Nem sempre a interpretação mais óbvia é a menos interessante. No italiano A Bela que Dorme, por exemplo, nos deparamos com um emaranhado de histórias que gira em torno de um mesmo pano de fundo: a morte voluntária. A verdade, no entanto, é que a bela adormecida mencionada no título é a própria Itália, parada no tempo por seus dogmas e tradições.
Na prática, a bela em questão é a jovem Eluana Englaro, vítima de um terrível acidente de carro que a fez viver 17 anos em estado vegetativo irreversível. O caso real acabou dividindo o país de Berlusconi quando, em 2009, sua família ganhou na justiça autorização para realizar uma eutanásia. A polêmica foi debatida com exaustão pela comunidade científica, tribunais, jornais italianos e pelo Vaticano.
Considerado um dos melhores diretores daquele país em atividade, Marco Bellocchio (A Hora da Religião, de 2002) mistura o tom documental da história de Eluana com personagens fictícios desiludidostodos passando por momentos delicados onde é preciso questionar o direito de morrer.
Há um senador (Toni Servillo) angustiado por ter de ir contra seus princípios por conta de seu partido conservador; sua filha (Alba Rohrwacher), uma militante católica fervorosa que se envolve por um jovem cujo irmão é defensor da eutanásia (Michele Riondino); uma dependente química suicida (Maya Sansa) que recebe tratamento de um médico (Pier Giorgio Bellocchio) idealista que quer salvá-la da morte a qualquer custo. E tem também uma mãe desesperada interpretada por uma segura Isabelle Huppert (A Professora de Piano). Por causa da filha em coma, a personagem abandonou a bem-sucedida carreira de atriz e negligencia o resto da família.
Para refletir
Assim como mistura diversas histórias e gêneros, o diretor não nos obriga a escolher um lado, tampouco mostra o que é certo ou errado. Vai além. Ele escancara a maneira esquizofrênica pela qual a sociedade (seja ela italiana ou não) lida com o livre arbítrio.
É a vontade própria contra o desejo democrático, a individualidade versus a coletividade. Um filme que faz pensar e que alimenta a esperança de que o ser humano – apesar de aparentar estar sempre anestesiado – ainda tem conserto.