Há algo de profundamente incômodo em O Drama, e essa é justamente a sua maior força. Com sessões antecipadas a partir desta quinta-feira (2), o filme chega propondo uma experiência que começa no terreno familiar do romance, mas rapidamente mergulha em uma atmosfera de tensão e desconfiança. O que parece ser apenas a história de um casamento prestes a acontecer se transforma em um retrato inquietante sobre até onde vai o que escolhemos esconder.
A proposta do diretor Kristoffer Borgli é clara desde o início. Ele não está interessado em conforto ou identificação fácil, mas em provocar. A narrativa brinca com a estrutura da comédia romântica apenas para desmontá-la, inserindo ruídos, silêncios e escolhas estéticas que sugerem que algo está fora do lugar mesmo quando tudo parece funcionar.

O encontro entre os protagonistas, vivido por Robert Pattinson e Zendaya, já anuncia essa ambiguidade. A cena que poderia ser leve e encantadora carrega uma estranheza sutil, como se o filme dissesse ao espectador que aquele romance, embora sedutor, nunca será totalmente seguro. A química existe, mas é atravessada por uma tensão difícil de ignorar.
À medida que o relacionamento avança, O Drama acelera o ritmo e adota uma montagem fragmentada que reforça a sensação de instabilidade. Momentos felizes são apresentados quase como flashes, enquanto a narrativa se prepara para o seu verdadeiro ponto de ruptura. O casamento, que deveria ser o ápice da celebração, torna-se uma contagem regressiva para o colapso.

Esse colapso chega de forma abrupta e desconcertante durante um jantar entre amigos. O jogo aparentemente inocente sobre segredos do passado se transforma no eixo central do filme quando uma revelação muda completamente a percepção de todos. A partir dali, a história deixa de ser sobre amor e passa a ser sobre dúvida.
O grande mérito do roteiro está em não oferecer respostas fáceis. O filme trabalha com a ideia de que o passado não desaparece, apenas se reorganiza dentro das pessoas. E mais do que isso, levanta uma questão inquietante: até que ponto conhecemos alguém de verdade, mesmo quando acreditamos estar prestes a construir uma vida ao lado dessa pessoa.

A partir desse momento, o personagem de Pattinson assume o protagonismo emocional da narrativa. Sua interpretação cresce à medida que o desconforto se transforma em paranoia. Ele constrói um arco que vai do encanto à obsessão, revelando um homem incapaz de lidar com a incerteza e consumido pela necessidade de controlar o que não pode ser controlado.
Zendaya, por sua vez, sustenta uma presença mais contida, quase enigmática. Sua personagem funciona menos como resposta e mais como provocação. É justamente essa escolha que mantém o filme em constante ambiguidade, já que nunca sabemos se estamos diante de alguém completamente resolvido ou de algo prestes a emergir.

Borgli conduz tudo com um senso de humor ácido que beira o desconforto físico. As situações constrangedoras se acumulam, o absurdo se mistura ao cotidiano e o espectador é colocado em uma posição incômoda, sem saber exatamente se deve rir ou se preparar para o pior. Essa indefinição de tom é arriscada, mas também é o que dá identidade ao filme.
Conclusão
O Drama não é um filme interessado em agradar, e talvez por isso funcione tão bem. Ao transformar um evento socialmente idealizado em um campo de tensão psicológica, a obra expõe fragilidades que muitas vezes preferimos ignorar. No fim, o título não poderia ser mais direto. Aqui, o drama não está apenas na história, mas na experiência de assisti-la.
Confira o trailer:
Ficha Técnica
Direção: Kristoffer Borgli;
Roteiro: Kristoffer Borgli;
Elenco: Zendaya, Robert Pattinson, Alana Haim, Mamoudou Athie, Hailey Benton Gates, Zoë Winters, Anna Baryshnikov;
Gênero: Drama, Romance, Comédia;
Duração: 106 minutos;
Distribuição: Diamond Films;
Classificação indicativa: 16 anos;
Assistiu à cabine de imprensa a convite da Espaço Z