A violência de gênero, muitas vezes diluída nas dinâmicas cotidianas das relações amorosas, é o eixo central de NÓS ou NINGUÉM PODIA OUVIR OS OLHOS DELA, espetáculo que intersecciona dança e teatro para denunciar a violência doméstica contra a mulher e expor a dificuldade coletiva de identificá-la e enfrentá-la. Em cartaz até o dia 22 deste mês no CCBB, os ingressos são gratuitos e podem ser retirados na bilheteria ou no site.
Em cena, a bailarina Daniela Rosa e o ator Rafael Bougleux interpretam um casal que, ao som de jazz, atravessa um processo artístico de investigação sobre violência e feminicídio. Entre estados de afeto e colisão, os corpos dançam para revelar os limites de uma relação. A proposta desloca o corpo da função instrumental: ele deixa de ser meio para um fim e torna-se assunto, narrando sua própria história.
A montagem, concebida em 2015, é livremente inspirada em casos reais, como o assassinato da cantora Eliane de Grammont, morta a tiros no palco pelo ex-marido, o cantor Lindomar Castilho, e dialoga com obras de Dione Carlos, Suzanne Lacy, Nan Goldin e Nina Simone. Ao tocar em referências do real, o espetáculo convoca o espectador a ocupar o lugar de testemunha ocular da história.
Para Daniela Rosa, representar relações abusivas sem recorrer a simplificações exigiu muito estudo e cuidado. “Representar relações abusivas sem cair em estereótipos exige complexidade, escuta e coragem de não oferecer respostas fáceis. Porque a violência de gênero não é um retrato estático; ela é uma estrutura que se infiltra nas pequenas dinâmicas do cotidiano. E é justamente nessas brechas que escolhemos dançar”, afirma.
A artista destaca que o corpo, na criação, assume centralidade como território de memória e silêncio. “O corpo carrega memórias, silêncios e marcas que muitas vezes não conseguem ser ditas. Mas, ao tratar de violência de gênero, percebi que havia também uma urgência na palavra, no testemunho, na narrativa contextual, no confronto direto com o público. O teatro entrou como esse espaço de fala, de dramaturgia, de jogo, de construção de cena que amplia e contextualiza o gesto.”
Segundo ela, o processo foi atravessado por um senso constante de responsabilidade. “Foi um processo intenso. Como mulher e artista, eu senti que precisava tratar o tema com delicadeza, mas sem suavizar sua brutalidade. A intersecção entre teatro e dança acabou sendo a própria linguagem da denúncia.”

A recusa à caricatura orientou a construção das personagens e das situações. “Não queríamos caricatura nem vitimização, mas a complexidade das relações reais, aquelas em que o amor e o controle, o cuidado e a opressão, muitas vezes se confundem. Isso exigiu uma escuta corporal radical: perceber quando o toque deixa de ser acolhimento e passa a ser domínio; quando a condução vira imposição, quando o olhar te silencia.”
Para Rafael Bougleux, que também assina a criação e produção, o deslocamento do público para a posição de testemunha não busca respostas prontas. “Quando colocamos o público como testemunha, o que esperamos é simples e ao mesmo tempo profundo: que ele perceba o que está diante dele. Reconheça a violência de gênero como uma realidade estrutural e cotidiana. Que se depare com o que talvez prefira não ver.”
A inquietação, segundo o ator, é parte do efeito desejado. “Se, ao final, a pessoa sai inquieta, com uma pergunta mal resolvida, com uma sensação de que algo não se encaixa, isso, pra mim, já é suficiente.”
Além do espetáculo, a companhia realiza, no dia 14 de março, das 9h30 às 12h30, a oficina “Corpos que Não Se Calam”. Inspirada no processo criativo da montagem, a atividade propõe um percurso de criação que articula corpo, espaço e imagem na investigação da violência contra a mulher. Voltada para maiores de 18 anos, a oficina oferece vagas limitadas, com retirada de ingresso gratuito pelo site. Durante o encontro, os participantes são estimulados a criar microcenas e a experienciar o corpo como campo sensível de memória, resistência e elaboração simbólica.
Serviço
NÓS ou NINGUÉM PODIA OUVIR OS OLHOS DELA – Cia. Entre Nós
Quando: Até 22 de março, de quinta a domingo, às 19h
Onde: SCES Trecho 02 Lote 22 – Edif. Presidente Tancredo Neves Setor de Clubes Especial Sul – Brasília
Ingressos gratuitos: no site ou na bilheteria do CCBB Brasília
Classificação indicativa: 16 anos
Duração: 70 minutos