Lúcio Flávio
Especial para o Jornal de Brasília
Era início de 1962. Guitarra atravessada no ombro, um menino cruza a rua em direção a uma casa. De repente, pela porta da frente sai uma jovem loura bonita com lágrimas nos olhos. Ao ver o rapaz e sua case, ela se recompõe fulminando:
– Você vai para casa de Roger? – Ao receber um sim como resposta, continua: – Pode dizer para ele que sou eu ou aquela maldita guitarra. Ao ouvir o recado, o dono da casa nem se abala: – Ela que se dane. Entre.
E assim nasceria uma das bandas mais importantes do rock, o The Who. Quem conta a história com ares de folclore é o guitarrista Pete Townshend, em autobiografia lançada recentemente pela editora Globo (R$ 49,90). No princípio, eles ainda se chamavam The Detours, engatinhando os primeiros passos rumo ao estrelato na quente cena londrina de outrora.
“Em 1963, os rumores sobre os Stones tinham se tornado lenda e não havia nenhuma dúvida de que – além dos Beatles – essa era a banda a que devíamos assistir”, rebobina no tempo Townshend, explicando como o sucesso repentino de Mick Jagger e companhia mostrou que eles estavam no caminho certo.
A importância e o legado da banda são imensuráveis e resvala em subgêneros como o heavy metal e o punk rock. Pixies, Supergrass, Flaming Lips, Nivarna, Pearl Jam, Oasis e Blur estão entre as bandas que admitiram influência do The Who. Sincero e direto, o guitarrista abre o jogo com os fãs e recheia seus 50 anos de história no rock com revelações surpreendentes.
Ao longo de quase 500 páginas, fala abertamente do suposto abuso sexual sofrido na infância – vítima de um dos amantes da bizarra avó Denny –, da sua condição de bissexual, da evolução como guitar man, além de contextualizar o The Who no cenário roqueiro das décadas de 1960 e 1970, declarando que os Kinks e Jimi Hendrix, ao lado dos Stones, foram uma influência primordial.
Revela também como fantasmas e demônios dos primeiros anos de vida o ajudaram a escrever o disco conceitual Tommy, ópera-rock que é a menina dos olhos do artista britânico de 68 anos.
“Dei um salto enorme para o absurdo ao decidir que o herói jogaria pinball sendo surdo, mudo e cego. Isso era bobo, tosco e confuso, mas também insolente, libertário e aventureiro”, confessa no livro em tom de auto-avaliação.