Em Marty Supreme que chega às telonas nesta quinta-feira (22), Josh Safdie transforma o filme esportivo em um teste de resistência emocional. Não apenas para o personagem, mas para quem assiste. A trajetória de um jovem obcecado por um esporte desprezado vira uma experiência cinematográfica que pulsa, acelera e cansa de propósito. O pingue-pongue é só o pretexto. O verdadeiro jogo acontece na cabeça de um protagonista incapaz de duvidar de si mesmo.
Timothée Chalamet entrega aqui a atuação mais física e agressiva de sua carreira. Seu Marty Mauser ocupa o quadro como quem invade um espaço que não lhe foi concedido. O corpo tenso, o olhar sempre em alerta e a fala atropelada constroem um personagem que parece estar competindo até quando está parado. É uma presença que seduz e irrita com a mesma intensidade, um talento raro para sustentar quase duas horas e meia de pura fricção.

Safdie filma o personagem como um projétil lançado contra o mundo. A câmera raramente descansa, acompanhando o protagonista pelos cortiços do Lower East Side, pelos corredores luxuosos de hotéis europeus e pelas arenas onde o tênis de mesa vira batalha simbólica. A mise-en-scène é sufocante, propositalmente claustrofóbica, como se cada plano estivesse disputando espaço com o ego inflado do protagonista.
Embora inspirado em uma figura real, o filme não se interessa pela fidelidade histórica. O que importa é o mito. O longa não representa apenas um atleta improvável, mas uma ideia de país em expansão no pós-guerra, movido por audácia, oportunismo e uma confiança quase irresponsável. O esporte menor espelha um sonho grande demais para caber em regras, etiquetas ou limites morais.

A trilha sonora anacrônica reforça essa sensação de deslocamento. Canções dos anos 80 irrompem em um filme ambientado nos anos 50 sem pedir licença, criando um curto-circuito temporal que traduz a mente do personagem. Nada está exatamente no lugar, mas tudo faz sentido dentro dessa lógica caótica onde vencer importa mais do que pertencer.
As relações de Marty seguem a mesma lógica predatória. Ele se aproxima das pessoas como quem avalia uma jogada possível, sejam amantes, familiares ou rivais. Rachel surge como a única capaz de acompanhar seu ritmo, não por submissão, mas por compartilhar da mesma energia indomável. Já Kay Stone encarna um jogo mais sofisticado, onde ele acredita estar no controle sem perceber que também é peça.
O filme é povoado por figuras marginais que parecem arrancadas da rua e colocadas diante da câmera sem polimento. Safdie recusa o glamour fácil e aposta em rostos que carregam histórias no corpo. Essa escolha dá densidade ao universo da trama e impede que a ascensão do herói soe como fantasia limpa. Tudo aqui é sujo, instável e provisório.

Quando a narrativa flerta com o crime e com a violência, o risco se torna palpável. Não há romantização da esperteza sem consequências. Cada atalho escolhido por Marty cobra seu preço, e o espectador sente que a qualquer momento o jogo pode acabar de forma abrupta. Essa tensão constante é uma das maiores forças do filme.
No centro de tudo está a incapacidade do jovem atleta de amadurecer. Sua genialidade esportiva não vem acompanhada de crescimento emocional. Ele acredita que o mundo deve se curvar ao seu talento, e cada derrota funciona menos como lição e mais como afronta pessoal. Ver esse ego ser confrontado é tão importante quanto qualquer vitória em quadra.
Conclusão
Marty Supreme não pergunta apenas se seu protagonista vai ganhar o título final. A pergunta real é se ele será capaz de entender que vencer não resolve tudo. Safdie constrói um retrato feroz de um homem em formação e de um país que aprende, aos tropeços, que confiança sem escuta pode ser tão destrutiva quanto a falta dela. É cinema exaustivo, provocador e impossível de ignorar.
Confira o trailer:
Ficha Técnica
Direção: Josh Safdie;
Roteiro: Josh Safdie e Ronald Bronstein;
Elenco: Timothée Chalamet, Odessa A’zion, Sandra Bernhard, Emory Cohen, Ralph Colucci, Fran Drescher, Abel Ferrara, Pico Iyer, Koto Kawaguchi, Luke Manley, Kevin O’Leary, Tyler Okonma, Gwyneth Paltrow. Larry Ratso Sloman.;
Gênero: Drama biográfico;
Duração: 149 minutos;
Distribuição: Diamond Films;
Classificação indicativa: 16 anos;
Assistiu à cabine de imprensa a convite da Espaço Z