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Cinema com ela
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“O Morro dos Ventos Uivantes” aposta no excesso e esvazia a força trágica do clássico

Margot Robbie e Jacob Elordi protagonizam a releitura dirigida por Emerald Fennell, que estreia nos cinemas nesta quinta-feira (12)

Tamires Rodrigues

12/02/2026 5h00

o morro dos ventos uivantes

Foto: Divulgação/Warner Bros. Pictures

A nova adaptação de “O Morro dos Ventos Uivantes” chega aos cinemas nesta quinta-feira (12), cercada de expectativa e polêmica, mas entrega uma experiência que privilegia o choque visual em detrimento da densidade emocional. O romance de Emily Brontë sempre foi marcado por um amor devastador, atravessado por classe, ressentimento e obsessão. Nesta versão, porém, a tragédia é convertida em espetáculo estilizado. O que deveria ferir como vento cortante nos pântanos de Yorkshire muitas vezes soa como performance calculada. A intensidade existe, mas raramente encontra profundidade.

A diretora Emerald Fennell opta por amplificar o desejo físico que no livro permanece tensionado nas entrelinhas. Ao fazer isso, transforma a narrativa em uma sucessão de imagens carregadas de erotização e provocação. Não se trata de atualizar o clássico, mas de reinterpretá lo sob a lógica do excesso contemporâneo. A paixão entre Catherine e Heathcliff deixa de ser um conflito interno dilacerante para se tornar combustão explícita. A sutileza dá lugar à insistência.

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Foto: Divulgação/Warner Bros. Pictures

Margot Robbie assume uma Catherine magnética e consciente do próprio poder. Sua presença domina a tela com segurança e entrega física, mas falta à personagem aquele abismo emocional que a torna contraditória e perturbadora. A dor parece encenada com elegância, quase como se estivesse sempre ciente da câmera. O conflito entre desejo e ambição social perde nuances. O resultado é uma heroína que impressiona, mas raramente desarma.

Já Jacob Elordi constrói um Heathcliff menos ameaçador e mais mitificado. A brutalidade do personagem é suavizada por enquadramentos que destacam sua imagem quase icônica. A raiva e o ressentimento que alimentam sua vingança aparecem mais como postura do que como ferida aberta. A transformação do garoto humilhado em homem vingativo não atinge o peso dramático esperado. O anti-herói se torna uma figura sedutora, mas menos inquietante.

Visualmente, o filme exibe rigor estético evidente. A casa dos Earnshaw surge sombria e teatral, como se fosse parte de um pesadelo cuidadosamente iluminado. Já a propriedade vizinha contrasta com cores e texturas que mostram o abismo social entre os personagens. Cada cenário parece pensado para provocar impacto imediato. No entanto, a beleza constante sufoca o drama em vez de ampliá-lo.

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Foto: Divulgação/Warner Bros. Pictures

A decisão de simplificar a estrutura do romance e eliminar personagens importantes reduz a complexidade da história. Ao descartar a segunda metade do livro, o roteiro concentra tudo na explosão central do casal. A obsessão, que deveria reverberar por gerações, torna-se episódio concentrado. A violência simbólica do legado familiar desaparece. A tragédia perde alcance e se limita ao presente imediato.

A governanta Nelly, peça fundamental na arquitetura literária da obra, surge com menos ambiguidade do que deveria. No romance, ela é filtro e distorção, testemunha e agente do caos. Aqui, sua função narrativa é mais direta, menos ambígua. O jogo de perspectivas, que sustenta a tensão moral da história, é substituído por confrontos explícitos. O espectador recebe respostas onde antes havia dúvida.

Há momentos de potência inegável, especialmente nas cenas de despedida e vingança. A diretora demonstra domínio visual e coragem para assumir escolhas radicais. A trilha sonora e a montagem destacam o caráter quase operístico da proposta. Ainda assim, o excesso constante impede que o silêncio tenha espaço. A emoção não se constrói, ela é imposta.

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Foto: Divulgação/Warner Bros. Pictures

Existe uma leitura interessante sobre desejo reprimido, poder e hierarquia social. A tentativa de explorar o erotismo latente do romance poderia abrir novas camadas interpretativas. No entanto, ao satisfazer aquilo que sempre foi tensão não consumada, o filme enfraquece sua própria força trágica. O que era angústia permanente se torna experiência episódica. A obsessão deixa de ser fantasma para virar espetáculo.

Conclusão

No fim, esta versão de “O Morro dos Ventos Uivantes” impressiona pela ousadia e pela ambição estética, mas dificilmente alcança a devastação emocional do original. É um filme que provoca, mas nem sempre comove. Ao trocar o sofrimento silencioso pelo impacto visual constante, transforma um clássico sobre amor destrutivo em uma fantasia estilizada que brilha intensamente, mas não permanece com a mesma força na memória.

Confira o trailer:

Ficha Técnica
Direção: Emerald Fennell;
Roteiro: Emerald Fennell, baseado no romance de Charlotte Brontë;
Elenco: Margot Robbie, Jacob Elordi, Hong Chau, Alison Oliver, Shazad Latif, Martin Clunes, Ewan Mitchell, Amy Morgan, Jessica Knappett, Charlotte Mellington, Owen Cooper, Vy Nguyen;
Gênero: Drama, Romance, Gótico;
Duração: 134 minutos;
Distribuição: Warner Bros. Pictures;
Classificação indicativa: 16 anos;
Assistiu à cabine de imprensa a convite da Espaço Z

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