Neste mês, o CCBB Brasília abre espaço para um espetáculo que propõe uma experiência sensível e transformadora. “Uma Sinfonia Diferente” retorna à programação com apresentações nos dias 4, 5, 11 e 12, sempre às 16h, reunindo cerca de 200 músicos autistas em um musical que valoriza a expressão individual e o protagonismo.
Criado a partir de um programa de musicoterapia do Instituto Autismos, o projeto se consolidou como uma iniciativa contínua que utiliza a música para estimular comunicação, linguagem e habilidades sociais. No palco, cada gesto, som e presença ganha significado próprio, em uma montagem que se afasta dos padrões tradicionais.
A proposta, segundo a fundadora do instituto, Carol Steinkopf, exigiu uma inversão de lógica na construção do espetáculo. “Em vez de adaptar as pessoas autistas a um formato rígido, nós adaptamos o espetáculo às pessoas. Isso significa respeitar o tempo de cada participante, suas formas de comunicação, seus interesses e suas possibilidades”, explica. Ela destaca que o processo é guiado por escuta, repetição, previsibilidade e vínculo, resultando em uma obra “viva, sensível e autêntica”, onde a expressão individual é mais importante do que a performance perfeita.

As apresentações contam ainda com a participação especial do músico Hélio Ziskind, cujas composições fazem parte do repertório e da memória afetiva de muitas famílias brasileiras. No palco, ele se apresenta ao lado de uma banda e jovens instrumentistas autistas, incluindo talentos como Benício, de 11 anos, com ouvido absoluto, e Daniel, pianista autista e cego que desenvolveu suas habilidades de forma autodidata.
Para Ziskind, ver suas músicas ganharem novos sentidos dentro do espetáculo é uma experiência profundamente marcante. “Ouvir minhas canções interpretadas por crianças e jovens autistas é como ver a música completar um ciclo: ela sai de mim, encontra o outro e retorna transformada”, afirma. O artista relembra momentos emblemáticos, como o de uma adolescente que subiu ao palco em Brasília no ano passado, emocionando o público ao dar nova vida às composições. Ele também destaca como a relação dos participantes com a música evidencia processos cognitivos complexos, como a assimilação de compassos assimétricos, reforçando o potencial da arte como ponte entre diferentes formas de percepção.
O espetáculo é dividido em três blocos, com entrada gradual dos participantes até o momento final, quando todos se reúnem no palco. Em alguns trechos, familiares e monitores acompanham os músicos, reforçando o caráter acolhedor da proposta. O público também é convidado a participar, cantando e interagindo com ritmos e percussão corporal.
Ao longo dos anos, o projeto já realizou cerca de 20 apresentações em Brasília e ganhou projeção nacional ao ser destaque no programa Fantástico, que mostrou o processo de criação do primeiro musical protagonizado por pessoas autistas no país.
Além do impacto artístico, Ziskind chama atenção para a força do encontro promovido pela música. “É um projeto que nasce da musicoterapia, mas é, sobretudo, sobre música. É o momento em que as mentes se alinham ao pulso e às notas, e surge uma expressão coletiva”, explica. Segundo ele, esse processo se torna ainda mais significativo para jovens que encontram na música um caminho possível de comunicação. “Cada um acessa a obra à sua maneira, e quando a música propõe caminhos interessantes, as pessoas querem percorrê-los.”
Dividir o palco com músicos autistas também transforma a própria experiência do artista. Ziskind descreve a música como um elo capaz de aproximar universos distintos, criando um objetivo comum — como um “gol” em uma partida — que mobiliza todos os envolvidos. “Mais do que alcançar a perfeição, trata-se da busca por ela: manter o ritmo, sustentar as notas e, sobretudo, exercitar a escuta do outro”, reflete. Ele ressalta ainda a troca que se estabelece em cena, especialmente com jovens instrumentistas que interpretam as músicas a partir de suas próprias leituras. “É uma via de mão dupla. Ao mesmo tempo em que tento acessá-los, percebo o esforço deles em se conectar. O resultado é uma experiência de muita emoção e descoberta.”
Para Carol Steinkopf, o espetáculo também cumpre um papel fundamental na transformação do olhar social sobre o autismo. “Quando uma pessoa autista sobe ao palco, ela deixa de ser vista apenas pelas suas dificuldades e passa a ser reconhecida por suas potências”, afirma. A proposta, segundo ela, é ampliar percepções e contribuir para uma sociedade mais empática, acessível e aberta à diversidade.
Oficinas ampliam experiência inclusiva
Além das apresentações, o projeto promove a oficina “Batucadeiros de Música Corporal – Corpo, música e encontro”, também realizada no CCBB nos dias 4, 5, 11 e 12 de abril, às 14h30. A atividade é gratuita, com retirada de ingressos online ou na bilheteria.
Conduzida pelos educadores Ricardo Amorim e Patty Amorim, a oficina propõe que crianças explorem o corpo como instrumento musical, por meio de jogos, ritmos, danças e experiências coletivas. Aberta a públicos diversos — incluindo crianças típicas e atípicas —, a atividade incentiva a criatividade, a escuta e o senso de pertencimento, respeitando o tempo e as singularidades de cada participante.
Uma das músicas trabalhadas durante a oficina será incorporada ao espetáculo, permitindo que o público também faça parte da apresentação final.
Serviço
Musical Uma Sinfonia Diferente
Centro Cultural Banco do Brasil Brasília (SCES, Trecho 2 – Brasília/DF)
Dias: 4, 5, 11 e 12 de abril
Hora: 16h
Duração: 60 minutos
Classificação: livre
Ingressos: retirados online no site do CCBB ou presencial na bilheteria do local.