SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS)
Um grupo de desconhecidos se reúne em um local isolado. A calma termina quando um deles é morto. A causa, em sua maioria, é um envenenamento. Surge então um detetive, que interroga suspeitos, desvenda pistas e evita o assassinato de testemunhas. Ao final, todos se reúnem em uma sala onde o investigador revela não só o responsável pelo crime, mas todos os seus passos até cometer o assassinato.
Salvo algumas variações, esta é a fórmula básica da obra que rendeu a Agatha Christie o título de rainha do crime. A morte da autora mais publicada no mundo depois da Bíblia e de Shakespeare completa 50 anos nesta segunda-feira (12).
Com 80 livros publicados, sendo 66 romances e 14 coletâneas de contos, a britânica se tornou sinônimo do gênero de mistério e de narrativas de assassinato nas quais o foco não é o dilaceramento do corpo, mas de enigmas. Enquanto, por um lado, ela tornou clássico o subgênero de whodunit -esse tipo de história de detetive-, também o transformou em clichê.
Se a fórmula repetitiva é alvo dos críticos literários mais puristas, isso nunca pareceu incomodar Christie. Com a exceção de seis histórias de amor que escreveu sob o pseudônimo de Mary Westmacott, Christie se dedicou ao gênero que lhe tornou famosa sem nunca passar um intervalo maior que dois anos sem publicar um novo livro.
Bem-humorada, a escritora satirizou a si mesma por meio da personagem e alter ego Ariadne Oliver, alívio cômico de alguns de seus livros. Enquanto Christie escreveu “Cartas na Mesa”, em 1936, e “A Morte da Sra. McGinty”, em 1952, Oliver é autora dos títulos fictícios “Morte de Uma Debutante” e “Foi o Gato que Morreu”.
Agatha Christie é frequentemente atrelada à imagem de uma senhora fofa, mas antes foi uma mulher aventureira. Na juventude, trabalhou em uma farmácia lidando com venenos que mais tarde se tornariam peças centrais de seus crimes ficcionais e, durante seu segundo casamento, acompanhou o marido arqueólogo Max Mallowan em expedições pela Ásia e a África.
As viagens inspiraram obras como “Morte na Mesopotâmia”, de 1936, “Aventura em Bagdá”, de 1951, e a mais famosa “Assassinato no Expresso do Oriente”, de 1934.
Escrita da Primeira Guerra Mundial até a Guerra Fria, sua obra absorveu tensões de seu tempo -do antissemitismo aos estereótipos raciais hoje revistos por editores-, muitas vezes ironizando a própria ideia de “bons velhos tempos”.
Foi na construção de arquétipos como os idosos saudosistas, os jovens ousados e as mulheres feministas para a época que Christie criou uma obra que sobrevive mesmo 50 anos após sua morte, em 12 de janeiro de 1976, por causa de uma pneumonia.
Embora escrevesse sobre morte, Christie era feliz em viver -como conta na autobiografia que escreveu de 1950 a 1965. Nessa obra, ela celebra suas memórias e a capacidade de lembrar. A ironia é que um suposto lapso de memória rendeu um dos episódios mais notáveis de sua história.
Há quase um século, em dezembro de 1926, a autora desapareceu por 11 dias após descobrir que seu primeiro marido, Archibald Christie, tinha um caso extraconjugal. Depois de abandonar seu carro em uma estrada, ela foi encontrada em um hotel após uma busca que envolveu legiões de policiais. A autora nunca comentou o episódio, o que alimentou especulações sem fim.
Hercule Poirot, o icônico detetive belga de bigode, é a maior criação de Christie e também a que ela dizia lhe causar mais incômodo. Cartas da autora revelam seu descontentamento com o personagem pela personalidade arrogante que ela mesma lhe atribuiu.
Suas diferenças com o detetive, porém, nunca a impediram de alimentar seu ego. Poirot protagoniza 40 de seus livros, nos quais desvenda todos os mistérios sempre de maneira certeira.
Em “Assassinato no Campo de Golfe”, de 1923, a escritora pôs seu detetive de frente a uma paródia de Sherlock Holmes. O Poirot experiente e calculista supera o Holmes excêntrico e impulsivo de Arthur Conan Doyle, numa disputa em que ambos falam fluentemente a língua do estrelismo.
Além de Poirot, Christie é também lembrada por Miss Marple, uma idosa fofoqueira que, apesar de desacreditada pela polícia, sempre desvenda o crime antes de todos. Entre seus investigadores menos celebrados estão ainda o casal Tommy e Tuppence, o malandro Parker Pyne e o capitão Arthur Hastings -o Watson de Poirot, como ela dizia.