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Teatro e Dança

‘Meu Nome é Fernando’ expõe a herança tóxica da masculinidade brasileira

Espetáculo da Casa de Ferreiro transforma relatos reais em uma dissecação crua da homofobia paterna até domingo, no Sesc da 504 sul

Alexya Lemos

21/11/2025 5h00

Atualizada 22/11/2025 13h12

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Foto: Divulgação

Um filho diante do pai morto, uma mala repleta de cartas nunca enviadas e um silêncio que atravessou décadas. É nesse cenário que “Meu Nome é Fernando”, em cartaz até domingo (23) no Sesc Ary Barroso (504 Sul), constrói seu rito de acerto de contas. A montagem, assinada e protagonizada por Bruno Estrela, expõe a anatomia da rejeição familiar e a violência estrutural da homofobia paterna, convertendo o funeral em arena íntima, onde o público testemunha o dissecamento de uma relação interrompida.

Estrela, premiado no Paraná e reconhecido no FESTCARAS e no Prêmio SESC + Cultura, encara o papel como um mergulho na ruína que molda identidades. Ele descreve o trabalho como um desarmamento emocional, em que precisou permitir que memórias difíceis se aproximassem sem filtros. “Deixei que a memória do desamor me invadisse como uma ‘bad trip’ controlada. E, à medida que o processo avançava e eu descobria aquelas coisas tão cruéis e absurdas que aconteceram na vida do personagem, passei a ter uma certa vergonha dos meus dramas”, conta Bruno.

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Foto: Divulgação

Um mergulho emocional sem defesas

Para ele, a solidão que cerca essas vivências é uma ilusão socialmente construída. Ele reflete que, ao juntar cartas fictícias do personagem com relatos reais enviados por pessoas anônimas, revelou-se um padrão: a rejeição e a homofobia vindas dos pais não são casos isolados, mas quase um “manual de criação da masculinidade brasileira”. A recepção das mensagens foi, para o artista, um atestado de que essa família disfuncional é mais regra do que exceção e o processo de reunir fragmentos de tantos “Fernandos” funcionou como uma forma de costurar dores que pertencem a milhares.

O trabalho corporal e emocional exigido pelo papel também se impôs como barreira a ser superada. Estrela destaca que interpretar a sanidade aparente é mais exaustivo do que dar corpo ao descontrole. “O desafio não está no surto, qualquer ator faz isso. O verdadeiro desafio está na contenção, em ter a crise física contida, em passar o tempo todo sendo o que não é: comum. Essa camada de normalidade, exercida por quem não a tem, é o verdadeiro terror da peça.”

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Foto: Divulgação

O ator compara o gesto a segurar “um pássaro com asas quebradas”, há desejo de voo, mas nenhum aprendizado que o sustente. É nesse lugar de vulnerabilidade profunda que Fernando se mantém: adulto, desconstruído, terapêutico, mas ainda preso ao gesto automático de esconder o choro no banheiro.

Masculinidades que moldam feridas

A partir dessa trajetória emocional, o espetáculo escancara estruturas históricas da formação masculina no país. Estrela reflete que, no Brasil, a família muitas vezes opera como uma “UTI em coma induzido”. “A masculinidade é um kit de sobrevivência que inclui a omissão como virtude paterna, o espancamento como método de conversão para ‘virar homem’, a vergonha do filho como um direito materno e o silêncio como legado. E o outro lado da masculinidade, como foi vendida ao pai de Fernando, é o kit de omissão: não olhe, não fale, e se seu filho pedir uma boneca, resolva. Se possível, agressivamente”, pontua.

Para ele, não se trata de culpabilizar gerações anteriores, mas de reconhecer que algo está profundamente errado e que a cura talvez comece com gestos mínimos de presença e vulnerabilidade. Segundo Estrela, essa dimensão coletiva atravessa a própria criação do espetáculo.

Cartas reais, dores compartilhadas

Durante meses, a Casa de Ferreiro Companhia de Teatro recebeu depoimentos anônimos pelas redes sociais, e muitos desses textos aparecem integralmente nas cartas lidas em cena. Esse material ajudou a costurar um mosaico de histórias reais que evidenciam como a rejeição familiar marca subjetividades e empurra homens para o limite.

A resposta do público também sustentou o projeto: uma campanha de financiamento coletivo superou a meta inicial e tornou possível a realização da obra sem qualquer verba pública. Para Estrela, a mobilização confirma o interesse e a confiança que a companhia consolidou ao longo dos anos.

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Foto: Divulgação

A companhia e a peça

A Casa de Ferreiro acumula distinções como o Prêmio Web de Teatro 2024 pela revitalização do Teatro Oficina Perdiz e o Prêmio Aldir Blanc por sua atuação cultural no Distrito Federal. Com direção de Silvia Viana, iluminação e direção de arte de Cleiton do Carmo e figurino de Silvia Mello, o grupo reforça seu compromisso com um teatro que não se limita ao entretenimento, mas provoca reflexão social.

A dramaturgia se inspira livremente em “Tudo Que Você Não Soube”, de Fernanda Young, mantendo o humor ácido característico da autora como contraponto à dor. A peça adota linguagem cênica própria, respeitando a vocação de Young para transformar tragédias íntimas em arte de alcance universal.

Com classificação indicativa de 14 anos, “Meu Nome é Fernando” traz cenas fortes e temas sensíveis, como rejeição parental, abandono afetivo, homofobia e tortura psicológica, e aponta para a ferida aberta de um país que ainda se debate com os alicerces emocionais que moldaram suas famílias. No centro dessa disputa, o espetáculo revela o que Estrela define como “crime íntimo”: o momento em que quem deveria ser porto seguro se torna algoz, restando ao filho assumir a culpa pelo que a vida o obrigou a se tornar.

Serviço
“Meu Nome é Fernando (ou o destino das palavras não ditas)”

Quando: 21 a 23 de novembro, sexta e sábado às 20h e domingo às 19h
Onde: Teatro Ary Barroso – SESC 504 Sul
Duração: 55 minutos
Classificação: 14 anos
Ingressos pelo site

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