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Viva

Sebastião Salgado: imagens e nuances do nosso mundo

Arquivo Geral

02/09/2014 8h30

O olhar sobre a natureza, sobre os excluídos, sobre a humanidade e suas diversas vertentes. Os cliques em preto e branco que falam muito além da imagem. O fotógrafo mineiro Sebastião Salgado faz de seu trabalho uma poesia, uma arte revelada através das lentes de suas diversas máquinas fotográficas.

São 41 anos de profissão, 11 obras que viraram livros e passagens pelos quatro cantos do mundo. Viagens que ele fez, é claro, sem deixar de levar sua máquina fotográfica, seu grande amor e instrumento da profissão que serviu como registro de sua vida.

Após oito anos de registros e mais de 30 viagens a regiões remotas e de difícil acesso do mundo, Sebastião Salgado apresenta a mostra Genesis, em cartaz a partir de amanhã  no Centro Cultural Banco do Brasil (Setor de Clubes Esportivos Sul). 

Um novo olhar

E quem passar pelo CCBB  não terá apenas a oportunidade de conhecer 245 fotografias desse grande  mestre da imagem. Ao olhar para as fotos, será possível ir além e  viajar por universos misteriosos, desconhecidos, além de ter contato com outra natureza. Afinal, o detalhe e a necessidade de mostrar um novo olhar do mundo são características da obra desse fotografo. 

Em Genesis, paisagens terrestres, aquáticas, pessoas e animais que permanecem intocados, preservados do ritmo frenético do mundo contemporâneo, pulam da foto para dentro do observador. As obras tocam e encantam. “Foi um trabalho minucioso até nas escolhas dos lugares. Recorremos ao Patrimônio Mundial da Unesco de Paris e, por meio de um estudo, decidimos que iríamos adentrar em locais frios, como a Antártica, em ilhas desconhecidas, nas diversidades da África e pluralidades do Brasil, com foco na Amazônia e Pantanal”, explica a curadora e esposa de Sebastião Salgado, Lélia Wanick Salgado.

Os detalhes das jornadas

Nos holofotes da mostra, um poema de amor exalta e exala a majestade e fragilidade do nosso planeta. Desertos, montanhas, florestas, tribos, aldeias, animais clicados sobre terra, céu e mar. O fotógrafo procurou abarcar tudo isso na sua passagem pelo mundo. Em entrevista ao Jornal de Brasília, ele lembra e destaca, com orgulho, alguns momentos marcantes do longo percurso: uma viagem de 800 km a pé nas montanhas da Etiópia, uma aventura de barco nas Ilhas Malvinas, o contato com baleias na Patagônia e o frio de 35º negativos. Tudo isso para compor a imperdível  Genesis, uma verdadeira volta ao passado e aos seres ancestrais. 

Segundo Sebastião, para chegar ao final da obra foram necessários oito anos totalmente empenhados e  dois meses de passagem por cada local. Entre as idas e vindas a Paris – cidade na qual reside – ele se virou entre as edições, produções e preparações para o próximo caminho.  

“Chegava em casa, editava e já me preparava para a próxima viagem. Afinal, quis fazer uma coisa profunda, mostrar essas luzes do norte e do sul do mundo”, relembra. 

Zâmbia
 
Perseguidos por caçadores furtivos na Zâmbia, os elefantes (da espécie  Loxodonta Africana) têm medo  dos homens e dos veículos. Fotografias exclusivas e tocantes desses animais assustados, adentrando rapidamente nas matas e também com suas crias, são reveladas na seção dedicada à África. Os mistérios desse grande continente,  seus desertos, as poeiras vermelhas que sobem e provocam bonitos jogos de luz nas lentes de Sebastião Salgado são destaques. Essa foto foi feita no Parque Nacional de Kafue (Zâmbia),em 2010.
 
Viagens de norte a sul
 
A profundidade de Genesis é comparada com a diversidade da Terra. Por isso, e para compor uma passagem cronológica que não confunda o público, a mostra foi dividida em cinco seções geográficas, cada uma com sua característica e ecossistema próprio. 
 
Em uma das alas, por exemplo, é possível entrar em contato com locais inacessíveis, como a Antártica, suas paisagens congeladas e raros animais. Nas belas fotos, pinguins, leões marinhos e baleias são fotografados não apenas como mero personagens. Os cliques poéticos de Salgado mostram detalhes curiosos, como esses animais em zonas de reprodução. 
 
Diversidade
 
Ainda nessa seção, é possível conferir imagens do Sul da Geórgia,  do arquipélago Diego Ramirez e das Ilhas Sandwich. Os locais exibem espécies desconhecidas, como albatrozes, petreis-gigantes e cormorões.
 
Do frio para o fogo, em outra ala é apresentada a vida selvagem do Delta de  Okavango, na Botswana, os gorilas do Parque Virunga, na divisa de Ruanda, as tribos desconhecidas do Sudão e a população do deserto  Kalahari, em Botswana, que mostrarão uma África espetacular, com as cores das poeiras exploradas e as expressões dessas tribos acentuadas.
 
A exposição passa ainda pelas terras do norte do mundo. Visões do Alasca e do Colorado, da população indígena Nenet – radicada no norte da Sibéria –, dentre outras terras inatingíveis realçam-se em cada uma das galerias disponíveis para visitação gratuita.
 
Todos os tons do preto e branco
 
A emoção contagia nos retratos e depoimentos. Exemplos de imagens de elefantes perseguidos na Zâmbia (África), de mulheres da tribo zo’é Towari Ypy colorindo os seus corpos, de leões e baleias em momentos de compaixão com suas crias. A escolha é sempre o preto e branco e as mil e uma variações de tons que o artista consegue captar de maneira peculiar. 
 
Afinal, como já diria Sebastião Salgado em sua autobiografia Da Minha Terra à Terra , “Os azuis e vermelhos são tão bonitos que eles se tornavam mais importante que as emoções contidas nas fotos. Com o preto e branco e todas as gamas de cinza posso me concentrar na densidade das pessoas, nos seus olhares, nas suas atitudes sem que eles sejam parasitados pela cor.” 
 
A exploração da  Amazônia, do Pantanal e da densa floresta tropical brasileira com seus múltiplos  encantos também compõem a exposição. 
Social
Ainda, retratos da organização sem fins lucrativos fundada por Salgado e sua esposa, o Instituto Terra (MG). A ideia dessa seção é chamar a atenção para a importância da preservação e recuperação da fauna e flora do planeta. 
 
“A base para Genesis nasceu da nossa organização, que trabalha pela recuperação da bacia do Vale do Rio Doce e da Mata Atlântica. A vontade de falar e ver o mundo e suas áreas ainda preservadas foi tão grande que partimos para essa viagem internacional. Espero passar essa conscientização”, declara Salgado. 
O artista também destaca as grandes impressões que teve com a a fauna  e as paisagens vulcânicas registradas nas ilhas Galápagos, um conjunto de 13 ilhas (apenas quatro habitadas), situadas no Oceano Pacífico.  Essa ala, chamada Santuários, engloba ainda  as populações anciãs da Nova Guiné e diferentes ecossistemas de Madagáscar, país insular no Oceano Índico, ao largo da costa sudeste da África. “São preciosidades que não conhecemos. O maior encanto de fotografar locais como esses  é o de se conectar com os povos, com aquela cultura, com os animais. É viver um pouco do que eles vivem e traduzir nas imagens”, conclui.
 
Números
 
2004 foi o ano em que Sebastião Salgado começou a viajar e fotografar para a mostra Genesis 
 
32  locais o fotógrafo visitou, passando pelo Norte e pelo Sul do mundo. 
 
 
41 anos de profissão tem o artista mineiro, de 70 anos, acumula.
 
 
11 obras fotográficas o artista concluiu até 2014, sem contar as menores exposições.
 
Ponto de vista
 
Carioca radicado em Brasília, Eraldo Peres é fotógrafo há 33 anos e curador do Mês da Fotografia. Como referência de fotografia e de vida,  ele cita a importância  do mestre Sebastião Salgado. “É um gênio que sabe adentrar profundamente nas obras, compor de maneira única com a luz. Ele ainda consegue atingir todos os tons com as fotos em preto e branco e pegar expressões únicas. De fato, é uma referência universal”, pontua. 
 
Serviço
 
Genesis – De amanhã a  20 de outubro. Visitações de quarta a segunda, das 9h às 21h. No Centro Cultural Banco do Brasil (Setor de Clubes Esportivos Sul). Entrada franca. Informações: 3108-7600. Classificação livre.

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