Após a morte do pai, um ator se encontra com o público para conversar sobre homens, formigas, armários e saudades. Em “Joãozinha Desviada, uma peça para meu pai”, realidade e ficção se fundem em um delicado jogo cênico, onde a figura em cena é, ao mesmo tempo, homem e formiga. Depois de circular por diversas cidades e festivais do país, o espetáculo retorna a Brasília para uma nova temporada, com três apresentações gratuitas a partir desta sexta-feira (14) até domingo (16), na Casa dos Quatro.
Criado e interpretado por João Ricken, o monólogo é uma autoficção nascida das memórias, dos afetos e do luto pela perda do pai. Com direção compartilhada entre João Ricken e Yuri Fidelis, a montagem convida o público a se tornar parte da história, numa experiência intimista em que a conversa e o improviso são elementos centrais. O ator dialoga com quem assiste, com o próprio passado e com a memória paterna — em uma espécie de ritual de afeto, onde até a cachaça compartilhada com o público vira símbolo de despedida e reencontro.


“Eu precisava transformar a minha relação com meu pai em uma coisa bonita”, conta João. “Tivemos muitos embates e, quando ele faleceu, não nos falávamos há um ano. Hoje, percebo que encontrei uma forma de dar continuidade a essas conversas. Sinto que mantenho uma conexão com meu pai por meio desse trabalho. Mesmo sendo um tanto cético, acho que ele segue comigo, de alguma forma.”
Em cena, o ator revisita lembranças com humor e ternura, transformando dor em poesia. “O riso faz parte da tristeza também”, reflete. “Tem coisas engraçadíssimas que aconteceram no funeral do meu pai. Ele sempre me apresentava dizendo: ‘eu tenho cinco filhas mulheres e só ele de homem’. Sou o caçula, e sou gay. Por muito tempo, eu não conseguia olhar pra isso com leveza. Hoje, vejo que o riso é uma forma de resistência. O riso ninguém vai tirar de mim.”

O espetáculo propõe uma reflexão sobre masculinidades e vivências LGBTQIAPN+, temas que atravessam a trajetória de Ricken desde o início de sua pesquisa de mestrado no Programa de Pós-Graduação em Artes Cênicas da Universidade Federal da Bahia (PPGAC-UFBA). A investigação, que começou com um monólogo virtual em 2020, evoluiu para uma montagem premiada que já passou por Salvador, São Paulo e Brasília, conquistando dois prêmios de atuação e diversas indicações. A circulação atual é viabilizada com recursos do Fundo de Apoio à Cultura do Distrito Federal (FAC-DF).
“Essa pesquisa me acompanha há cinco anos. Quando meu pai morreu em 2022, percebi que tudo aquilo era, na verdade, uma tentativa de conversar com ele. Eu só não tinha me dado conta disso ainda”, revela.
Mais do que um espetáculo sobre luto, Joãozinha Desviada é uma conversa sobre afeto, vulnerabilidade e a construção do que é ser homem. Essa relação direta com o público é essencial para o artista. “Faço questão que estejamos juntos em uma mesma experiência. Gosto de investigar maneiras de aproveitar o fato de estar no mesmo espaço físico que o público, mas sempre com cuidado, sem expor ninguém — com exceção de mim mesmo”, comenta. “As memórias e as discordâncias do público me ajudam a iluminar uma das questões centrais da peça: talvez responder à pergunta ‘o que é um homem?’ não seja tão simples assim.”

De volta à cidade onde nasceu, João encara a temporada brasiliense com um misto de emoção e amadurecimento. “Quando apresentei em Brasília pela primeira vez, minha mãe estava na plateia. Teve um momento em que precisei parar a peça pra abraçá-la, senão nenhum dos dois ia parar de chorar”, relembra. “Agora, me reencontro com essa vulnerabilidade de outro jeito, mais maduro, e acho bonito isso.”
Com uma carreira que atravessa teatro, televisão e cinema, João Ricken segue se consolidando como um dos nomes mais potentes da nova cena brasileira. No teatro, já integrou grupos como o Tripé (DF), o Coletivo Impermanente (SP) e o Teatro do Concreto (DF), com apresentações em ao menos cinco estados. Na televisão, interpretou o personagem Marco na série indicada ao Emmy Internacional Anderson Spider Silva, e também soma participações em campanhas publicitárias e produções cinematográficas.
Em “Joãozinha Desviada, uma peça para meu pai”, o ator convida o público a rir, chorar e brindar com ele — transformando a dor em partilha e a saudade em arte.
Serviço
Local:
Espaço Multicultural Casa dos Quatro – SCLRN 708 Bloco F Loja 1 – Asa Norte, Brasília – DF
Sessões: 14, 15 e 16 de Novembro de 2025
Sexta-feira (14/11) às 20h
Sábado (15/11) às 20h
Domingo (07/09) às 19h
Classificação indicativa:
18 anos
Duração:
60 minutos
Ingressos:
Joãozinha Desviada, uma peça para meu pai em Brasília – Sympla