FOLHAPRESS
No livro “Such Great Heights”, lançado no ano passado, ainda sem tradução em português, o jornalista Chris DeVille conta a história do “indie” -que surgiu como indie rock, no final dos anos 1980, mas passou a significar qualquer tipo de som que caísse no gosto de um público específico.
Foi o que aconteceu com o hip-hop na década de 2010, quando ídolos que faziam uma ponte entre o mundo do rap tradicional e gêneros alternativos passaram a agradar adolescentes que antes só davam ouvidos a guitarras, blogueiros que formavam opiniões na internet e jornalistas de veículos como Pitchfork e Stereogum. Foi assim que rappers como Tyler, the Creator e M.I.A. se tornaram ícones indies -tanto quanto bandas alternativas como Pavement e Wilco foram décadas antes.
Nessa mesma toada surgiu de Nova York o rapper A$AP Rocky. Com seu primeiro lançamento, “Live.Love.A$AP”, de 2011, sua estética psicodélica e vertiginosa foi rapidamente adotada pelos jovens descolados on-line, e Rocky se tornou um dos mais populares rappers de sua geração.
Agora, há duas semanas, ele lançou seu quinto álbum de estúdio, “Don’t Be Dumb”, que reflete a fusão de gêneros e ecletismo que é, hoje, característica da música pop.
Se a esposa de Rocky -Rihanna, cujo álbum mais recente, “Anti”, completou dez anos nesta semana- parece ter deixado a música em segundo plano, o próprio rapper também passou bastante tempo sem novos lançamentos.
Seu disco mais recente era “Testing”, de 2018, que não foi muito bem recebido por público e crítica. No ano em que o hip-hop, pela primeira vez, passou o country como gênero mais ouvido nos Estados Unidos, a competição de Rocky foi grande e o rapper acabou sendo ofuscado por lançamentos mais falados, como “Astroworld” de Travis Scott e o punhado de álbuns que Kanye West produziu naquele ano, para si próprio e para Pusha T e Nas.
O primeiro sinal de uma volta definitiva, após diversos singles soltos, foi “Punk Rocky”, lançada na primeira semana do ano. É o tipo de faixa que soaria totalmente fora do lugar se tivesse sido lançada por um rapper há 15, 20 anos. Mas Rocky tira vantagem de estar em 2026 e, com uma faixa que poderia ter sido composta pelos ícones do rock lo-fi Ariel Pink ou Mac DeMarco, marcou o início de sua nova era.
Quem acreditou que “Don’t Be Dumb” seria composto somente de baladas indie, porém, se enganou. Apesar de ser de Nova York, a maior influência de Rocky sempre foi o rap do sul dos Estados Unidos, em especial o trabalho do rapper e produtor Juicy J. Essa admiração aparece logo na primeira faixa, “Order of Protection”, e no segundo single do álbum, “Helicopter”.
Rocky também deixa claro que esteve por dentro das tendências que rolaram no hip-hop americano durante seu hiato, evocando o rap agressivo e rápido de Playboi Carti e Yeat ao longo do disco, além de convidar novos nomes para complementá-lo –a Doechii, em especial, faz uma participação teatral e preciosa em “Robbery”. A abordagem mais direta é bem-vinda para o rapper, que talvez tenha ficado um pouco dormente demais em suas inclinações psicodélicas em álbuns como “At.Long.Last.A$AP”, de 2015.
Quanto mais Rocky se arrisca, mais interessante a tracklist fica. “Don’t Be Dumb” tem pouco mais de uma hora, mas é difícil ficar entediado. Em “STFU”, ele rima por cima de uma batida que poderia ter sido feita pela dupla francesa eletrônica Justice; em “The End”, ele divide os vocais com Will.I.Am, do Black Eyed Peas, e permite que a compositora Jessica Pratt termine a faixa com sua voz e violão suaves.
Há quem soe fora do lugar com tanta variação estilística. Até no reggaeton Rocky se arrisca, na faixa bônus “Flackito Jodye”, em parceria com a espanhola Tokischa. Mas a voz carismática e as rimas diretas do rapper fazem com que o álbum soe coeso, e a seleção de produtores -que vão de Hit-Boy a Thundercat, passando pelo próprio Rocky- garante que você não ouça uma única batida mais ou menos.
O embaralhamento entre o pop, o hip-hop, o rock e o mundo alternativo parece ter ficado mais acentuado nos últimos anos -é difícil imaginar álbuns como “Let’s Start Here”, de 2023, a aventura psicodélica do trapper Lil Yachty, ou “Stardust”, de 2025, disco de Danny Brown inspirado pelo pop maximalista, existindo décadas atrás. “Don’t Be Dumb” acaba de se juntar a essa lista como um disco de sua época, que faz o melhor uso possível de todos os artifícios estéticos a seu alcance.