Apesar de ter saído de mãos abanando da 10ª edição do Amazonas Film Festival, a estreia de Hilton Lacerda na direção foi ovacionada pela plateia durante sua exibição em Manaus no início do mês. Tatuagem anda mesmo fazendo burburinho nos festivais de cinema Brasil afora, arrebatando prêmios e muitos elogios por onde passa. No Festival de Gramado, venceu os prêmios de Melhor Filme, Melhor Ator, Melhor Trilha Sonora e Prêmio de Crítica.
A trama central, que se passa no Recife de 1978, versa sobre o romance entre Clécio Wanderley e Fininha, interpretados por Irandhir Santos e Jesuíta Barbosa.
Como pano de fundo estão as peripécias do grupo teatral Chão de Estrelas (inspirado na trupe pernambucana Vivencial), que se apresenta – em plena ditadura militar – mesclando poesia e toques exagerados de cabaré, sempre com muita nudez e deboche à instituições como religião, família e bons costumes.
Trio fora de série
Lúdico e transgressor, o universo acaba encantando Fininha, jovem soldado que enche os olhos de Clécio quando o garoto visita a casa noturna para dar um simples recado a seu cunhado Paulete (Rodrigo Garcia), estrela dos espetáculos da companhia.
Todo o elenco do filme e da trupe do Chão de Estrelas é excepcional, mas o trio formado por Irandhir, Jesuíta e Garcia é química pura.
Tatuagem marca o espectador. Não por suas cenas de sexo e nu frontal, mas por sua simplicidade cativante. A delicadeza da cena que mostra o primeiro encontro entre Clécio e Fininha, por exemplo, é doce e natural. A naturalidade com que os dois conversam na cama antes de fazer amor, aliás, é desconcertante.
Muito mais do que um filme sobre repressão, ditadura e homossexualidade, a obra trata de uma busca incansável pela liberdade (do corpo e da alma). O filme é poesia, e vale (e muito) uma ida ao cinema.
Parceria vai se repetir em breve
A dupla de atores Irandhir Santos e Jesuíta Barbosa acaba de fazer novo filme. Na verdade, é um especial de TV, escrito por George Moura, autor da micro-série global O Canto da Sereia, com Isis Valverde. Vai ao ar em janeiro e baseia-se numa história muito conhecida no imaginário nordestino: a emparedada, garota punida pelo pai por ter engravidado.
Cinema autoral
Mais conhecido entre cinéfilos pelos roteiros de Baixio das Bestas, Amarelo Manga, Baile Perfumado e Febre do Rato, o pernambucano Hilton Lacerda é um nome para se prestar atenção.
Três perguntas para o diretor Hilton Lacerda
Como foi o trabalho de composição dos personagens?
Quando fizemos a pré-produção, unimos os núcleos em casarões para que todos convivessem por meses a fio antes das gravações. Era uma estratégia para trazer à tona essa interpretação anárquica do Chão de Estrelas. Os atores acabavam propondo outras falas e outras nuances, além do texto em si.
Como foi trabalhar com Irandhir Santos mais uma vez?
Tenho muita proximidade com ele. Trabalhamos duas vezes de maneira muito próxima em Baixio das Bestas e Febre do Rato. Gosto muito do corpo de Irandhir como ferramenta. Ele tem uma capacidade de transformação muito grande, uma sagacidade que me interessa muito. Além de ter sido muito gentil com o filme, com a proposta. Ele não entrou no grupo para dirigi-lo e se manteve na mesma altura de todos os outros apesar de ser o personagem mais forte.
Você roteirizou vários sucessos de Claudio Assis e agora faz sua estreia na direção ficcional. Como foi a transição?
Fiquei super feliz com Tatuagem, com o que ele pretendia e aonde está chegando. É claro que a gente sempre tem alguma coisa que queria mudar. Costumo dizer que montagem e roteiro a gente não acaba, abandona. (risos). O filme foi um trabalho de 48 anos (a idade do diretor), já que me debrucei por completo, gastei tempo e entreguei parte da minha vida.