Com uma programação musical de peso, atividades diurnas e experiências sensoriais únicas, no Na Praia, cada detalhe importa, inclusive a destinação do lixo produzido ao longo do evento. A partir das ações feitas desde o primeiro ano de realização, o festival ganhou a certificação Lixo Zero e se consolidou como referência em sustentabilidade e boas práticas ambientais. Em 2025, o compromisso com o meio ambiente segue como um dos principais pilares do projeto e esse foi o foco da abertura da programação do JBr Talks — série de painéis promovida pelo Jornal de Brasília dentro do evento.
A conversa inaugural foi no Bar do Na Praia, com a mediação de Paula Reis, gerente regional da Amcham Brasil em Brasília e Goiânia. Para debater sobre o tema ‘Na Praia como o maior evento lixo zero do mundo é de Brasília’, os convidados do painel foram Edu Azambuja, sócio e diretor de Sustentabilidade da R2; Kallel Kopp, futurista e especialista em desenvolvimento sustentável, e CEO da IS.ECO; e Juliana Pimentel, superintendente de Relações Institucionais da Neoenergia.

Na ocasião, Edu Azambuja, sócio e diretor de Sustentabilidade da R2, relembrou com orgulho a trajetória do festival, que inovou dentro do cenário nacional e cresceu globalmente depois. “Em 2017, o Na Praia foi o primeiro evento lixo zero do Brasil”, afirma. Na época, nenhum outro evento desse porte do país havia alcançado esse nível de compromisso ambiental, e se tornou referência ao abrir caminho para que outras iniciativas passassem a olhar com mais atenção para a sustentabilidade.
Um ano depois, veio o reconhecimento internacional como maior evento Lixo Zero do mundo, com um índice de desvio de aterro superior a 97%. “Apenas 2% dos resíduos foram para o aterro. O restante teve uma destinação nobre”, destacou.
Essa excelência se mantém ao longo dos anos. Em números, o Na Praia atingiu 95% de desvio de aterro em 2017, 97,9% em 2018 e 97,47% em 2019. Outros eventos organizados pela R2 também seguem esse padrão: o Surreal 2018 alcançou 90,3%, e em 2019, 95,25%. Já o Carnaval no Parque registrou 96,8% em 2018 e 93,3% em 2019.

As conquistas foram reconhecidas em premiações nacionais e internacionais: o Na Praia venceu o Concurso Iniciativas Empresariais Sustentáveis (2017), recebeu o Design de Impacto Positivo pelo Brasil Design Awards (2018) e foi duas vezes vencedor do Prêmio Lixo Zero (2018 e 2019) na categoria Evento Lixo Zero. Em 2019, recebeu ainda a Certificação da Zero Waste International Alliance, como maior evento Lixo Zero do mundo.
Uma das primeiras medidas implementadas foi o uso do Eco copo, um copo reutilizável que substitui os descartáveis e ainda carrega mensagens de conscientização. “É importante comunicar o impacto. Esse copo evita milhões de descartáveis”, reforçou. Essa medida foi o primeiro passo concreto rumo à redução de resíduos já na edição de 2017, que ainda enfrentava os desafios iniciais da implantação. A mudança, segundo Edu, também impactou financeiramente o evento, já que só com a substituição de garrafinhas plásticas por eco copos para os cerca de 2 mil colaboradores do evento e a instalação de bebedouros, foram poupados cerca de R$ 40 mil em gastos.
Ele também lembrou dos desafios enfrentados no início, para convencer os fornecedores a abandonarem os descartáveis. “Em 2017 um colaborador chegou a dizer que não conseguiria se adaptar. Não abririamos exceção para ninguém e depois de três semanas, ele conseguiu se adequar para entrar no evento. Hoje, isso está em contrato, e indicamos fornecedores especializados para facilitar a transição”, explicou.

No painel, Edu fez questão de destacar os protagonistas nessa ação de sustentabilidade: os parceiros da cooperativa Cobras, de Brazlândia, que faz a triagem e destinação correta dos resíduos. De acordo com Edu, o Na Praia não só doa os recicláveis para a organização, como remunera os cooperados. “Eles são parte fundamental do nosso resultado. Sem eles, não bateríamos a meta de Lixo Zero”, disse Edu. O vidro, por exemplo, é triturado e enviado a São Paulo, onde volta a ser vidro. Já o óleo de cozinha usado na praça de alimentação é reciclado e, em 2018, virou sabão distribuído com mensagens de conscientização no Carnaval no Parque, outro evento da R2, com os dizeres: “Semana passada eu era óleo, hoje sou cheiroso”. A ideia, segundo ele, é engajar o público sempre de maneira leve e criativa.
Ações de sustentabilidade
Em sua participação no painel, Juliana Pimentel, superintendente de Relações Institucionais da Neoenergia, contou que a instituição está dentro de toda a cadeia do setor elétrico, desde a geração, transmissão, distribuição de energia e comercialização. A empresa também investe em fontes renováveis, gerando energia limpa. Para Juliana, não dá para ignorar as mudanças climáticas que o mundo inteiro está vivendo e pensar os negócios de maneira sustentável é essencial. Ela anunciou uma ação que a companhia energética vai lançar ainda este ano: nós estaremos inaugurando uma planta de hidrogênio. Nós vamos ter um ônibus movido a água, vai ser uma oportunidade de ver essa nova tecnologia.”
Para ela, existem vários países com modelos sustentáveis que são referência, mas o Brasil pode ser uma referência nesse sentido também. “Inclusive o Brasil já é uma referência. Não à toa, temos o festival Na Praia como o maior festival lixo zero do mundo”, disse. Ela também lembrou que o projeto JBr Talks, ao dar voz a essas experiências de negócios que pensam na sustentabilidade, também está se inserindo nesse movimento essencial para todo o país.
O futurista Kallel Kopp, afirmou que vê esse pioneirismo do Na Praia como a inspiração para que outros modelos de negócios se movimentem também. “A gente não quer ser detentor de um conhecimento único, de um diferencial único que impede que os outros façam o mesmo. As nossas portas estão abertas, a gente quer que todo mundo faça isso”, destacou. Durante o evento, Kallel reforçou que acredita na união do mercado de entretenimento em prol dessa pauta positiva. Ele citou as ações do festival não somente no tocante a circularidade dos resíduos, como o Fome de Música, arrecadação de alimentos e as ações de combate ao assédio. “Porque quando a gente fala de sustentabilidade, não é somente ambiental. A gente está falando de uma complexidade gigantesca”, comentou.
Edu Azambuja reforçou que com um conjunto de ações que também serão abordados em outros painéis do JBr Talks, o Na Praia vai além do entretenimento: é também uma plataforma de transformação cultural. “Estamos educando uma nova geração com bons valores”, destaca. Ele acredita que, ao ocupar uma vitrine como o festival — que recebe milhares de pessoas e grandes artistas —, existe uma responsabilidade de aproveitar essa visibilidade para promover mudanças reais. “Seria uma chance desperdiçada se não usássemos essa oportunidade para fazer um golaço em termos de transformação cultural”, pontuou. Segundo ele, o engajamento do público mais jovem é prova disso.
O que é Lixo Zero?

Para o JBr, a especialista em ESG Mariana Borges, explicou que o conceito de Lixo Zero no Brasil é promovido pelo Instituto Lixo Zero, organização responsável pelas certificações e pelas diretrizes que definem boas práticas de gestão de resíduos.“Esse é um movimento brasileiro que criou um selo para certificar os eventos ou empresas que realmente fizessem uma boa gestão dos seus resíduos”, pontuou. Segundo ela, o instituto trabalha para mudar a percepção sobre os resíduos: “Hoje a gente vê que o resíduo é muito mais recurso do que lixo. Para muitos negócios, esses resíduos são matéria-prima.”
Segundo ela, o Instituto criou três níveis de reconhecimento: o primeiro é o Compromisso Lixo Zero, que prevê até 50% de destinação correta; o segundo, o Selo Rumo ao Lixo Zero, exige entre 50% e 89,9%; e o terceiro, a Certificação Lixo Zero, alcançada pelo Na Praia, estabelece que pelo menos 90% dos resíduos tenham destinação adequada.
“Significa que o evento teve uma gestão tão eficiente que conseguiu separar os resíduos de forma correta, evitando a chamada ‘mistureba’ — aquela mistura de plástico sujo, restos de comida e outros materiais que, quando mal separados, acabam indo para o aterro”, explicou Mariana.
Essa certificação é especialmente desafiadora para um evento como o Na Praia, que acontece ao longo de dois meses, com grande fluxo diário de pessoas novas circulando pelo local. “Você sensibiliza o público em um dia, mas no seguinte, tem uma pessoa diferente que pode não descartar corretamente aquele lixo. A gestão de resíduos, para alcançar o selo Lixo Zero em um evento com essas características, é complexa, robusta e ousada”, ressaltou a especialista.
Para ela, o sucesso do Na Praia prova que é possível sim transformar grandes eventos em referência de sustentabilidade, desde que haja estratégia, comprometimento e uma comunicação clara com o público.