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Teatro e Dança

Entre mito e ciência, “Chang’e” transforma a Lua em experiência sensorial

Espetáculo inédito une dança, tecnologia e filosofia chinesa em temporada que passa por três teatros

Alexya Lemos

03/04/2026 5h00

foto: humberto araujo

Foto: Humberto Araújo/ Divulgação

A figura mítica da Deusa da Lua, Chang’e, atravessa séculos de tradição chinesa para ganhar uma releitura contemporânea no espetáculo “Chang’e (嫦娥), a Deusa da Lua”, que estreia neste domingo (5), e segue em circulação pelos teatros do Sesc Taguatinga, Sesc Gama e Espaço Cultural Renato Russo, onde encerra a temporada dia 3 de maio. Com realização viabilizada pelo Fundo de Apoio à Cultura (FAC-DF), a obra articula dança, música e tecnologia para construir uma experiência sensorial que tensiona as fronteiras entre o visível e o invisível.

A proposta parte do encontro entre a mitologia milenar e a exploração espacial chinesa, especialmente a missão que alcançou o lado oculto da Lua. A partir dessa referência, o espetáculo investiga a ideia de complementaridade entre opostos, sugerindo que aquilo que não é visto constitui a base para a existência do visível. Em cena, essa reflexão se traduz em uma dramaturgia que articula corpo, som e espaço, com forte inspiração em tradições filosóficas e literárias chinesas.

foto: humberto araujo
Foto: Humberto Araújo/ Divulgação

No centro da pesquisa está a inclusão de pessoas com deficiência visual como eixo estruturante da criação. Para isso, a montagem incorpora um software desenvolvido pelo diretor musical Eufrasio Prates, capaz de capturar os movimentos das intérpretes em tempo real e convertê-los em sons fractais. Essa paisagem sonora dialoga com o timbre do erhu, instrumento chinês milenar executado por Tom Suassuna, criando uma composição que entrelaça tradição e inovação.

Em cena, Carol Barreiro e Kimberlly Lima desenvolvem uma partitura coreográfica que estabelece um diálogo direto entre a dança e o Wushu, prática conhecida no Ocidente como Kung Fu. A movimentação combina trechos coreografados e momentos de improvisação, estruturando uma dinâmica em que o espaço cênico se torna elemento fundamental de orientação e construção estética.

A própria concepção do movimento está atravessada pela reflexão sobre presença e percepção. “Tudo que é visível, tudo que é real, também existe um contraponto do que é invisível e do que é oculto, o que é oculto também possibilita a revelação e a forma. Essa é uma visão da filosofia chinesa que está nas suas práticas atuais, também contemporâneas”, afirma Carol Barreiro.

foto: humberto araujo
Foto: Humberto Araújo/ Divulgação

A presença de uma intérprete com deficiência visual impõe desafios específicos à construção da cena, especialmente no que diz respeito à orientação espacial e à segurança, já que o espetáculo incorpora armas de treino como elementos de cena. “Nosso maior desafio era criar uma composição em dança, uma obra que seja uma exploração de improvisação, mas que em alguns momentos também tem coreografia, mas essa exploração do espaço e de composição espacial em que ela soubesse onde ela está. Através da minha movimentação, através do som e também através do palco, que a gente acabou fazendo um cenário com piso tátil para ela conseguir se locomover”, relata.

A dramaturgia da obra é resultado da remontagem de um trabalho iniciado em 2021, durante a pandemia, e se estrutura a partir das fases da Lua, articuladas a sistemas filosóficos chineses. Além das referências filosóficas, o espetáculo também dialoga com a tradição literária, incorporando influências de autores como Haroldo de Campos e poetas chineses clássicos, em uma tessitura que amplia o campo simbólico da encenação.

foto: humberto araujo
Foto: Humberto Araújo/ Divulgação

Na base da criação está a própria figura de Chang’e, uma das mais importantes divindades da mitologia chinesa, associada ao romance, à graça e à prosperidade das colheitas. Segundo a lenda, ao ingerir um elixir da imortalidade destinado a seu esposo, o arqueiro Yi, a personagem ascende à Lua, onde permanece como entidade eterna. A narrativa é celebrada anualmente durante o Festival do Meio Outono, quando devotos prestam homenagens à deusa em rituais ligados à colheita.

Serviço
Temporada de 5 de abril a 3 de maio
Ingressos: entrada gratuita
Onde: Sesc Teatro Paulo Gracindo, no Gama, Setor Leste Industrial, Lotes 620 a 680
Quando: 5 de abril (domingo), às 15h e às 19h30

Onde: Sesc Teatro Paulo Autran, em Taguatinga, CNB 12, Área Especial 2/3
Quando: 30 de abril (quinta-feira), às 15h e às 19h30

Onde: Espaço Cultural Renato Russo, CRS 508, Bloco A, Loja 72 – Asa Sul
Quando: 2 e 3 de maio (sábado e domingo), às 19h30
Classificação indicativa: não recomendado para menores de 10 anos

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