Menu
Teatro e Dança

Mateus Solano questiona invisibilidade e protagonismo em monólogo teatral

Em curta temporada em Brasília, espetáculo protagonizado por Mateus Solano acompanha um figurante que questiona seu lugar no audiovisual e na própria vida

Alexya Lemos

21/08/2026 5h00

capa (5)

Foto: Divulgação/ Dalton Valerio

A rotina de um figurante do audiovisual serve de ponto de partida para discutir invisibilidade, pertencimento e os papéis que cada pessoa ocupa na própria história. Essa é a proposta de O Figurante, comédia dramática protagonizada por Mateus Solano e dirigida por Miguel Thiré, que cumpre temporada curtíssima em Brasília neste fim de semana, no Teatro Royal Tulip.

Na peça, Solano interpreta Augusto, um figurante experiente e dedicado, acostumado a ocupar posições secundárias nas produções das quais participa. Fora dos sets, porém, o personagem também parece viver como figurante da própria existência, preso a uma rotina previsível. O despertar para essa condição faz com que ele passe a questionar a importância de seu trabalho, de sua trajetória e de seu lugar no mundo.

A criação de Augusto também parte de uma experiência pessoal do ator. Segundo Solano, o personagem foi inspirado em um figurante que conheceu e que, apesar da posição secundária nos sets, tinha uma postura de protagonista. “Ele já chegava no set, falava com todo mundo, tirava foto com os artistas, tinha muito carinho, todo mundo tinha muito carinho por ele”, conta. O homem, que posteriormente faleceu, acabou se tornando uma das referências para a construção do personagem.

figurante
Foto: Divulgação/ Dalton Valerio

A ideia de se sentir figurante da própria vida, no entanto, também atravessa a trajetória do próprio ator. “A sensação de ser figurante na própria vida é uma coisa que me atravessa, como eu acho que atravessa a todo mundo”, afirma. Solano relaciona essa percepção especialmente ao período em que ganhou projeção nacional e percebeu que o interesse do público muitas vezes estava mais ligado aos personagens que interpretava do que à sua própria identidade.

“Eu fui percebendo que as pessoas começavam a ter interesse em mim através dos personagens. E que não era exatamente um interesse em mim, mas neles, e eu comecei a me sentir um pouco perdido nessa. Quem é que é o protagonista aqui? O Mateus ou é o Félix, o Zé Bonitinho?”, questiona, referindo-se a personagens marcantes de sua carreira.

A montagem é resultado de uma parceria entre Mateus Solano e Miguel Thiré, que também assina a dramaturgia ao lado de Isabel Teixeira. O espetáculo integra uma pesquisa de linguagem desenvolvida pelos artistas ao longo dos anos e aposta em uma encenação essencial, baseada principalmente no corpo e na voz.

No palco praticamente vazio, Solano interpreta Augusto e os demais personagens por meio do trabalho mímico. A escolha reforça a proposta de colocar em cena aqueles que, muitas vezes, permanecem à margem dos holofotes, não apenas no audiovisual, mas em diferentes espaços da sociedade.

figurante
Foto: Divulgação/ Dalton Valerio

Para o ator, esse recurso também representa um desafio particular. “É um desafio para mim, que sou tão protagonista, tão conhecido de todo mundo, convencer o público que está me assistindo que eu, na verdade, sou Augusto ou figurante”, afirma.

A proposta, segundo Solano, depende diretamente da participação imaginativa da plateia. “É uma peça que utiliza muito a imaginação das pessoas, porque eu traduzo tudo o que está acontecendo à volta de Augusto com mímica e com expressão corporal”, explica. O resultado é uma inversão do olhar: o público é convidado a acompanhar não a figura conhecida de Mateus Solano, mas o personagem que tenta existir sem ocupar o centro do palco.

Para Miguel Thiré, o espetáculo mantém a preocupação de fazer do teatro um espaço de diálogo com a sociedade. “Sempre acreditei em um teatro que debate direto com a sociedade, que toca o público. O que queremos dizer? Como vamos dizer?”, instiga o diretor.

Este é o quinto trabalho realizado em parceria pelos dois artistas. Desta vez, Thiré não divide o palco com Solano e assume a direção, colocando-se no lugar do “espectador profissional”. A mudança também altera a dinâmica da parceria: enquanto o diretor conduz a encenação, o ator dá vida a um personagem que, dentro da própria narrativa, é outro ator incapaz de ocupar o centro das atenções.

“Na ânsia em fazer parte desse mundo, acabamos por nos afastar de nós mesmos”, sintetiza a reflexão proposta pela peça, que transforma a experiência aparentemente banal de um figurante em uma discussão sobre identidade, reconhecimento e a necessidade de ressignificar a própria existência.

Serviço
O Figurante, com Mateus Solano
Data: 22 e 23 de agosto
Horários: sábado, às 17h30 e às 20h; domingo, às 17h e às 19h30
Local: Teatro Royal Tulip — Hotel Royal Tulip Alvorada
Ingressos: a partir de R$ 25
Vendas: Belini (113 Sul) e pela Sympla. Na bilheteria, apenas nos dias de apresentação
Classificação indicativa: 12 anos
Capacidade: 500 lugares

    Você também pode gostar

    Assine nossa newsletter e
    mantenha-se bem informado