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Música

Ceilândia como epicentro: Crizostmo transforma território em estética no EP “Alvoroço”

No aniversário da maior região administrativa do DF, artista reafirma origem como força criativa e política em trabalho autêntico

Alexya Lemos

27/03/2026 5h00

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Foto: Divulgação

No aniversário de Ceilândia, celebrado nesta sexta-feira (27), a trajetória de Crizostmo ganha contornos ainda mais simbólicos. Nascido e criado na região, o artista brasiliense transforma o território em eixo central de sua produção e apresenta, no EP Alvoroço, um projeto que articula música, imagem e conceito como expressão de pertencimento e afirmação cultural.

Lançado no início do mês, o trabalho reúne seis faixas inéditas e marca um momento de consolidação na carreira do cantor, compositor e artista visual. Quatro anos após o primeiro projeto, Criatura (2022), o novo EP se estrutura como um manifesto estético que desloca a periferia do lugar de margem para o centro da criação contemporânea. A obra se ancora na ideia de um Brasil plural, onde referências populares e experimentais coexistem sem hierarquia.

“Crescer em Ceilândia, sendo filho de pai baiano e mãe goiana, significa que os ritmos regionais sempre foram trilha sonora natural da minha vida, sempre escutando o que toca na rua e em casa. Para amarrar toda essa mistura no Alvoroço, me guiei pelo que chamo de ‘Ritual Moderno’, que é a forma que chamo as misturas que faço, embalando os ritmos de terreiro com o pop.”

No campo sonoro, Alvoroço propõe uma fusão entre electro pop e ritmos brasileiros como MPB, baião, samba e funk. A mistura é organizada a partir do “Ritual Moderno”. A proposta se estende também à dimensão espiritual e estética do projeto, que dialoga com matrizes afro-brasileiras e com a construção de uma identidade musical própria.

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Foto: Divulgação

“A Ceilândia nunca foi apenas um pano de fundo para o meu trabalho, ela é a matriz de tudo o que eu crio. Foi aqui que eu entendi estética, cultura e movimento. O território molda a minha identidade de forma absoluta porque me ensinou a observar a potência e a vanguarda onde o sistema costuma ver apenas carência.”

A dimensão territorial não aparece apenas como referência, mas como estrutura narrativa do EP. A Ceilândia é apresentada como espaço de invenção, resistência e vanguarda, rompendo com estigmas históricos associados à periferia. Nesse sentido, o trabalho desloca o olhar sobre o Distrito Federal e propõe uma leitura mais complexa de suas dinâmicas culturais.

A construção sonora do EP também reflete um processo de escuta e assimilação de referências diversas, que atravessam tanto a música contemporânea brasileira quanto tradições ancestrais. A espiritualidade, especialmente ligada às religiões de matriz africana, aparece como elemento estruturante da criação artística.

“Eu passo muito tempo escutando várias músicas e isso vai costurando minhas referências. Agora mesmo não sai da minha playlist Liniker, Marina Sena e Elza Soares. Os movimentos afro-culturais também foram e são importantes na minha construção sonora, sou de Candomblé, então ritmos ancestrais me trazem para perto do meu eu artista, influenciando nas sonoridades e estética.”

Além da sonoridade, Alvoroço se apresenta como obra conceitual. O projeto toma como base o Arcano 0 do Tarot, O Louco, reinterpretado a partir de uma perspectiva brasileira e periférica. A imagem tradicional do salto no vazio é deslocada para o cotidiano urbano da Ceilândia, sintetizando a ideia de risco e reinvenção que atravessa o trabalho.

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Foto: Divulgação

“A maior mudança foi a maturidade e a intenção. O Criatura foi o projeto que abriu as portas para mim. Era uma fase em que eu ainda estava experimentando, testando possibilidades e entendendo o meu som, ainda sob o nome de Ryck. Com o Alvoroço, o processo foi completamente diferente. Estágio muito mais maduro, me entendendo de fato como artista e em um período em que eu já sabia o que funcionava ou não para mim.”

O amadurecimento artístico também se reflete na forma como o artista se posiciona politicamente. Em Alvoroço, a criação é indissociável de uma perspectiva de afirmação identitária e de enfrentamento das estruturas que historicamente marginalizam artistas periféricos. “O que eu faço e sou é político. Ser O Louco no Brasil, como artista independente e periférico, é ter a audácia de se atirar para o abismo sem rede de proteção, confiando apenas no próprio instinto e na nossa espiritualidade. É ter a coragem de causar um tumulto na própria existência.”

“A capa do álbum comunica que a nossa riqueza está no que é nosso e na força da nossa latinidade. O céu que cobre a obra também não é o de fora, é o céu do Centro-Oeste, é o céu de Ceilândia. Tudo isso traduz um Brasil de pessoas que calçam a simplicidade, mas que transformam o cotidiano em realeza. Nós estamos em um momento em que precisamos afirmar que somos latinos com muito orgulho.”

Ao chegar às plataformas digitais no mês em que Ceilândia celebra 55 anos de história, Alvoroço se insere como um gesto artístico que extrapola o campo musical. O EP reafirma o território como centro de produção simbólica e projeta a região como protagonista na construção de novas narrativas para o pop brasileiro.

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