Leonardo Sanchez
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS)
Com pouco mais de uma hora de atraso, drones tomaram o céu sobre a praia de Copacabana na noite deste sábado (2), se entrelaçando até formar a silhueta de uma loba –num uivo, suas luzes invocaram Shakira, a mais latina das divas.
Num macacão de brilhantes nas cores verde, amarela e azul, a colombiana enfim surgiu no palco para começar seu megashow, ovacionada. “Shakira! Shakira!”, ouvia-se da plateia, que até então estava impaciente com a demora.
Perdoada, Shakira pôs os primeiros acordes de “La Fuerte” para ecoar nos ouvidos dos 2 milhões de fãs estimados pela Prefeitura do Rio. “Boa noite, Rio”, gritou logo de cara, emendando a abertura na mais animada “Girl Like Me”.
“Las de la Intuición” antecipou um dos maiores hits de sua carreira, “Estoy Aquí”, antecedida por uma saraivada de fogos e acompanhada com vigor, em seu refrão icônico, pelo público ali presente.
“Olá, Brasil! Como vocês estão, gente? Eu não posso acreditar que estou aqui com vocês”, disse Shakira, reiterando que é apaixonada pelo brasileiro. “Olha isso, olha isso!”, afirmou eufórica, sem esconder o deslumbramento de se apresentar num palco tão grande e tão diverso quanto as areias da praia do Rio de Janeiro.
Contrariou o que fizeram as antecessoras Lady Gaga e Madonna, que interagiram com o público protocolarmente. “Não existe melhor coisa pra mim do que quando uma lobinha que nem eu se encontra com sua alcateia brasileira. Hoje e sempre, somos um”, disse sobre o apelido que ganhou entre seus fãs.
“Empire” lhe permitiu dar vazão aos ares roqueiros, mesmo que abreviada. Os acordes iniciais emendaram em “Inolvidable” e, empunhando a guitarra, Shakira fez um dueto com o público.
“Te Felicito” foi apresentada após um enlace romântico com um robô humanoide. Enquanto rebolava sobre o parceiro artificial, ela expurgava as frustrações de seu casamento com o ex-jogador de futebol Gerard Piqué. “Eu te parabenizo por atuar tão bem”, dizia ela num dos vários momentos de desabafo de seu último disco, que também batiza a turnê, “Las Mujeres Ya No Lloran”.
“A vida tem formas de recompensar a gente. Vocês sabem que a minha vida não tem sido a mais fácil ultimamente, mas das quedas ninguém se salva. O que sei é que nós, as mulheres, cada vez que caímos nos levantamos um pouco mais sábias, mais fortes, mais resilientes. Porque as mulheres já não choram. Por isso, esse show vai ser dedicado a nós”, disse.
Ao longo de todo o show, Shakira reforçou o tom feminista de sua turnê mais recente, ampliando o escopo das apresentações de Gaga e Madonna, mais voltadas ao seu fiel público LGBTQIA+ –que também esteve em Copacabana, mas que neste sábado não era o centro das atenções.
“Don’t Bother”, “Acróstico” e “Copa Vacía” seguiram. O copo vazio terminou encharcando o palco com a projeção de uma inundação, que mergulhou o show em sua parte mais morna. “La Bicicleta” e “La Tortura” vieram em seguida.
Shakira então mostrou o gingado para cantar o hit mais icônico de sua carreira, “Hips Don’t Lie”. Os quadris realmente não mentem, e Shakira fez dessa porção a mais dançante do show. Se Madonna e Gaga se ancoravam na estranheza e na teatralidade de suas performances, Shakira optou com uma apresentação mais pessoal e crua.
A colombiana desfilou pelo palco –maior que os das americanas– com os pés descalços e furiosos, capturando o foco da câmera com seus quadris malemolentes e o carisma habitual, que deixava transparecer a alegria de estar ali.
“Chantaje” foi cantada dos bastidores, enquanto uma câmera a flagrava em mais uma das várias trocas de roupa da noite, quase sempre destacando as cores da bandeira brasileira.
Shakira abraçou sua latinidade, aumentando a voltagem colombiana da canção com passos acelerados que retomavam a cúmbia, lembrando a todos ali que muito antes de o mercado fonográfico se interessar por este lado da América, a cantora abria caminhos num cenário hostil para quem não tinha o inglês como língua materna.
Depois de “Loca”, ela mandou um recado para as mães solo do Brasil –são 20 milhões, lembrou. “Eu sou uma delas”, brincou a mãe de Sasha e Milan, filhos que teve com Piqué. “Soltera” foi então entoada com vigor.
Anitta surgiu na sequência com “Choka Choka”, faixa recém-lançada. “Obrigada, linda, eu te amo”, disse a dona da noite. “Quem ama a Shaki dá um grito. Isso é um presente, você merece tudo isso, você é maravilhosa”, respondeu a carioca.
“Can’t Remember to Forget You”, sua parceria com Rihanna, antecedeu sua famosa dança do ventre. “Ojos Así”, “Pies Descalzos, Sueños Blancos” e “Antología” vieram. “Obrigada, Brasil, por todo o carinho que recebi de vocês nos últimos 30 anos. Uma vida inteira”, disse, sempre no português.
A renovação dos votos de amor com o Brasil veio acompanhada de outras participações especiais. “Não posso acreditar, sou sua fã”, disse Shakira ao “mestre” Caetano Veloso, depois de chamá-lo ao palco.
Emocionada, disse cantar sempre “Leãozinho” para os filhos, e dividiu a canção com o brasileiro. Depois foi a vez de cantar “O Que É o Que É?” com Maria Bethânia, em passos de samba acompanhados da bateria da Unidos da Tijuca.
Foi o auge absoluto de um show que pode ter parecido distante para a massa que lotou as areias em sua primeira parte, mais voltada aos fãs de longa data. Foi ao deixar a setlist previamente conhecida, porém, que Shakira encantou o brasileiro e se deixou encantar novamente por ele.
É até estranho pensar que a colombiana parecia mais à vontade ao fugir do protocolo e abraçar a espontaneidade com a qual conduziu os duetos com artistas nacionais. Depois de “Objection (Tango)”, veio ainda Ivete Sangalo.
Com passinhos e figurinos sincronizados, elas dividiram o microfone com “País Tropical”. A colombiana estava à vontade, num país que sempre lhe abriu os braços e num “Carnaval de Shakira”, como disse Ivete.
“Whenever, Wherever” a pôs de volta nos trilhos da turnê internacional, com a energia nas alturas. “Waka Waka”, então, deu um falso final apoteótico ao evento, com Shakira compartilhando o palco com dançarinos do Complexo da Maré.
Ela saiu, mas logo voltou com seu manifesto das lobas, como chama os ensinamentos feministas repetidos a cada show desta era. “She Wolf” e “Bzrp Music Sessions, Vol. 53/66”, seu grito de liberdade feminista, encerraram a noite lá no alto, num terceiro ato catártico e envolvente.
“Eu jamais vou esquecer essa noite. Obrigada, Brasil”, disse a mais brasileira das divas internacionais da música, encerrando um espetáculo de duas horas com a sensação de que faltou coisa –às vezes esquecemos, mas Shakira é uma verdadeira máquina de hits.
Nem todos couberam em Copacabana, mas os que apareceram fizeram uma bela defesa do talento e do poder estelar que a cantora mantém há mais de três décadas.