O Que A Vida Me Ensinou, da Editora Saraiva, talvez se situe entre as biografias e os livros de autoajuda. O volume de Frei Betto (2013), com o subtítulo O Desafio é Sempre Imprimir Sentido à Existência, definitivamente vale a pena. É compreensível o preconceito inicial, para quem discorda da famosa “teologia da libertação”. E Frei Betto, de fato, deixa escapar o principal problema dessa linha ao relembrar sua formação, no primeiro capítulo: “promoviam uma revolução copernicana em nossas cabeças, deslocavam o senso de pecado pessoal para o social”.
Se no cristianismo, o homem figura fraco, no marxismo tem o seleto potencial de redenção política. Luiz Felipe Pondé conclui bem: “A esquerda é menos completa como ferramenta cultural para produzir uma visão de si mesma. A espiritualidade de esquerda é rasa. Aloca toda a responsabilidade do mal fora de você: o mal está na classe social, no capital, no estado, na elite. Isso infantiliza o ser humano”. Vivemos hoje, de fato, uma espécie de pré-escola no senso comum, seja leigo ou universitário.
Humildade e pureza
Frei Betto acrescenta uma humildade cristã e pura ao discurso politicamente correto. A destreza intelectual e a definição de espiritualidade como “nosso verdadeiro eu”, porém, não impedem que o autor admita a necessidade de referenciais externos para evitar a loucura: “Não há sofrimento maior do que perder-se de si, torturado pelo esplendor da lucidez”.
Ele observou em si mesmo o processo da “razão tragada pela inteligência”, e aconselha a entrega e a reserva de tempo para “curtir o amor de Deus”. Em outras palavras, ele reconhece que o sucesso não está na autoajuda, mas sim na “outroajuda”.