
Em quatro elogiados álbuns, Stela Campos exercitou sua veia de cronista urbana, cantando sobre tipos disfuncionais, proletários e gente comum da cidade; personagens frequentemente divididos entre suas necessidades e sonhos. Antes líder da Lara Hanouska, extinta banda que rodou o circuito indie dos anos 1990 com canções em inglês, Stela passou a privilegiar o idioma pátrio para deixar seu recado mais claro. A parceria com o letrista-compositor Luciano Buarque amadureceu disco após disco, mas o velho hábito nunca morreu: a cada ciclo de composições em português, um excedente de músicas em inglês precisava ser engavetado. Mesmo quando parte desse material rivalizava com o melhor da cantora.
“Para mim, compor em inglês sempre foi um processo natural, por ser fã de música internacional desde criança e também por ter morado um tempo em Londres. Muitas vezes, quando estou compondo, os versos já saem prontos, vêm de forma instantânea, o que não acontece quando estou escrevendo em português. Músicas como “I Walk Alone” e “She’s Leaving Town” podem nunca ter encontrado lugar nos discos, mas estão comigo há muito tempo. Considero elas parte mais que importante do meu repertório pessoal”. Explica Stela.
Na hora de juntar temas em português para um novo disco, Stela sentiu que era hora de mudar os planos e dar vez às suas canções “órfãs”. É este material que agora aparece em “Dumbo”, o quinto trabalho solo da paulistana. Álbum de orientação folk, mas com doses generosas de rock e psicodelia, “Dumbo” resgata inéditas do baú da cantora; coisas perdidas em fitas K-7 datadas de 1995 em diante, mas também novidades de safra recentíssima (“Work”, “Unkind”, “Take Me Back To Planet Earth” etc).
“Não é um disco de velharias. Todas as letras foram atualizadas, refeitas ou, em muitos casos, escritas do zero. O som também é novo: tudo foi gravado pela primeira vez agora, de modo que traduz minha estética atual. Vejo o “Dumbo” não só como um resgate, mas também uma continuidade e uma evolução do meu trabalho” (Stela Campos).
“Dumbo” foi produzido pelo multi-instrumentista Diogo Valentino (Supercordas) e conta com participação do guitarrista Felipe Giraknob (Supercordas), do tecladista Léo Monstro (Lulina), das colegas cantoras-compositoras Lulina, Laura Wrona e Juliana R, além do velho associado guitarrista/baterista Clayton Martin (Cidadão Instigado).
“Dumbo” é o primeiro lançamento em vinil da discografia de Stela Campos. Ele também estará disponível em versão digital: www.stelacampos.com.br
Faixa a faixa (por Stela Campos)
• Be a Bad Son – Eu já tinha o repertório de Dumbo pré-selecionado, mas resolvi vasculhar uma caixa de cassetes antigos. Logo na primeira fita que peguei, encontrei dúzias de esboços que eu nem imaginava que existiam. “Be a Bad Son” é uma dessas faixas. Um folk rock nervoso, com certeza composto sob a influência da PJ Harvey.
• Candy Shop Fire – Nos meus discos anteriores, prevaleciam pequenas crônicas, histórias sobre personagens fictícios ou não. Dumbo muda esse padrão: todas as letras são confessionais, a maioria composta em primeira pessoa. O Luciano Buarque compôs esta nova canção, aproveitando um refrão antigo meu: o “pa pa pa” onde se ouve as vozes de Lulina, Laura Wrona e Juliana R, além da palhinha ultra-especial do meu filho Vitor (de 9 anos).
• She’s Leaving Town – Esta eu compus em meados de 2004 e pensei em inclui-la no “Hotel Continental” e, depois, no “Mustang Bar”. Demorou a sair da gaveta, mas ficou etérea e rústica como eu queria. É uma das minhas favoritas – e também uma canção-pivô deste projeto.
• Traveling Man – Outra que eu não lembrava que existia, recuperada de um programa que fiz na TV pernambucana. Tem um feeling de estrada, ensolarado; meio George Harrison. Adoro os slides e os timbres de clavinete que o Diogo Valentino usou.
• Unkind – Uma das novas. Minha demo era mais intimista, só voz, violão e delays. O Diogo fez essa completa reinvenção, inserindo beats e texturas intricadas – e eu aprovei totalmente.
• Are You Mad At Me? – Diferente dos meus outros discos, em “Dumbo” eu não toquei muitos instrumentos – ou melhor, quase não toquei. Gravava as bases e quando voltava ao estúdio, os meninos (Diogo, Mancha e Felipe) já haviam viajado um monte em cima das músicas, sempre com resultados irretocáveis. Em “Are You Mad At Me?”, no entanto, eu quis preservar o tom lo-fi da minha demo original. Gravei o 2º violão e os synths, exatamente do jeito que costumo fazer em casa.
• I Walk Alone – Dumbo seria um álbum duplo, porém tive que abortar a ideia para não encarecer o projeto. Parte do material que acabou não entrando era mais tenso, pesado – deveria aparecer num segundo disco que apelidamos de “Mogli”. Já testada em alguns shows, a antiga “I Walk Alone” (de 1997) é uma das que sobreviveram ao repertório final.
• Red Alert – Tirada da mesma fita onde enconrei “I Walk Alone” – na verdade, a “Red Alert” do k7 também vinha logo na sequência. Era um folk bem rústico, lírico, mas voltou em versão turbinada com Diogo e companhia.
• Take Me Back To Planet Earth – Uma das músicas do Luciano Buarque selecionadas para o já comentado “Mogli” (ver “I Walk Alone”). O Clayton Martin apareceu no estúdio, tocou bateria e criou aquele interlúdio inusitado que soa como o momento de redenção do personagem da canção – a seção “dos anjos”, como chamamos internamente.
• Dumbo – o título engloba o conceito das canções “órfãs”, por isso a escolha. Da mesma safra de “She’s Leaving Town”, soa como um mantra espacial. Léo Monstro colaborou com teclado; Lulina, Laura Wrona e Juliana R se juntaram ao coro psicodélico.
• Work – Outra favorita. Foi uma das últimas que fiz para Dumbo e traz um dueto com Juliana R. Tem um clima perfeito de encerramento, na minha opinião.
Sobre Stela Campos
Tendo iniciado sua carreira cantando jazz em pubs paulistanos, no início da década de 90, Stela Campos construiu uma sólida obra autoral, compondo, arranjando e produzindo seus próprios trabalhos. Antes de estrear como artista solo, fez parte da cult Funziona Senza Vapore, banda remanescente do grupo Fellini, além de ter liderado o Lara Hanouska (1993-1997). Com o último grupo, remontado em Recife no ano de 1994, participou ativamente do movimento mangue beat, colaborando com os principais nomes desta cena (Chico Science & Nação Zumbi, Fred 04, Eddie, Devotos, Siba, DJ Dolores etc). Participou de trilhas (“Baile Perfumado”, de Paulo Caldas e Lírio Ferreira; “Enjaulado”, de Kleber Mendonça Filho), coletâneas internacionais e lançou quatro álbuns solo aclamados pela crítica nacional. São eles: “Céu de Brigadeiro” (1999), “Fim de Semana” (2002), “Hotel Continental” (2005) e “Mustang Bar” (2009). Em 2013, integrou a banda de apoio brasileira do ícone alternativo norte-americano Daniel Johnston.