Em Roma, no dia em que Mussolini e Hitler celebravam sua aliança diante de multidões, uma mulher ficou em casa para lavar, cozinhar e cuidar dos filhos. Um pássaro fugiu pela janela. E uma tarde mudou tudo. É essa fresta improvável na história que Um Dia Muito Especial escolhe habitar, e é por ela que Reynaldo Gianecchini e Maria Casadevall conduzem o público do Teatro Unip, neste sábado (11) e domingo (12).
O espetáculo parte do filme homônimo de 1977, estrelado por Sophia Loren e Marcello Mastroianni, e retorna aos palcos brasileiros pela primeira vez desde a montagem de 1986, protagonizada por Glória Menezes e Tarcísio Meira. A presente versão tem direção de Alexandre Reinecke e tradução de Célia Tolentino, e chega a Brasília marcando o quarto ano consecutivo do Circuito de Teatro Brasileiro na capital.

A trama coloca frente a frente Antonietta, dona de casa solitária e mãe de seis filhos, e Gabriele, seu vizinho recém-demitido por ser homossexual e na iminência de ser preso pelo regime. Dois descartados pela engrenagem do Estado fascista que, numa única tarde, constroem entre si um espaço raro de escuta e afeto. O texto, escrito originalmente para o cinema pelo roteirista Ettore Scola, nunca perdeu sua capacidade de incomodar. Ambientado em 1938, fala de opressão de gênero, homofobia e cumplicidade humana com uma precisão que o tempo não envelheceu.
Para construir Antonietta, Maria Casadevall foi buscar no próprio corpo e na memória afetiva da sua linhagem familiar o peso que a personagem carrega. O processo foi, segundo ela, um reencontro com camadas internas que o cotidiano tende a encobrir. “Apesar de complexo, infelizmente este lugar ainda é familiar para todas nós mulheres, seja através das histórias vividas por nossas antepassadas ou por realidades atuais. Fui revisitar lugares internos, traumas e memórias, minhas e das mulheres da minha linhagem familiar”, conta a atriz ao Jornal de Brasília.

A transformação de Antonietta ao longo da peça não acontece por um grande gesto dramático, mas por camadas sutis que o corpo vai revelando cena a cena. “A chave da virada está no corpo, na voz, em sua fisicalidade. Primeiro exausta, estridente, automatizada e autodefensiva, para depois se mostrar uma fisicalidade que abre mão de performar austeridade, que primeiro colapsa no encontro com o diferente para depois recalcular rotas”, explica Casadevall. É nesse colapso que a peça respira.
A relação entre Antonietta e Gabriele vai além da amizade e do amor platônico que a sinopse anuncia. Ela funciona como espelho de tudo que o mundo ao redor deles proíbe: a honestidade, a vulnerabilidade, o desejo de ser quem se é. “Tanto Antonietta quanto Gabriele expressam o que há de mais humano e que pode ser sufocado por um imaginário coletivo corrompido, capaz de aprisionar mentes e corações”, reflete a atriz.

Dentro desse encontro improvável, a liberdade não aparece como conquista definitiva, mas como lampejo, como possibilidade que se abre numa única tarde e deixa uma marca permanente. “A revelação está no afeto com que essas duas pessoas se olham e se escutam de fato. Só a partir deste lugar é que a liberdade em qualquer tipo de relação pode se tornar possível”, conclui Casadevall. O pássaro que voou pela janela errada acabou pousando no lugar certo.
Serviço:
Um Dia Muito Especial
Local: Teatro UNIP
Endereço: SGAS 913 – Asa Sul
Temporada: dias 11 e 12 de abril
Horários: sábado, às 17h30 e às 20h, e domingo, às 17h e às 19h30
Bilheteria: https://bileto.sympla.com.br/event/117315/d/374548 e física, sem taxas, na Belini (113 Sul)
Duração: 90 minutos
Classificação indicativa: não recomendado para menores de 10 anos