Menu
Teatro e Dança

Memórias, ancestralidade e identidade se encontram em mostra de solos no Teatro Sesc Paulo Gracindo

Projeto “Mãe, Filho e as Cinzas – A Liturgia Não Contada” reúne três espetáculos autorais com entrada gratuita e recursos de acessibilidade no Gama

Aline Teixeira

07/08/2026 5h00

753163922 1444927904128288 6978960788312708423 n

Foto: Jaitai Ribeiro

Três histórias diferentes, atravessadas por memórias, afetos e experiências que ajudam a construir identidades, chegam ao palco do Teatro Sesc Paulo Gracindo, no Gama, nesta semana. Até domingo (9), a mostra Mãe, Filho e as Cinzas – A Liturgia Não Contada reúne os solos Miolo Mãe, Heranças do (A)mar e Incendiária, com direção de Kenia Dias e Thiago Carvalho. As apresentações são gratuitas, com ingressos disponíveis pelo Sympla, e contam com audiodescrição e tradução em Libras.

Realizado pelo Coletivo Poéticas da Meia Noite, com recursos do Fundo de Apoio à Cultura do Distrito Federal (FAC-DF), o projeto marca mais uma etapa da trajetória artística do grupo, que desenvolve pesquisas cênicas ligadas à memória e à construção dramatúrgica a partir de experiências pessoais.

Segundo Thiago Carvalho, diretor do coletivo e da mostra, a proposta surgiu de um processo de criação que já vinha sendo desenvolvido pelos integrantes. “Não trabalhamos com espetáculos isolados, mas com processos de pesquisa que vão amadurecendo ao longo do tempo e que se alimentam das experiências dos artistas que compõem o coletivo”, explica.

753662785 2557205924693649 675014598803980203 n
Foto: Jaitai Ribeiro

Durante esse percurso, o grupo identificou que três artistas estavam desenvolvendo obras autorais distintas, mas conectadas por temas semelhantes. “Percebemos que estavam construindo trabalhos que dialogavam profundamente em torno da memória, das heranças afetivas e das experiências que moldam nossas identidades. Em vez de apresentar esses trabalhos separadamente, entendemos que reuni-los potencializaria o encontro entre eles e também com o público”, afirma.

A diretora convidada Kenia Dias destaca que os espetáculos possuem propostas cênicas muito diferentes, mas compartilham uma característica essencial: a relação direta com a plateia. “É muito bonito ver esses jovens artistas traçando uma trajetória autoral, com esse desejo de troca com outros artistas, e ao mesmo tempo criando um modo próprio de trabalho e de criação”, observa a artista, que acumula mais de duas décadas de atuação nas artes cênicas e já desenvolveu projetos com o Grupo Galpão e o Teatro da Vertigem.

Apesar das diferenças de linguagem, Thiago acredita que existe uma pesquisa comum que conecta os três trabalhos. “Temos investigado como as memórias pessoais podem se transformar em linguagem cênica e produzir reconhecimento coletivo”, explica. Para ele, a força da mostra está justamente na diversidade de olhares. “Meu trabalho foi preservar a identidade de cada criação, fazendo com que elas dialogassem justamente porque são diferentes.”

Três caminhos para falar sobre memória

Em Miolo Mãe, Helena D’Tróia parte das histórias de seu avô maranhense e da tradição do Bumba Meu Boi para construir uma narrativa sobre ancestralidade, esperança e amor. Objetos herdados da família, como um chapéu e um maracá de ferro, ajudam a conduzir a trama e aproximam o público das memórias que inspiraram a criação.

Heranças do (A)mar apresenta um tecelão solitário que nasceu com o coração fora do peito e desenvolveu uma obsessão por histórias de amor. Em cena, Davi Dias utiliza elementos poéticos para abordar temas como luto, cura e solidão. O espetáculo conta ainda com as participações da atriz Perez Louise e do músico Mar Nóbrega.

757065197 1331211398730715 3342971244593347413 n
Foto: Jaitai Ribeiro

O terceiro trabalho da programação é Incendiária, de Fernanda Tiago. A atriz utiliza o fogo como símbolo para refletir sobre memória, resistência feminina e identidade. Misturando poesia e ciência, a obra revisita heranças familiares e experiências que marcaram a construção de sua identidade lésbica, propondo uma reflexão sobre quais chamas precisam permanecer acesas e quais devem ser apagadas.

Para Thiago Carvalho, o processo de direção exigiu cuidado especial por lidar com materiais autobiográficos. “Foi um processo construído a partir de muita escuta e confiança. Quando trabalhamos com materiais autobiográficos, existe sempre o risco de permanecer apenas na dimensão do relato pessoal”, afirma. Ao lado de Kenia Dias, ele buscou criar um ambiente em que cada artista pudesse aprofundar sua pesquisa sem abrir mão da autonomia criativa. “Dirigir não significa impor uma visão, mas construir um percurso compartilhado. A obra nasce do diálogo entre todos que participam dela.”

Após cada apresentação, o público poderá participar de conversas com os artistas. A proposta, segundo o diretor, é ampliar a experiência para além do palco. “O teatro não termina quando a apresentação acaba. As conversas são parte da própria obra, porque ampliam o espaço de escuta, permitem novas leituras e fortalecem a relação entre artistas e espectadores”, destaca.

A expectativa é que os espectadores se reconheçam nas histórias apresentadas. “Se as pessoas saírem refletindo sobre suas próprias histórias, reconhecendo algo de si na experiência do outro e compreendendo que a arte também pode ser um espaço de convivência, diálogo e transformação, acredito que teremos alcançado nosso objetivo”, conclui.

Serviço
Mãe, Filho e as Cinzas – A Liturgia Não Contada
Quando: de 6 a 9 de agosto
Onde: Teatro Sesc Paulo Gracindo (Gama)
Ingressos: gratuitos, pelo Sympla
Acessibilidade: audiodescrição e tradução em Libras em todas as sessões
Horários: quinta a sábado às 15h, 16h, 19h e 20h; domingo às 15h, 16h e 17h.

    Você também pode gostar

    Assine nossa newsletter e
    mantenha-se bem informado