Há algo de peculiarmente moderno na arte de destruir o que já foi bom. Hollywood aprendeu, com uma eficiência quase industrial, que o medo pode ser engarrafado, etiquetado e vendido em série, mesmo que o frasco esteja vazio. Os Estranhos: Capítulo Final, terceiro e último capítulo da trilogia dirigida por Renny Harlin que chega às telonas nesta quinta-feira (9), é o documento mais honesto desse processo: um filme que existe não porque tinha algo a dizer, mas porque dois outros filmes já tinham sido filmados ao mesmo tempo e alguém precisava fechar a conta.
O original de Bryan Bertino, lançado em 2008, era uma obra de precisão minimalista. Dois personagens. Uma casa. Três máscaras. Nenhuma explicação. O que tornava aquele filme genuinamente perturbador era justamente sua recusa em negociar com o espectador, sua insistência em que o mal não precisa de motivação para bater à sua porta. Era um filme que entendia que o inexplicável é sempre mais assustador do que o roteirizado. A trilogia de Harlin não entendeu nada disso.

Filmados simultaneamente em 2022 e depois fatiados em três lançamentos, os capítulos parecem o resultado de uma aula de roteiro aplicada de forma literal demais. Há um primeiro ato, um segundo ato e agora um terceiro. O problema é que dividir a estrutura narrativa em produtos separados não é criatividade: é logística disfarçada de arte. “Capítulo Final” chega ao fim dessa equação com a tarefa ingrata de concluir o que nunca teve começo sólido.
A protagonista Maya, interpretada por Madelaine Petsch, reaparece ainda em fuga, perseguida pelo assassino Gregory e pela sombra de uma cidade inteira conivente com o crime. A ideia de uma comunidade que protege seus monstros locais desde que as vítimas sejam sempre de fora tem potencial antropológico inquietante, um comentário sobre pertencimento, cumplicidade e identidade coletiva que o filme toca de leve e logo abandona, preferindo o machado ao bisturi.

A mais promissora das ideias novas desta trilogia, que aparece brevemente neste capítulo, é a tentativa dos assassinos de transformar Maya em uma deles, absorvendo a vítima para dentro do ritual. Há ali um lampejo de algo sobre trauma, sobre como a violência pode reescrever uma pessoa por dentro. Mas os roteiristas Alan R. Cohen e Alan Freedland recuam no momento exato em que deveriam avançar, entregando o espectador a uma resolução previsível em vez de arriscar o desconforto de uma conclusão mais ambígua.
Harlin ainda sabe compor uma cena isolada com competência técnica. Sua câmera ocasionalmente encontra ângulos que criam tensão legítima, e há sequências que funcionam como exercícios de estilo dentro de uma floresta esfumaçada que deveria ser opressiva. O problema é que o estilo pragmático do diretor, eficiente para filmes de ação dos anos 1990, nunca encontrou a frequência certa para o terror psicológico. Ele dirige o medo como se dirigisse uma perseguição de carro: com velocidade, mas sem subtexto.

No centro de tudo isso, Petsch é a única força que mantém o filme com alguma gravidade. Sua performance atravessa o roteiro fraco com uma fisicalidade e uma expressividade que o material não merece. Há momentos em que ela consegue comunicar o peso do trauma com apenas um olhar, fazendo o espectador torcer por ela não como personagem de um filme de terror, mas como ser humano em colapso. É um trabalho que pertence a um filme melhor, e essa distância entre atriz e material é, talvez, o verdadeiro horror desta trilogia.
Conclusão
Os Estranhos: Capítulo Final encerra um experimento que nunca deveria ter começado como trilogia, e que poderia ter funcionado como um único filme corajoso. Em vez disso, o que fica é a sensação de que Hollywood tratou o medo como planilha: dividiu o orçamento, triplicou os lançamentos e esqueceu de incluir a alma. Os estranhos reais desta história não usam máscaras, eles assinam contratos de produção.
Confira o trailer:
Ficha Técnica
Direção: Renny Harlin;
Roteiro: Alan R. Cohen e Alan Freedland;
Elenco: Madelaine Petsch, Gabriel Basso, Ema Horvath;
Gênero: Terror;
Duração: 91 minutos;
Distribuição: Paris Filmes;
Classificação indicativa: 18 anos;
Assistiu à cabine de imprensa a convite da Espaço Z