No longa O Conselheiro do Crime, que estreia nos cinemas na próxima sexta, Javier Bardem interpreta Reiner, dono de boate extravagante. O artista, que é marido de Penélope Cruz na vida real, volta a atuar com texto de Cormac McCarthy, autor do elogiado romance Onde os Fracos Não Têm Vez, que também se tornou um filme de grande sucesso e pelo qual Javier Bardem ganhou o Oscar por interpretar o assassino Anton Chigurh. Na entrevista a seguir, o artista fala como foi trabalhar com o cineasta Ridley Scott e como gostou muito de atuar com texto de McCarthy mais uma vez. “É raro encontrar material em que longas cenas de diálogo possam evocar imagens tão fortes. Fiquei fascinado imediatamente. Logo vi que, para um ator, esse diálogo era um tesouro”, disse Bardem.
Como esse projeto chegou até você?
Eu estava em Londres, filmando Skyfall, recebi o roteiro, li, e fui muito atraído pela escrita do Cormac McCarthy. Eu achei o roteiro fantástico. Era sobre sobre as situações e conflitos e como aqueles personagens expressavam isso através das palavras. Como ator, foi como um presente ler esse material, por conta das cenas com ótimos diálogos e grandes discursos. Então eu estava imediatamente mergulhado nisso, e era engraçado, porque essa imagem do Reiner, do seu estilo, foi o que veio à minha cabeça desde o primeiro momento. Eu entendo que ele era um cara da noite, que foi tratado como vítima durante toda a vida, mas que está tentando mostrar que ao mundo o oposto disso. Ele está tentando mostrar que ele está no controle de tudo, especialmente na relação com as mulheres. O que eu quero dizer é que, às vezes, a ideia e a imagem do que você quer mostrar chega na sua cabeça tão rápido e esse foi um desses momentos. Às vezes você tem que realmente pensar sobre o papel, mas esse material realmente me inspirou.
O filme é sobre homens fazendo escolhas erradas. Você concorda?
É, eu acho que esse é um tema que Cormac gosta de trabalhar, porque em Onde os Fracos não têm vez, de novo, era sobre homens fazendo as escolhas erradas. Nesse aqui é a mesma coisa – como você se envolve com isso? Como você se salva nessas circunstâncias? Quais são os sacrifícios que você precisa fazer e as mentiras que tem que contar? Eu acho que o tema é muito humano e também muito clássico, e às vezes, muito obscuro. É Cormac McCarthy, não Walt Disney.
O Ridley trabalha com muitas câmeras. Você tem que esquecer onde elas estão?
Sim. Bom, o máximo que eu posso, eu tento esquecer onde a câmera está, apesar que é impossível esquecer totalmente. Têm muitas coisas envolvidas no jogo para você tentar jogar como se não soubesse onde estão as câmeras. Claro que você tem que saber, mas saber e estar ciente demais são coisas diferentes. Você tem que saber para não estragar as coisas, mas uma vez que eu sei onde as câmeras estão colocadas, eu não olho duas vezes. O jeito que o Ridley trabalha com as câmeras é ótimo porque elas estão sempre mudando e o ponto de vista de cada atuação é mudado completamente com cada movimento de câmera. Além disso, eu também acho que é bom para a noção que ela te dá, porque você está cercado por isso, e você não pode ter noção demais sobre o que você está fazendo porque você nunca sabe que olho está olhando para você (risos). E isso é bom porque você tem que desistir e se render a isso.
Parece que você se divertiu com o filme. E com certeza isso é por conta dos muitos elementos do filme – trabalhar com Ridley em cima de um roteiro do Cormac McCarthy, um grande elenco, e leopardos no set. Como você poderia resumir?
Foi incrível. No final, quando você faz um filme, o que importa são as pessoas que estão em volta. Ridley, o elenco e toda a equipe de produção são um grupo excepcional de pessoas. Eu tive muita sorte porque Ridley cria uma atmosfera linda, relaxante e desafiadora para se trabalhar. Ele sempre trabalha com muitas das mesmas pessoas na equipe e isso faz você se sentir confortável. Todos os colegas de elenco, especialmente Michael (Fassbender) e Cameron (Diaz), foram muito legais e fáceis de trabalhar, então era só ir para o trabalho e tentar não estragar. Para mim, foi um desafio. As cenas com muitos diálogos são desafiantes e Ridley vai fazer tudo em um take, e aí, claro, você repete de ângulos diferentes. Têm várias cenas no filme onde ele usa esse take único. E tem cenas longas só com dois atores. Olhando dessa forma, era como teatro.
Você disse que queria trabalhar com Ridley há muito tempo. Ele te surpreendeu no set?
Ele foi um querido. Ele sabe tanto sobre como é fazer filme e o que ele faz é te fazer achar que você é livre para fazer como você quiser, mas no fim do dia, você percebe que você fez exatamente como ele queria (risos). E isso é ótimo, porque é parte do talento dele. Claro que você dá um crédito ao ator por fazer você acreditar que ele é livre para tentar coisas diferentes – e nós éramos – mas no fim, ele sabe que o que está fazendo e como te fazer chegar onde ele quer. É uma honra ser dirigido por ele.
É uma trama obscura, mas também tem um certo humor nela, certo?
Sim, é uma trama muito obscura, muito McCarthy. Eu acho que tem alguns momentos muito sombrios, mas muito divertidos… esse humor também me ajudou a construir Reiner. Ele pode se divertir com quase tudo, nada é sagrado para ele.