz e a trilha seguem a sinteticidade proposta pelo texto”, acrescenta Stefanini.
Para Maria Flor, essa proximidade entre público e personagens pode ser justamente um dos principais efeitos da experiência teatral. Ao acompanhar a trajetória de Nicolas e as tentativas dos pais de compreendê-lo, a atriz espera que o espectador leve para fora do teatro uma reflexão sobre a importância de ouvir e reconhecer os filhos em suas individualidades.
“Então, para mim, se uma mãe, se um pai, se uma família sai da peça pensando: é importante eu ouvir meu filho, é importante eu olhar para ele, eu reconhecer quem ele é e eu respeitar quem ele é, eu acho que isso é o mais interessante”, afirma.
Serviço
[Drama] O Filho
Local: Teatro UNIP — SGAS 913
Temporada: 26 e 27 de setembro
Horários: sábado, às 20h; domingo, às 19h30
Ingressos: a partir de R$ 25 (meia) pelo site