Menu
Teatro e Dança

Memória e resistência LGBTQIA+ ganham cena no Sesc com “O Arco-íris no Concreto”

Indicada ao Prêmio Sesc+Cultura, O Arco-íris no Concreto ocupa o palco do Teatro Ary Barroso, no Sesc DF, de 3 a 5, com entrada franca

Aline Teixeira

03/04/2026 5h00

o arco íris no concreto. foto denise passos (4)

Foto: Denise Passos

Nesta sexta-feira (3), o O Arco-íris no Concreto estreia temporada no Sesc DF, ocupando o palco do Teatro Ary Barroso com uma narrativa que revisita a história da boate New Aquarius, símbolo da cena LGBTQIA+ brasiliense durante a ditadura militar.

Inspirado em relatos reais, o espetáculo não busca reconstituir fielmente a história da boate, mas construir um mosaico de memórias de quem viveu aquele período. “Eu comecei a ouvir histórias da New Aquarius como um espaço quase antológico, onde aconteciam shows incríveis e onde as pessoas encontravam liberdade, mesmo em um contexto de repressão muito forte”, explica o diretor e dramaturgo Sérgio Maggio.

Segundo ele, a pesquisa começou ainda nos anos 2000, a partir de escutas e relatos, e ganhou forma ao longo dos anos com a coleta de depoimentos e materiais de época. “É uma inspiração na New Aquarius, mas a peça não conta a história da boate. Ela reúne memórias de pessoas que viveram aquele espaço”, afirma.

O contraste entre liberdade e repressão é o eixo central da montagem. Durante a ditadura, frequentar espaços LGBTQIA+ significava enfrentar riscos constantes. “Você tinha ali um subsolo onde tudo era permitido, um mundo de liberdade. Mas, ao sair, esses corpos estavam ameaçados por uma estrutura de Estado violenta”, ressalta Maggio.

Ao trazer esse passado para o palco, o espetáculo estabelece um diálogo direto com o presente. Para o diretor, compreender essa trajetória é fundamental diante dos desafios atuais. “Hoje temos um arcabouço de direitos e leis que protegem, mas é importante lembrar que essa realidade só existe porque muitos corpos foram violentados antes. Não podemos enfrentar tentativas de retrocesso sem olhar para essa história”, afirma. Ele destaca ainda que, apesar dos avanços, persistem disputas políticas e sociais em torno desses direitos, especialmente no que diz respeito às identidades de gênero.

A dramaturgia aposta em uma linguagem que combina diferentes registros. Maggio define o trabalho como um “metamelodrama”, que dialoga com o teatro popular, como o teatro de revista e os folhetins, ao mesmo tempo em que propõe uma reflexão crítica. “O espetáculo se constrói com humor, com ludicidade, mas também com densidade. O público reconhece elementos populares, mas se surpreende porque há várias camadas de leitura”, explica.

Esse equilíbrio entre emoção e leveza foi essencial para abordar um tema potente sem perder a conexão com o público. “A gente está o tempo inteiro comentando o que está em cena e, ao mesmo tempo, fazendo o público refletir sobre aquilo”, completa.

Outro desafio foi transformar vivências reais em narrativa teatral sem perder a complexidade dessas histórias. Para isso, a criação foi coletiva. “Não é um real mimetizado, é um real dramatizado. Os intérpretes são criadores, trouxeram suas próprias memórias. É uma equipe LGBT, então fomos sobrepondo camadas”, conta. O resultado são personagens que não representam uma única pessoa, mas condensam múltiplas experiências. “Cada personagem irradia muitas histórias. Isso permite que diferentes pessoas se reconheçam ali.”

Na primeira temporada, esse efeito ficou evidente. Segundo o diretor, frequentadores da New Aquarius se identificaram com a montagem, reconhecendo fragmentos de suas próprias trajetórias em cena.

Com mais de mil espectadores em 2025, o espetáculo foi elogiado pela crítica. Para o pesquisador Rodrigo Ferreti, trata-se de “um belo trabalho de pesquisa que, além de histórias, é uma colcha de afetos e proteção”, destacando a capacidade da montagem de equilibrar densidade e leveza.

Sinopse

Ao lado da jovem drag queen Luna, Mona Mone de Liz Taylor, artista transformista histórica, se despede de Brasília com seu último show. Nos bastidores, recebe a visita de Martina, filha de antigos frequentadores da boate, que busca compreender a história de amor de seus pais e a importância da New Aquarius em um período marcado pela repressão e invisibilidade LGBTQIA+.

SERVIÇO
O Arco-íris no Concreto
Dias: 3 e 4 de abril, às 20h; 5 de abril, às 19h
Local: Teatro Ary Barroso (Sesc 504 Sul).
Entrada franca com ingressos gratuitos retirados no site do Sesc (clique aqui) mediante a entrega de 1 kg de alimento não perecível.
Classificação indicativa: 16 anos.

    Você também pode gostar

    Assine nossa newsletter e
    mantenha-se bem informado