Lúcio Flávio
Especial para o Jornal de Brasília
Lançado em vinil, Passagem Secreta, da banda brasiliense Pierrot Lunar, foi recebido com entusiasmo pelos fãs e imprensa especializada. Quem tiver o cuidado e sensibilidade para escutar o álbum vai tomar um susto diante do nível de inteligência criativa dos arranjos contidos nas 14 faixas do álbum. Um disco para poucos, mas que deve ser ouvido por todos.
Criada no início dos anos 2000, dentro de uma confabulação entre amigos que tinham como afinidades uma mistura inusitada, inteligente e sensível de rock, pop, jazz e MPB, o Pierrot Lunar gravaria nos idos de 2003 o EP Disco Perdido, o embrião da sonoridade da banda formada pelo letrista Gustavo T., nos vocais e na guitarra; Mateus Baeta, no baixo; Bruno Sres, na guitarra, teclado e synth; e Bruno Rocha, na bateria.
Um sopro de lampejo experimental que se perdeu no tempo, o trabalho, bastante original, deixou rastros. Rastros esses que encontraram seu caminho dez anos depois com a gravação de Passagem Secreta. “Tínhamos muitas músicas, mas fomos um tanto indisciplinados. Somos lentos”, justifica o líder e letrista Gustavo T., explicando o hiato de uma década. “É bom ser pequeno e livre”, diz enigmático.
Lado obscuro
As referências musicais do grupo são muitas. Vão dos marginais Jards Macalé e Itamar Assumpção, passando por Milton Nascimento e o Clube da Esquina, até nomes do rock e do samba como Velvet Underground, The Cure, Nelson Cavaquinho e Nei Lopes. A banda paulista Fellini, presença constante, é a grande influência de Gustavo T. como letrista.
“Gustavo é o ponto de convergência. Ele teve a sensibilidade quase clarividente de enxergar que essas inclinações distintas poderiam ser complementares”, comenta o baixista Mateus Baeta. “Temos muitas referências, mas duas frentes de influência foram fundamentais: o canto falado do Gustavo, algumas vezes desconfortável para ouvidos não acostumados, e o trabalho de produção”, diz, referindo-se ao produtor Gustavo Bill.
O nome Pierrot Lunar surgiu da confluência de vários nomes e simbologias. Os integrantes da banda citam desde audições de clássicos como Luz Negra, de Nelson Cavaquinho – numa versão de Cazuza –, ao samba dark Meu Ego, gravado por Nara Leão e Erasmo Carlos. “Tive a percepção de que a MPB tinha um lado obscuro, lunar, com regras próprias. Cismei com pierrot porque tinha teatralidade”, revela o letrista Gustavo T.