RIO DE JANEIRO, RJ (FOLHAPRESS)
“Negro Samba Lírico” expressão que batiza o segundo álbum de Vidal Assis, dedicado à obra de seu parceiro e mestre Elton Medeiros define uma linhagem que o cantor identificou na história da música brasileira.
Um samba delicado, consolidado por compositores como Elton, morto em 2019, e Cartola, seguido por pupilos como Paulinho da Viola que participa do disco, assim como seus colegas de geração Chico Buarque, Cristóvão Bastos, João Bosco, além dos mais jovens Ayrton Montarroyos e Beatriz Rabello.
O conceito, que ele começava a desenhar, ganhou materialidade numa conversa de Vidal com Hermínio Bello de Carvalho, seu amigo e também cultor do samba lírico. “Ele me mostrou um anel que estava usando: Foi o Cartola que me deu. E o anel trazia a imagem de uma lira. Era o que eu precisava ouvir”, lembra o cantor.
“Fiquei pensando que esse lirismo que tem Cartola como pioneiro, segue em Paulinho, chega em Arlindo Cruz, Luiz Carlos da Vila, Mauro Diniz e mesmo no pagode dos anos 1990, em canções como Farol das estrelas, do Belo.”
Em seu nome, “Negro Samba Lírico” carrega, para além do lirismo, a negritude. Professor de biologia, Vidal mergulhou no tema de maneira sistemática a partir do doutorado, quando estudou a subjetividade de pessoas negras, mais especificamente professores e professoras.
“Minha pergunta central era: no que esses professores se agarravam para se manter vivos e atuantes dentro de um sistema racializado como o nosso?”, conta Vidal. “Entendi que eles se agarravam nas memórias que tinham de outros professores e professoras negras que tiveram. Esse estudo me colocou em contato com autoras e autores fundamentais, como bell hooks, Frantz Fanon, Lélia Gonzalez, Grada Kilomba, Silvio Almeida, Sueli Carneiro. Entendi que essa noção de lirismo tem uma cor. Cartola, que foi o patrono dessa linhagem, foi um negro que nasceu em 1908, colado no pós-Abolição.”
A reflexão atravessa o disco como um eixo silencioso. Vidal afirma que o lirismo, para um artista negro, não é um luxo é um gesto político. “O negro estar no lugar da delicadeza é algo revolucionário”, afirma.
“Num país que nos associa o tempo todo ao trabalho pesado, à força, à violência, onde o negro foi historicamente desumanizado, animalizado, poder afirmar a sutileza e o afeto é dizer que o amor, o cuidado, o sonho não são territórios proibidos para nós”.
Essa visão aparece de modo explícito na participação da deputada federal Talíria Petrone, do PSOL do Rio de Janeiro, no clipe de “Mascarada”. “Chamei Talíria não para falar da luta que ela exerce no Congresso, mas como uma mulher negra pra representar comigo uma cena de amor e delicadeza”, diz Vidal.
“Isso reforça o compromisso do Negro Samba Lírico em colocar o negro nesse lugar. E mais, ao chamar uma mulher negra, eu também penso que o samba, inclusive essa linhagem, por mais que seja sensível, ainda deve muito em relação à equidade de gênero.”
O repertório do álbum articula, portanto, delicadeza e tensões históricas. Em meio a clássicos de Elton como “O Sol Nascerá”, “Onde a Dor Não Tem Razão”, “Mascarada”, “Moemá Morenou”, surgem inéditas que ampliam a conversa. “Um Amor Singular”, parceria do compositor com Vidal e Ronaldo Bastos, devolve ao lirismo sua limpidez mais direta.
Em “Colhendo Imagens”, de Elton e Vidal, o pupilo faz uma referência sutil à perda progressiva de visão do mestre nos últimos anos, nos versos “mas é na noite também que ainda choro por ela/ dissolvendo as imagens que um dia eu guardei no olhar”. A dupla assina ainda “Iluminada” e, com Cristóvão Bastos, “Baile dos Amores”.
A clássica “Maioria sem Nenhum”, samba de Mauro Duarte e Elton, também ganha algo de inédita. Vidal insere no meio da canção um rap de sua autoria, escrito para o disco, onde diz: “Defendo a lógica da ação afirmativa/ a taxação real dos super-abastados/ e o fim da escala 6×1 tão exaustiva”.
“Os versos de Maioria sem Nenhum são muito bonitos, o lirismo está ali também”, diz Vidal. “Mas há um olhar mais incisivo para o contexto socio-histórico em que a maioria da população brasileira está inserida. Sou adepto da ideia de que presente, passado e futuro estão muito misturados. Não vejo esse samba dissociado do que Emicida, Bia Ferreira ou Mano Brown escrevem.”
Na base instrumental, o Trio Julio Marlon, Magno e Maycon firma o chão sobre o qual o lirismo caminha. Os três trabalham há anos explorando a zona de encontro entre tradição e refinamento, mas neste disco parecem alcançar outro grau de concisão. O violão, o cavaquinho e a percussão se encaixam no canto de Vidal.
“Fizemos os arranjos a oito mãos. Eu chegava com ideias iniciais, as harmonias, e eles traziam a informação deles, da escola do choro, que tem tudo a ver com Elton. Acendi a centelha, e eles jogaram querosene”, brinca o cantor.
Ao falar do disco, Vidal retorna sempre a Elton. Ele lembra, por exemplo, o dia em que, depois da festa de 89 anos do compositor, decidiu parar com o mestre, já cego, no bar Bip Bip, tradicional reduto do samba de Copacabana.
“Estacionei em frente ao bar e deixei Elton no carro esperando. Fui chamar o Alfredo [dono do bar e amigo de Elton], mas ele não estava. Falei: Poxa, que pena, queria que o Elton falasse com ele, ele está ali no carro. Quando eu fui voltando, todos os músicos levantaram com seus instrumentos e vieram cantando Pressentimento em cortejo atrás de mim. Eles rodearam o carro e começaram a cantar pro Elton. Olha só que coisa bonita. Foi o último presente que o Elton recebeu em vida”, conta Vidal, que no disco revive, a seu modo, a gratidão e a devoção íntima daquela noite.
NEGRO SAMBA LÍRICO – VIDAL ASSIS CANTA ELTON MEDEIROS
- Autoria Vidal Assis
- Gravadora Kuarup