No tribunal de GAIOLA, a doméstica é colocada no banco dos réus por roubo. Mas, à medida que a narrativa avança, o julgamento se desloca: o verdadeiro crime revelado é o da escravidão doméstica, e a plateia passa a ocupar o lugar de quem também precisa responder. Escrita e dirigida por Bruno Estrela, a peça marca os 39 anos de carreira da atriz Regina Sant’ana. Em cartaz até domingo, 18, o monólogo acontece sempre às 20h no Espaço Multicultural Casa dos Quatro.
Em cena, Sant’ana dá vida a Jaqueline, mulher atravessada pelo confinamento doméstico e pela violência psicológica, cuja história expõe relações de poder naturalizadas sob a aparência do cuidado. A encenação transforma o palco em um espaço íntimo de julgamento, no qual liberdade, trabalho e dignidade são colocados em xeque. Ao optar pelo formato do monólogo, o espetáculo intensifica o contato direto com o público, eliminando qualquer zona de conforto e exigindo atenção integral ao discurso que se desenrola.

“O espetáculo é um monólogo, e este é, sem dúvida, o maior desafio técnico da minha trajetória. Enfrentar o público sem o amparo de uma contracena física é uma experiência inédita nestes 39 anos de carreira; é um mergulho solitário que exige uma entrega absoluta”, afirma a atriz. Para ela, a urgência do projeto ultrapassa a linguagem teatral.
“Dar corpo e voz à luta contra o trabalho escravo doméstico é um compromisso ético que transforma o palco em um grito de resistência”.
Confronto
A proposta dramatúrgica de GAIOLA se constrói a partir do confronto direto. “Em um monólogo, não há para onde desviar o olhar; eu e a plateia estamos dividindo a mesma sentença”, resume Sant’ana, ao explicar a relação estabelecida com o público. Segundo a atriz, o espetáculo busca provocar uma reflexão que ultrapasse o espaço do teatro: “Aqui a arte não apenas julga, ela convoca a sociedade a agir”.

A composição da personagem Jaqueline nasce de memórias e referências pessoais da intérprete, que encontrou em experiências vividas o material sensível para dar densidade à cena. “O processo de construção da Jaqueline foi, antes de tudo, um reencontro com as minhas próprias raízes e memórias”, relata. A atriz destaca que a personagem preserva uma dimensão infantil como forma de sobrevivência emocional, elemento que atravessa toda a narrativa: “Ela habita um corpo de adulta, mas seu universo emocional ainda é o de uma criança que espera pelo direito de ser livre”.
Descrito como um “soco poético”, o texto equilibra denúncia e lirismo ao expor uma realidade brutal sem recorrer ao distanciamento. Sant’ana aponta que a força do espetáculo está justamente nessa dualidade: “É nesse riso nervoso, seguido pela perplexidade, que a poesia acontece. O lirismo não suaviza a denúncia; ele a potencializa”. Para a atriz, a empatia criada em cena é o caminho para que o público encare o horror sem se esquivar.

Papel do teatro
Antes de chegar ao circuito convencional, GAIOLA foi apresentado em espaços comunitários, experiências que evidenciaram sua dimensão social. “O teatro só cumpre sua função plena quando rompe as paredes das salas convencionais e alcança quem é invisibilizado”, afirma. As sessões realizadas para idosos e estudantes da Educação de Jovens e Adultos revelaram, segundo Sant’ana, o poder do espetáculo como ferramenta de conscientização: “Levar a arte para onde o acesso é restrito é expandir horizontes e cumprir o nosso papel social”.
Ao transformar o palco em tribunal e o público em parte ativa do julgamento, GAIOLA reafirma o teatro como espaço de denúncia e reflexão social, colocando em cena uma pergunta incômoda e inevitável: quem, afinal, está julgando quem?
Serviço
GAIOLA
Quando: 16, 17 e 18 de janeiro de 2026 (sexta à domingo) às 20h
Onde: Espaço Multicultural Casa dos Quatro (SCLRN 708)
Ingressos: retirada gratuita antecipada pelo sympla
Acessibilidade: todas as sessões com tradução em Libras. Sessão do dia 17/01 também com audiodescrição.
Quando: 21 de janeiro, às 19h – Sessão Especial
INSTITUTO NO SETOR – SCS Quadra 5, Bloco C, Edifício José Haje, Sobreloja 70