Nascida no fim dos anos 1950, a Bossa Nova transformou a música popular brasileira ao propor uma nova estética sonora, marcada pela sofisticação harmônica, pelo balanço contido e por uma forma intimista de cantar. Mais do que um gênero musical, tornou-se uma linguagem e um símbolo de modernidade. Em Brasília, essa identidade encontrou espaço desde a fundação da capital.
Para compreender a presença da Bossa Nova no Distrito Federal, é preciso voltar ao projeto político liderado por Juscelino Kubitschek. Apelidado de “Presidente Bossa Nova”, JK incorporava ao seu governo o mesmo espírito que o gênero musical representava: otimismo, sofisticação e confiança no futuro. Brasília e a Bossa Nova nasceram praticamente juntas e passaram a simbolizar um mesmo ideal de país moderno.
Enquanto Oscar Niemeyer e Lúcio Costa desenhavam uma cidade com linhas horizontais verticais e funcionais, Tom Jobim e João Gilberto criavam uma estética musical, essa relação simbólica ficou eternizada na obra Brasília: Sinfonia da Alvorada, encomendada por JK a Tom Jobim e Vinicius de Moraes para a inauguração da capital. A composição uniu música erudita e elementos da Bossa Nova, consolidando o gênero como trilha sonora do nascimento de Brasília.
Com o crescimento da cidade, a Bossa Nova deixou de ser apenas herança histórica e passou a se reorganizar em núcleos de preservação e difusão cultural. Mais de seis décadas após seu surgimento, o gênero segue vivo em Brasília, sustentado por músicos, projetos culturais e espaços que mantêm o repertório em circulação constante.
Um dos principais vetores dessa continuidade é o Clube da Bossa Nova aqui no Distrito Federal, criado na virada dos anos 1990 para os 2000. A produtora Marizan Fontinele explica que o projeto nasceu da percepção de que não existia um espaço dedicado exclusivamente ao gênero, nem mesmo em seu berço original, o Rio de Janeiro. Idealizado por Dickran Berberian, engenheiro civil e entusiasta da Bossa Nova, o clube encontrou em Brasília um público atento e uma cena musical propícia.
Desde a fundação, o clube nunca teve sede fixa. Os encontros aconteceram em espaços parceiros, como a antiga Livraria Musimed, na 504 Sul, onde músicos da capital se reuniam de forma espontânea, sem fins lucrativos, apenas pelo prazer de tocar e cantar Bossa Nova. Com o crescimento do público, o projeto passou a ocupar palcos maiores, principalmente com o apoio do Sesc, o que permitiu apresentações em formato de teatro.
Segundo Marizan, a ausência de um espaço próprio nunca foi uma escolha estratégica, mas reflexo das dificuldades de financiamento contínuo. Ainda assim, o clube se consolidou como referência nacional, recebendo artistas centrais da história da Bossa Nova, como Roberto Menescal, Carlos Lyra, Leny Andrade, Quarteto do Rio e Jaques Morelenbaum. Paralelamente, manteve o compromisso com a formação de público e a revelação de novos talentos.

Atualmente, os encontros do Clube da Bossa Nova acontecem na Casa Thomas Jefferson, após o encerramento da parceria com o Sesc em 2019. A programação ocorre com menor frequência do que o desejado, em razão de limitações financeiras, mas a expectativa é de retomada ainda neste ano. Para Marizan, o papel do clube é preservar a memória musical brasileira sem perder de vista a continuidade, aproximando novas gerações de um repertório que ultrapassa fronteiras.
Nesse cenário, Márcia Tauil se consolida como uma das principais vozes da Bossa Nova em Brasília. Cantora de MPB com trajetória reconhecida, ela reúne técnica vocal e interpretativa alinhadas aos fundamentos do gênero. Para Márcia, há um risco real da Bossa ser tratada apenas como patrimônio histórico. “Quando o gênero musical é citado como algo que precisa ser protegido, corre-se o perigo de transformar sua essência em museu”, afirma. “A Bossa é um organismo vivo. Ela nasceu entre jovens que buscavam novas formas de sentir e cantar, e essa energia ainda pode, e deve, pulsar até hoje.”

Ela defende que o equilíbrio entre preservação e liberdade criativa passa pelo respeito às raízes. “É aprender os clássicos, estudá-los e permitir que o novo caminhe em harmonia com eles”, diz. No palco, Márcia observa mudanças na relação do público com o gênero e lembra que, se antes a escuta era mais contemplativa, hoje há busca por narrativa e proximidade. Ainda assim, para ela, “a conversa entre intérprete e ouvinte continua sendo o centro da Bossa Nova”.
Essa vitalidade também se manifesta na trajetória de Juninho di Sousa, músico brasiliense que transita por diferentes estilos e encontra na Bossa Nova uma base formadora. A relação dele com o gênero começou ainda nos anos 1990, a partir dos estudos de improvisação no jazz. “Nos meus estudos de improvisação junto com amigos músicos, a gente descobriu que as harmonias da Bossa Nova eram muito próximas dos standards de jazz”, relata. A partir dessa aproximação, o grupo passou a estudar o gênero de forma mais aprofundada. “Foi daí pra frente que começamos a improvisar tocando Tom Jobim, João Gilberto, Roberto Menescal, Johnny Alf, João Donato, entre vários outros gênios da música brasileira.”
Mesmo transitando por diferentes linguagens musicais, Juninho afirma que a Bossa Nova segue como referência permanente em seu trabalho. “A Bossa Nova é referência para estudo de harmonia, ritmo e poesia no mundo inteiro, e comigo não foi diferente”, afirma. Segundo ele, essa influência aparece de forma orgânica em sua produção atual. “Na música que faço hoje, a Bossa Nova está sempre presente, seja na rítmica, seja no jeito de harmonizar as melodias.”
Ao comparar a Bossa Nova com outros gêneros brasileiros, Juninho reconhece a identidade própria de cada estilo, mas destaca a liberdade interpretativa como traço singular do movimento. “Cada gênero tem sua forma marcante de harmonização, mas na Bossa Nova posso destacar uma interpretação mais livre”, avalia.
Sobre o cenário musical do Distrito Federal, o músico enxerga espaço contínuo para o gênero. “Brasília sempre foi uma cidade muito eclética, e essa mistura influencia diretamente a forma como a gente interpreta diferentes estilos”, observa. Para ele, assim como o jazz, a Bossa Nova segue presente, ainda que diluída em novas sonoridades. “Esses estilos sempre vão ter espaço e vão continuar aparecendo, de alguma forma, tanto nos palcos quanto nos estudos de música.”
Nos shows, a resposta do público brasiliense é imediata. “O público adora Bossa Nova”, resume. Juninho também discorda da ideia de que o gênero pertença apenas ao passado. “É um gênero que marcou a música brasileira no mundo e pode, sim, ser reinventado pela nova geração”, defende, destacando que o principal desafio está no estímulo e no acesso dos jovens a essa linguagem.
Entre as obras que considera essenciais, o músico cita Disa, pela riqueza harmônica, e reforça a importância de datas como o Dia Nacional da Bossa Nova. “É importante e necessário ter esse momento para reverenciar um gênero tão marcante, que levou a música brasileira a ser reconhecida no mundo”, afirma. Ao definir o que a Bossa Nova representa em sua trajetória, escolhe uma palavra simples: “Gratidão, pela riqueza dos sons e por tudo o que esse gênero ensinou à música.”
Entre memória e reinvenção, Brasília se afirma como território ativo da Bossa Nova. Nos palcos, nos clubes, nas escolas de música e nas trajetórias de artistas que mantêm o gênero em circulação, a capital preserva a trilha sonora de seu nascimento e projeta a Bossa Nova para o futuro.