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Teatro e Dança

Humanismo Selvagem estreia tragicomédia sobre herança, poder e memória histórica

Espetáculo da companhia Bife Seco faz mini temporada na CAIXA Cultura e propõe imersão crítica nas feridas abertas do país

Alexya Lemos

27/02/2026 5h00

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Foto: Gabriel Rega/ Divulgação

Sucesso de público e crítica, o espetáculo Humanismo Selvagem, da companhia curitibana Bife Seco, chega a Brasília para uma curta temporada neste fim de semana, na CAIXA Cultural. A circulação na capital federal integra o projeto que celebra os 15 anos do grupo e conta com patrocínio oficial da Petrobras e apoio da instituição cultural. Após a passagem por Brasília, o espetáculo segue em turnê pela região Nordeste.

Escrito e dirigido por Dimis, o trabalho assume a forma de uma tragicomédia para investigar as fissuras de uma família decadente que ergueu sua fortuna sobre uma herança de exploração. A trama se desenrola durante a comemoração dos 100 anos do patriarca, quando a chegada inesperada de uma antiga empregada faz emergir traumas, segredos e violências até então encobertos por uma aparente harmonia doméstica.

A encenação articula humor ácido, tensão psicológica e crítica social para transformar o espaço familiar em arena simbólica. No centro do embate estão herança, racismo estrutural e concentração de poder, elementos que entram em colisão direta e espelham contradições profundas da sociedade brasileira contemporânea.

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Foto: Gabriel Rega/ Divulgação

O texto de Humanismo Selvagem foi vencedor do Prêmio Outras Palavras 2020, concedido pelo Governo do Estado do Paraná. O reconhecimento resultou na publicação da dramaturgia em livro, lançado nacionalmente em 2025 durante a programação da FLIP – Festa Literária Internacional de Paraty, como parte da Coleção Outras Palavras.

Segundo Dimis, a estrutura dramatúrgica foi concebida como uma experiência emocional progressiva. “É uma montanha-russa de emoções. O público ri muito no início, mas, à medida que a história avança, esse riso vai se transformando em desconforto, até chegar a um momento de catarse. Existe muito humor, mas também muita crítica e muitas camadas simbólicas. Cada personagem é uma alegoria do Brasil atual, um recorte de uma família brasileira de classe alta”, afirma.

Para o diretor, o uso da comédia é estratégico. “A comédia bem-feita expande as inúmeras camadas de interpretação. Quando você fala de herança escravocrata, de racismo estrutural, de concentração de poder, as pessoas já levantam um escudo moral. E é justamente a comédia que permite que o público entre pela sala de jantar antes de perceber que está dentro de um campo minado histórico na casa dessa família”, diz.

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Foto: Gabriel Rega/ Divulgação

A peça propõe um paralelo direto entre a estrutura familiar retratada e a formação histórica do país. “A família da peça é resultado de gerações e gerações de poder. E a fortuna, os silêncios e os crimes são herança. O Brasil também funciona assim. A gente acha que está discutindo o presente, mas na verdade está vivendo decisões tomadas há 300 anos. E o texto tenta materializar essa sensação de que o passado não passa assim tão fácil como querem fazer a gente acreditar. Ele só troca de roupa”, pontua Dimis.

A construção da tensão é outro elemento central da montagem. “O horror está na conversa aparentemente civilizada, no brinde elegante, na piada deslocada. A atuação foi fundamental porque o terror psicológico depende da contenção. A tensão no primeiro ato é construída de uma forma gradativa, constante. E a cada momento em que ela não explode, ela assusta mais e mais. Já no segundo ato é o oposto, a tensão se rompe e um novo tipo de terror nasce em cena, algo mais absurdo e físico. E a encenação buscou permear essas atmosferas através do ritmo, do silêncio, da música e de toda a visualidade”, explica.

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Foto: Gabriel Rega/ Divulgação

Além das apresentações, a temporada em Brasília inclui uma oficina gratuita de escrita criativa aberta ao público, ampliando o diálogo da companhia com a plateia local através do autor e diretor Dimis. Com duração de quatro horas e 30 vagas disponíveis, a oficina apresenta ferramentas de construção narrativa, desenvolvimento de personagens e criação de conflitos dramáticos, combinando teoria e exercícios práticos. 

Serviço
Humanismo selvagem
Quando: 27, 28 de fevereiro e 01 de março às 20h, domingo, às 19h
Onde: Caixa Cultural Brasília (SBS – Quadra 4 – Lotes 3/4 – Brasília – DF)
Ingressos: R$ 30 e R$ 15 na bilheteria ou no site

Oficina de escrita criativa: roteiro e dramaturgia
Quando: Sábado, 28 de fevereiro das 14 às 18h
Onde: Caixa Cultural Brasília (SBS – Quadra 4 – Lotes 3/4 – Brasília – DF)
Vagas: 30 participantes
Inscrições: Gratuitas através da bilheteria do teatro

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