Suzana Varjão, especial para o Jornal de Brasília
“Moraes Musical Moreira” ocupou o palco do Teatro Nacional de Brasília neste último final de semana, recriando a trajetória do fundador do lendário grupo Novos Baianos e reafirmando o gênero teatral como uma das mais genuínas, expressivas e transgressoras manifestações artísticas.
A história é contada a partir de dois eixos temporais – um, centrado na figura do ainda jovem Antônio Moreira, tocador de sanfona nas festas de São João da cidade de Ituaçu, sertão baiano, onde nasceu; outro, do artista já consagrado, o Moraes Moreira da guitarra elétrica e dos carnavais de Salvador.
Mas o truque dos universos paralelos é apenas um dos elementos mágicos utilizados pelos encenadores para descolar o espectador do realismo biográfico e mergulhá-lo no fantástico universo musical do primeiro cantor de trios elétricos do País.

À narrativa não-linear, somam-se outros recursos cênicos transgressores, como o da “musa” do artista, na verdade, a música, ou seja, uma alegoria, personificada por uma mulher – não por acaso, negra, como negras são as raízes da musicalidade brasileira.
Como que exercitando a máxima filosófica de que “é preciso ouvir para ver”, a musa-música perpassa todo o espetáculo, de modo incógnito, para revelar-se apenas no final como um ser abstrato, fio condutor da criatividade e da produção do artista baiano.
Na iluminação, uma fusão significativa de elementos: alto-falantes dos quais não saem sons, mas luz, expondo a opção dos encenadores pela contravenção, pela desobediência a limites rígidos entre recursos cênicos, formas de expressão, linguagens artísticas.

Mesclando gêneros narrativos, invadindo fronteiras artísticas e estabelecendo diálogos entre dança, música, literatura e dramaturgia, a montagem faz jus ao cordelista, instrumentista, cronista, intérprete, poeta e compositor que transitou com desenvoltura pelo rock, pelo samba, choro, frevo, baião e música erudita.
À ousadia da dramaturgia e da direção cênica soma-se a consciência política. Fiel ao autor da trilogia Lá Vem o Brasil Descendo a Ladeira, O Brasil Tem Concerto e Meu Nome é Brasil, o espetáculo é salpicado de questões sociais – além do viés racial, a diversidade do amar, as drogas, o apartheid dos blocos de carnaval…
Tudo com sutileza, com leveza, num exercício mais sensorial do que discursivo – como de resto toda a encenação. Um exercício que salta do palco para traduzir-se em serviço, com a intérprete de libras figurando como um contraponto: o de que, assim como é preciso “ouvir para ver”, para alguns, é preciso ver para ouvir.

E os que não conseguem ouvir os acordes e o coro afinado de vozes podem “ver” os sons que compõem a melodia chamada Moraes Moreira, suas diferentes fases e facetas, os encontros com criadores que o influenciaram e o constituíram, como Luiz Gonzaga, Tom Zé, João Gilberto, Assis Valente, Luiz Galvão…
Traduzindo em formas e cores as fases e facetas do artista, um figurino igualmente plural, alegórico, popular, vibrante, repleto de referências nordestinas, com significados diversos e, ao mesmo tempo, atados por uma lógica geral – que nem um varal de livretos de cordel.
Como se fossem versos, os atores recriam os passos de um dos mais versáteis artistas brasileiros. Versos saltimbancos. Sem dissonâncias. Impressionante, a homogeneidade do elenco encabeçado por Cris Meirelles (o artista em formação), Rodrigo Sestrem (o artista maduro) e Júlia Tizumba (a musa-música).
Enfim, um espetáculo pensado nos mínimos detalhes e executado por um time de mais de 100 profissionais, que conseguem colocar figurino, iluminação, cenário, música, vozes, coreografia, interpretação e dramaturgia a serviço de uma “arte-memória” popular plena de beleza estética, domínio técnico e significado cultural.
Regendo essa espécie de orquestra multiartística, dois baianos: Fábio Espírito Santo e Ana Paula Bouzas – ele, no exercício da dramaturgia; ela, estreando na direção; um talento que se firma e uma grande revelação, graças à Lei Rouanet, que segue fomentando a cultura em território nacional.
E o Brasil aplaude.