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Teatro e Dança

Espetáculo “Saudade” transforma memória e infância em canto coletivo no CCBB

Montagem do grupo Os Geraldos reúne 13 intérpretes em cena e articula teatro popular e música ao vivo até domingo

Alexya Lemos

06/03/2026 5h00

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Foto: Bob Sousa/ Divulgação

O Centro Cultural Banco do Brasil Brasília recebe, até domingo (8), a temporada do espetáculo Saudade, criação do Grupo Os Geraldos. Com concepção e direção de Douglas Novais, dramaturgia de Julia Cavalcanti e Paula Guerreiro, e direção musical de Everton Gennari, a montagem articula temas como infância, morte e perda em uma encenação estruturada pela música ao vivo.

Inspirado no conto Pinguinho, de Viriato Correia, e nos escritos de Rubem Alves, o espetáculo constrói no palco um vilarejo simbólico onde a saudade se manifesta como presença. A narrativa é conduzida por 13 intérpretes que cantam ao vivo canções do imaginário coletivo, repertório que sustenta o desenvolvimento das cenas e organiza a progressão dramática.

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Foto: Bob Sousa/ Reprodução

A música ocupa um papel estruturante na encenação. Em vez de funcionar apenas como acompanhamento, ela conduz o ritmo da narrativa e estabelece uma experiência compartilhada entre palco e plateia. O espetáculo reúne canções tradicionais em português, espanhol, francês, italiano e latim, repertórios populares e reconhecíveis que acionam memórias afetivas e referências culturais amplamente partilhadas.

O processo de criação da montagem também atravessou diferentes contextos culturais. Ainda em fase inicial de pesquisa, em 2024, o projeto foi selecionado entre mais de 200 inscrições de 24 países na Convocatoria Iberoamericana de Residencias de Creación do Programa Iberescena, que escolheu apenas dois trabalhos. A seleção possibilitou uma residência internacional realizada junto ao Teatre Nu, em um vilarejo próximo a Barcelona, na Espanha, seguida de etapas na Itália, França e Inglaterra.

Durante essa residência, o grupo apresentou uma versão inicial da obra em espanhol. Segundo o diretor Douglas Novais, a experiência revelou a dimensão universal dos temas abordados pela montagem. “Lá apresentamos uma primeira versão do espetáculo em espanhol para um público que, no debate pós-espetáculo, parecia tão conectado à obra que foi como se, entre aquele vilarejo catalão e nosso Brasil profundo, não houvesse tanta diferença assim”, afirma.

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Foto: Bob Sousa/ Divulgação

De acordo com a dramaturga e atriz Paula Guerreiro, o espetáculo se transformou significativamente após essa primeira etapa de circulação internacional. “A versão apresentada na residência internacional tinha cerca de 30 minutos e concentrava o núcleo essencial da história, ainda muito próxima do conto ‘Pinguinho’. A partir dali, o texto se expandiu: novas camadas simbólicas, musicais e visuais foram incorporadas, ampliando o arco dramatúrgico e aprofundando a tessitura poética do espetáculo.”

Mesmo dialogando com diferentes referências culturais, a criação preserva uma identidade marcada por matrizes brasileiras. “As referências estrangeiras não aparecem como citações externas, mas são assimiladas num mesmo campo simbólico, onde convivem diferentes matrizes culturais. Entre Jacques Tati e Jeca Tatu, entre Campinas, Brasília e Sant Martí de Tous, as distâncias se relativizam. O espetáculo opera nesse território comum onde arquétipos e experiências universais aproximam geografias distintas.”

A ideia de alcançar diferentes perfis de espectadores faz parte da proposta estética e ética do coletivo. “Buscar um teatro que possa ser chamado de popular, no sentido mais profundo da palavra, um teatro que dialogue com qualquer ‘Geraldo’, um nome próprio comum no Brasil, que simboliza essa vontade de alcance amplo”, explica Paula.

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Foto: Bob Sousa/ Divulgação

Nos encontros com a plateia após as apresentações, o grupo percebe diferentes interpretações da obra, resultado da diversidade de experiências dos espectadores. “O que mais nos marca nos debates pós-espetáculo é a variedade de leituras. Pessoas de diferentes idades e contextos encontram pontos de identificação distintos: alguns se conectam pela memória da infância, outros pelas reflexões sobre perda, outros ainda pela dimensão musical e imagética.”

Para Paula, essa multiplicidade de percepções confirma a aposta do grupo em trabalhar com experiências humanas fundamentais. “Essa pluralidade de escutas confirma algo que é central para o grupo: quando o teatro se estrutura sobre experiências humanas fundamentais, ele abre espaço para que cada espectador encontre seu próprio lugar dentro da obra.”

Ao longo do processo de criação, os temas abordados pela obra também atravessaram os próprios artistas envolvidos. “E há algo que se move internamente quando se trabalha com memória, infância, perda e música durante tanto tempo. Talvez essas transformações estejam mais visíveis no próprio espetáculo do que em qualquer tentativa de explicação. De algum modo, aquilo que ainda não conseguimos formular com precisão já está inscrito na cena”, conclui a dramaturga.

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Foto: Stephanie Lauria/ Divulgação

Serviço
Espetáculo Saudade
Onde: Teatro do Centro Cultural Banco do Brasil, SCES Trecho 2 Lote 22 – Edif. Presidente Tancredo Neves
Temporada: até 8 de março
Quando: quartas e sextas: 20h; quintas, às 20h (com acessibilidade em Libras e audiodescrição); sábados, às 17h e às 20h; e domingos, às 18h
Ingresso: R$ 30 (inteira), e R$ 15 (meia) à venda no site e na bilheteria física do CCBB Brasília

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