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Viva

Mistura que deu certo na música

Arquivo Geral

09/04/2014 7h30

Lúcio Flávio

Especial para o Jornal de Brasília

Lançado em vinil, Passagem Secreta, da banda brasiliense Pierrot Lunar, foi recebido com entusiasmo pelos fãs e imprensa especializada. Quem tiver o cuidado e sensibilidade para escutar o álbum vai tomar um susto diante do nível de inteligência criativa dos arranjos contidos nas 14 faixas do álbum. Um disco para poucos, mas que deve ser ouvido por todos.

Criada no início dos anos 2000, dentro de uma confabulação entre amigos que tinham como afinidades uma mistura inusitada, inteligente e sensível de rock, pop, jazz e MPB, o Pierrot Lunar gravaria nos idos de 2003 o EP Disco Perdido, o embrião da sonoridade da banda formada pelo letrista Gustavo T., nos vocais e na guitarra; Mateus Baeta, no baixo; Bruno Sres, na guitarra, teclado e synth; e Bruno Rocha, na bateria.

Um sopro de lampejo experimental que se perdeu no tempo, o trabalho, bastante original, deixou rastros. Rastros esses que encontraram seu caminho dez anos depois com a gravação de Passagem Secreta. “Tínhamos muitas músicas, mas fomos um tanto indisciplinados. Somos lentos”, justifica o líder e letrista Gustavo T., explicando o hiato de uma década. “É bom ser pequeno e livre”, diz enigmático. 

Lado obscuro

As referências musicais do grupo são muitas. Vão dos marginais Jards Macalé e Itamar Assumpção, passando por Milton Nascimento e o Clube da Esquina, até nomes do rock e do samba como Velvet Underground, The Cure, Nelson Cavaquinho e Nei Lopes. A banda paulista Fellini, presença constante, é a grande influência de Gustavo T. como letrista.

“Gustavo é o ponto de convergência. Ele teve a sensibilidade quase clarividente de enxergar que essas inclinações distintas poderiam ser complementares”, comenta o baixista Mateus Baeta. “Temos muitas referências, mas duas frentes de influência foram fundamentais: o canto falado do Gustavo, algumas vezes desconfortável para ouvidos não acostumados, e o trabalho de produção”, diz, referindo-se ao produtor Gustavo Bill.

O nome Pierrot Lunar surgiu da confluência de vários nomes e simbologias. Os integrantes da banda citam desde audições de clássicos como Luz Negra, de Nelson Cavaquinho – numa versão de Cazuza –, ao samba dark Meu Ego, gravado por Nara Leão e Erasmo Carlos. “Tive a percepção de que a MPB tinha um lado obscuro, lunar, com regras próprias. Cismei com pierrot porque tinha teatralidade”, revela o letrista Gustavo T.

Malemolência e pitadas experimentais
Com trabalho de capa assinado pela artista plástica Clarice Gonçalves, Passagem Secreta tem como diferencial a sofisticada diversidade cultural dos integrantes do Pierrot Lunar.
O intimismo minimalista do folk instrumental Lusco-Fusco, norteado pela gaita emotiva de Fernando Brito, é um dos momentos mais emocionantes do trabalho, assim como a malemolência do samba Três ou Quatro (Aventuras Cotidianas), com sua letra bossa-novista.
A engenhosa construção da linha de baixo é perceptível em canções como Melodrama e Torrencial. Mais ainda diante do experimentalismo maneiro de Granada – que conta com samples de trechos do filme francês de Jean-Luc Godard, Pierrot le Fou (1967). Mas aí vem a eloquência penetrante de Da Noite, poema musicado de Hilda Hilst, que é de longe o melhor registro do álbum.
 
Serviço
Passagem Secreta
Artista:  Pierrot Lunar
Gravadora:  Independente
Faixas:  14
Preço médio do LP:  R$ 40
À venda na Cultura do Iguatemi (Lago Norte), na Dom Pedro Discos (412 Norte) e na Musical Center (215 Norte).
 

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