
O novo filme do cineasta José Eduardo Belmonte, em cartaz a partir de hoje nos cinemas do País, traz um Rio de Janeiro que a grande maioria dos gringos que virão para a Copa do Mundo não conhece. Pior. Uma realidade que o povo brasileiro, por autismo social ou individualismo burguês, também desconhece. Daí o início do filme, que faz alusão à grande festa que está por vir, soa provocador e, ao mesmo tempo, crítico. Apesar de o cerne da trama fechar num esboço ficcional, muito do que se vê em Alemão é bem real e pulsa todos os dias nos noticiários de tevê e impressos brasileiros. Só não vê quem não quer.
Alçado por imagens jornalísticas e pegada documental, a história se passa dias antes da invasão do Complexo do Alemão por forças armadas, numa operação que tem, como medida do Estado, pacificar o lugar, um dos mais violentos do Rio. Lá, quem toca o terror e comanda o crime organizado é Playboy (Cauã Reymond), um traficante psicopata que, num primeiro momento, aceita essa queda de braço com o governo.
Violência
Seu reinado de poder e violência estão com os dias contados quando ele descobre que um grupo de milicianos organizado pelo governo local está infiltrado dentro da comunidade há meses, preparando o terreno para a invasão militar.
Descobertos e acuados, os milicianos – vividos pelos atores Caio Blat, Otávio Muller, Milhem Cortaz, Gabriel Braga Nunes e Marcello Melo Jr. – acabam isolados no porão de uma pizzaria de fachada, local que sempre foi o QG dessa operação. A única salvação é o delegado Valadares (Antônio Fagundes), o cabeça dessa missão.
Fortemente influenciado pelo cinema independente norte-americano dos anos 70, Alemão traz, nas entrelinhas, inúmeras implicações sociais – o que soa politicamente perigoso e, porque não positivo, num momento em que o governo festeja os preparativos para a Copa do Mundo. Um evento internacional visto com olhos tortos por parte da população brasileira.
Maduro, Belmonte realiza aqui, de longe, seu melhor trabalho do ponto de vista técnico, conduzindo sua câmera goddardiana com inteligência narrativa ao sabor de uma trama que mistura relações afetivas amorosas e familiares, uma boa dose de tensão e suspense e, claro, muita violência. Mas não de uma forma gratuita e banal. Yes, nós também sabemos fazer filmes de ação.