A abertura da Ocupação Os Buriti – 30 anos, no Centro Cultural Banco do Brasil Brasília, é marcada pelo espetáculo “À Beira do Sol”, solo que sintetiza a pesquisa artística e a trajetória da companhia criada por Eliana Carneiro. Em cartaz de 16 a 25 de janeiro, a montagem inaugura a programação comemorativa com uma obra que aposta na poesia cênica para abordar temas como loucura, inconsciente e a necessidade humana de encontrar sentido diante do desconhecido.
Interpretado por Naira Carneiro, que também assina a direção e a dramaturgia ao lado de Duda Rios, da Cia Barca dos Corações Partidos, o espetáculo propõe uma imersão sensível em universos que escapam à lógica racional. A criação dialoga com referências como Arthur Bispo do Rosário, Profeta Gentileza e relatos da psiquiatra Nise da Silveira, estabelecendo conexões entre arte, subjetividade e escuta das vozes internas que atravessam a experiência humana.
A narrativa acompanha Arian, personagem que passa a ouvir vozes anunciando que o Sol irá se pôr para nunca mais voltar. Diante dessa revelação, ela assume a missão de vigiar o Astro Rei para impedir que o mundo permaneça na escuridão. A jornada da personagem se constrói como uma travessia simbólica entre luz e sombra, consciente e inconsciente, revelando medos profundos e, ao mesmo tempo, a força de quem escolhe seguir um propósito, mesmo quando ele parece incompreensível aos olhos dos outros.

Para Naira, a obra amplia o entendimento sobre a loucura ao retratar sujeitos que acreditam no que não pode ser visto ou tocado. A atriz associa esse gesto à própria essência do teatro. “Viver acreditando no inacreditável me fascina. De alguma forma fazer teatro também é assumir esse nosso lado quixotesco. Criar histórias inacreditáveis e fazer com que as pessoas acreditem nelas. O palco cria esse pacto silencioso com a plateia: por alguns instantes, vamos todos crer que aquilo diante de nós é real.”
Segundo a intérprete, o espetáculo se constrói como uma homenagem àqueles que assumem missões consideradas impossíveis, exaltando a poesia de viver acreditando no inacreditável. Para a atriz, a peça é “uma ode à poesia de viver acreditando no inacreditável.”
Ao longo da encenação, a escuridão não surge apenas como ameaça, mas como território de descoberta. A narrativa faz referência ao medo de encarar o vazio e o desconhecido que a noite simboliza, enquanto a busca pelo Sol representa o desejo de permanecer na luz do consciente. “A personagem busca a luz do consciente, que o sol representa, com medo de enfrentar justamente o inconsciente, as suas sombras. Mas quando ela se depara com essa escuridão, descobre as suas belezas também”, diz Naira.

O diálogo com o público é um dos pontos centrais da montagem. Naira destaca que a história mobiliza temas universais e tem despertado identificação em diferentes faixas etárias e contextos culturais. A atriz observa que o público se compadece da personagem e se reconhece nela. “Todos nós temos propósitos que decidimos cumprir, medos que carregamos, força para enfrentá-los e uma constante vontade de seguir buscando por novas pulsões de vida, novas e constantes missões.” Ela afirma que essa conexão também se refletiu na circulação internacional do espetáculo, apresentado no México e na Espanha.
Reconhecido nacionalmente, “À Beira do Sol” acumula 19 indicações a prêmios, entre elas a de melhor espetáculo infantil pelo Prêmio APTR e a de melhor atriz no Prêmio CBTIJ, reforçando a relevância da obra no cenário teatral brasileiro.
“À Beira do Sol”
Quando: 16 a 25 de janeiro, sextas, às 19h e sábados e domingos, às 16h
Sessão extra em 22 de janeiro (quinta), às 19h
Sessão do dia 23/01 com intérprete de Libras
Onde: CCBB, SCES Trecho 2, Lote 22, Edifício Tancredo Neves, Setor de Clubes Sul