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Teatro e Dança

Elogio da Loucura leva reflexão sobre a sociedade contemporânea à CAIXA Cultural Brasília

Monólogo protagonizado por Leona Cavalli e dirigido por Eduardo Figueiredo revisita obra de Erasmo de Rotterdam com humor, ironia e música ao vivo

Aline Teixeira

21/08/2026 5h00

elogio da loucura crédito caio lírio (3)

Foto: Caio Lírio

A loucura como instrumento de crítica à sociedade, ao poder e às relações humanas. É a partir dessa perspectiva que “Elogio da Loucura”, espetáculo inspirado na obra homônima de Erasmo de Rotterdam, chega à CAIXA Cultural Brasília para uma curta temporada entre esta sexta-feira (21) até o dia 30 deste mês. Protagonizada por Leona Cavalli, a montagem tem dramaturgia assinada pela atriz e pelo diretor Eduardo Figueiredo, responsável também pela direção. A entrada é gratuita.

Escrita no início do século XVI, a obra de Erasmo utiliza a figura da Loucura para observar, com humor e ironia, os comportamentos da sociedade. Na adaptação teatral, o texto ganha uma encenação que transita entre o popular e o erudito, sem perder a essência da crítica proposta pelo autor.

A aproximação de Eduardo Figueiredo com a obra aconteceu durante a pandemia. Em conversas com Leona sobre projetos futuros, a atriz apresentou o livro ao diretor, que se surpreendeu com a atualidade do texto. “Em plena pandemia, em conversas sobre projetos futuros, Leona me apresentou a obra. Assim eu li o livro e fiquei impactado como é atual. Uma crítica contundente da sociedade no século XVI, com humor e ironia do ponto de vista da Loucura”, conta.

Para o diretor, um dos principais desafios da montagem foi adaptar um clássico sem afastá-lo do público contemporâneo. “O principal desafio é adaptar uma obra clássica, apesar de temas ainda atuais, para os dias de hoje. Uma como reflexo da outra”, explica.

Na peça, porém, a loucura não é apresentada a partir de uma perspectiva patológica. A personagem funciona como uma espécie de observadora da humanidade e de suas contradições. “O que mais chama a atenção é que a obra não aborda a loucura do ponto de vista patológico. Erasmo faz uma análise da sociedade como um todo, uma sátira da época”, afirma Figueiredo.

A montagem preserva essa essência e utiliza recursos cênicos para aproximar o público de uma obra escrita há séculos. “Mantivemos a essência da obra com muito humor e ironia, a loucura do ponto de vista social. E, com algumas liberdades poéticas, utilizamos, através de recursos cênicos, estratégias para aproximação do público pela obra. O resultado é um feliz encontro entre o popular e o erudito”, diz o diretor.

A estética do espetáculo também contribui para essa aproximação. Figueiredo conta que buscou referências em artistas ligados ao Renascimento, como Hieronymus Bosch e Pieter Bruegel, o Velho, mas também incorporou elementos de brasilidade, incluindo composições inspiradas em orixás. “O espetáculo transita entre o popular e o erudito”, resume. A escolha estética acompanha a própria leitura que o diretor faz da obra, especialmente pela maneira como Erasmo utiliza a Loucura para revelar aspectos da condição humana.

“A loucura Erasmiana, muito mais que crítica ao mundo e suas esferas sociais, detém-se no próprio homem, em sua essência. Apresenta a figura do louco como autoconhecimento, que o homem só pode alcançar, segundo Erasmo, por meio da liberdade proporcionada pela Loucura”, afirma.

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Foto: Henrique Butcher

Outro elemento central da montagem é a música ao vivo. Os músicos Matheus Vieira, no violoncelo, e Cika, na percussão, participam da apresentação, criando uma camada sonora que acompanha a atriz em cena. “A presença de música ao vivo em meus espetáculos é recorrente. É fundamental para estabelecer climas e aprimorar a encenação”, explica Figueiredo. A presença dos músicos também ganha uma dimensão cênica, especialmente por se tratar de um monólogo.

Para Leona Cavalli, a escolha de interpretar a Loucura nasceu justamente da maneira incomum como Erasmo constrói a personagem. “Eu sempre fui apaixonada por esse texto e justamente o que me encantou foi a abordagem completamente diferente, onde a loucura não aparece como uma personagem louca. Ao contrário, ela aparece como uma deusa que vem clamar por ser reconhecida como uma força presente em todo o ser humano e na sociedade, mas completamente lúcida”, conta.

É a partir dessa lucidez que a personagem passa a expor as contradições do mundo. “Ela revela como a nossa sociedade é louca, como os valores são loucos. Ela fala da loucura na igreja, no poder, na política, nas relações, nos casamentos e na sociedade. E de uma forma completamente irônica, bem-humorada e profunda”, afirma a atriz.

Para Leona, a personagem também se distancia de outras figuras que já interpretou e que apresentavam estados de sofrimento psíquico. Ao longo da carreira, a atriz viveu, por exemplo, Ofélia, em “Hamlet”, de Shakespeare, e Blanche DuBois, em “Um Bonde Chamado Desejo”, de Tennessee Williams.

“Eu já fiz algumas personagens que têm um estado de loucura. Eu já fiz a Ofélia do Shakespeare no Hamlet. Eu já fiz a Blanche DuBois do Tennessee Williams em Um Bonde Chamado Desejo. São personagens que passam por um sofrimento psíquico. No caso dessa visão da loucura, não. Ela tem uma lucidez”, explica.

A construção da personagem também permitiu à atriz refletir sobre criatividade e liberdade. “A estrutura da criatividade pede uma transgressão, pede espaço para a liberdade, para poder realmente criar algo novo e não copiar algo que já existe. E, nesse caso, no texto do Erasmo, ele traz essa visão”, afirma.

A adaptação para o palco, segundo Leona, não precisou alterar profundamente o texto original para aproximá-lo da realidade atual. “Parece que a adaptação foi feita para os dias de hoje. Teve uma adaptação, sim, feita por mim e pelo diretor, pelo Eduardo Figueiredo, mas ela foi mais focada em escolher os trechos do texto para ir à cena, com algum momento de adaptação só. Mas a verdade é que não precisou de muita adaptação para os dias de hoje porque ele é absolutamente atual”, diz.

A atualidade da obra também é percebida na reação do público. Em cartaz há cerca de quatro anos, o espetáculo já passou por diferentes cidades brasileiras, incluindo São Paulo, Rio de Janeiro, Porto Alegre e Belo Horizonte. Para Leona, a capacidade de dialogar com públicos distintos é uma das características que mais a surpreendem. “É um monólogo que me surpreende a cada vez que eu faço. Nós estamos em cartaz com ele há uns quatro anos já”, conta. “Ele toca as pessoas de idades diferentes, de modos de visão diferentes e sempre ele surpreende.”

A atriz também retorna a Brasília depois de uma passagem anterior com o espetáculo. “Inclusive já fui uma vez em Brasília, nos apresentamos, tivemos que fazer duas sessões, porque lotou imediatamente. É uma alegria para mim voltar a Brasília com ele”, afirma.

A parceria entre Leona e Eduardo, que já se estende por outros trabalhos, também foi importante para a construção da montagem. Para o diretor, a cumplicidade entre os dois contribui para o resultado final. “O público fica impactado como nossa versão de um texto escrito há tantos anos pode ser tão atual. Leona até faz uma brincadeira sobre isso na peça. Assim como Shakespeare, muitas obras clássicas são extremamente atuais e necessárias. Afinal, a função do teatro é essa, fomentar questionamentos sem ser maniqueísta”, afirma Figueiredo.

“Nossa parceria é reflexo disso. Temos cumplicidade no processo de criação e isso contribui para o todo”, completa.

Além da temporada teatral, Eduardo Figueiredo ministra em 22 de agosto a oficina “Dramaturgia da Imagem”, voltada a estudantes de teatro, interessados em dramaturgia e profissionais de atuação e direção. A atividade aborda a construção de narrativas a partir da concepção estética da encenação e será realizada gratuitamente na CAIXA Cultural Brasília.

Serviço
Elogio da Loucura
CAIXA Cultural Brasília — SBS Q. 4 BL A, lotes 3/4, Loja 1, Asa Sul
21 a 30 de agosto de 2026
Quarta a sábado, às 20h; domingo, às 19h
Entrada gratuita — ingressos distribuídos uma hora antes das sessões
Classificação: 16 anos
Duração: 80 minutos
Sessões com Libras: 22 e 29/08
Gênero: tragicomédia
Acesso para pessoas com deficiência

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