O dia dedicado aos amantes da literatura, comemorado em 7 de janeiro, é um convite para incentivar o hábito de se apaixonar pelo universo dos livros. A data é também uma oportunidade para quem deseja iniciar ou retomar a prática da leitura. Segundo a pesquisa Retratos da Leitura, realizada pelo Instituto Pró-Livro (IPL) em parceria com a Fundação Itaú e o Ministério da Cultura, 47% da população brasileira se considera leitora — dado referente ao levantamento de 2024. Para entender esse cenário, a equipe de reportagem do JBr conversou com especialistas que reafirmam: o ato de ler é plural e resiste mesmo em tempos de rotinas aceleradas.
Aline Guimarães é uma das mediadoras do Clube do Livro Cerrado Literário, da Biblioteca Valéria Jardim. Ela acredita que a literatura é uma chave para outros mundos, uma oportunidade de conhecer outras culturas, outras vidas, de ter mais empatia e conexão com os outros e consigo mesmo. Para ela, em tempos onde tudo é muito rápido e o foco em coisas mais profundas tem diminuído, ler pode ser importante para resgatar esse foco e conexão. “Nada melhor do que celebrar a literatura nesse Dia do Leitor e reforçar a importância de ler”.
Ela é criadora de conteúdo literário no perfil @clubedomdaamizade e percebeu que o amor pela leitura tem sido resgatado nos últimos tempos, embora ainda tenha que crescer muito. “Os perfis em redes sociais dedicados à leitura e grandes eventos como a Bienal do Livro de São Paulo, por exemplo, têm dado bastante visibilidade ao hábito de ler”, comentou.

Celebrar o Dia do Leitor, para Marina Mara, coordenadora cultural na Biblioteca Demonstrativa e doutoranda em Literatura pela Universidade de Brasília, é reconhecer que a literatura não termina no ponto final do autor, mas na retina de quem lê. Apaixonada pelo mundo literário, Marina também é uma poeta brasiliense que acredita que cada olhar vivencia a literatura a partir de seu universo e suas vivências. “É por isso que cada obra será sempre única a partir de cada leitura. O mesmo livro pode ser lido várias vezes e, em cada fase da vida, vamos entender de uma forma nova, complementar”, afirmou.
Para ela, a produção literária no DF é tão diversa quanto a cidade. Vários sotaques e saberes orais se expressam nos slams, nas batalhas de rima, nos saraus e nas livrarias de rua que existem para difundir o hábito da leitura. “No DF, temos também o exemplo da Biblioteca Demonstrativa (BDB), que em 2025 realizou mais de 190 atividades culturais, levando mais de 6.700 pessoas à biblioteca pública mais antiga de Brasília. Acredito em caminhos que unem o livro a outras linguagens artísticas, ampliando o horizonte dos leitores e frequentadores da BDB.”
Marina considera que o interesse pela leitura não diminuiu, ele se diversificou. “O que vemos hoje é um leitor que quer interagir: ele não quer apenas consumir o texto de forma passiva, ele quer participar de debates, fazer rimas e resenhas, frequentar saraus, feiras literárias, clubes de leitura e outras formas de viver a literatura como uma prática coletiva”, disse. Ela citou o Festival Leitura Coletiva, realizado em dezembro na BDB, como um exemplo que mostra que a leitura, a poesia, a música e outras oralidades continuam inspirando os leitores. Por fim, Marina também salientou que, mesmo com alguns índices apontando que o país não lê, existem outros formatos de leitura. “Inclusive a literatura oral dos saraus e os aforismos trazidos como versos pelo algoritmo também são, em essência, leitura”, frisou.
Cultivando o hábito da leitura
Cinthia Carvalho, é professora da Secretaria de Educação do DF e criadora do perfil literário @cinthiaquedisse. Ao ser questionada sobre como as pessoas podem criar ou retomar o hábito de ler, ela afirmou que nem sempre a leitura esteve presente em sua. “Muitas pessoas criam uma imagem do que é ser leitor(a) e, ao se compararem com esse ‘leitor ideal’, acabam se afastando desse momento tão único”, comentou. Dito isso, Cinthia considera que para cultivar o hábito da leitura, e cumprir a famosa meta de “ler mais”, é preciso começar pelo que a pessoa gosta. Isso, ela aprendeu com uma professora da UnB, Alexandra Rodrigues. “Quando me disse, ao ser questionada sobre o que eu deveria ler: O que queres e gostas de ler”.
A professora citou Daniel Pennac, em Como um romance, que escreveu que o “verbo ler não suporta imperativo”. Logo, a primeira sugestão de Cinthia é simples, mas eficaz: leia. “Convide amigos para lerem com você, crie grupos de leitura, siga perfis literários com os quais se identifica e participe de clubes de leitura online, como o “Ler Juntos”, da Editora Record, que é ao vivo e gratuito”, citou. Ela recomendou ainda, que as pessoas insiram a leitura no dia a dia, sem esperar o momento ideal. “Pode ser em dez minutos de espera ou nos minutos após o almoço. Em vez de deixar o celular ocupar esse tempo, aproveite para ler”, finalizou.
De leitor para leitor
A servidora pública Karina Kassis, 46 anos, estava passeando com o filho de cinco anos em uma livraria nesse começo de janeiro. Para ela, atividades assim podem fomentar o hábito da leitura na vida de crianças como o filho. “Trouxe o meu filho para ter contato com os livros porque a gente gosta e eu quero que ele também vá se familiarizando”, contou. Karina relatou que o pequeno gosta muito desse tipo de atividade, embora ainda não saiba ler. “Ele vai observando as capas, vai gravando essa imagem. Ele sabe muito sobre livros porque eu e meu marido incentivamos bastante”, disse.

Karina comentou que, ultimamente, as leituras favoritas dela têm sido sobre psicanálise, citando Sigmund Freud e Jacques Lacan como os autores mais lidos de sua lista. “Mas agora, por exemplo, eu peguei as Obras Incompletas do Friedrich Nietzsche, que está sensacional. Um conteúdo muito atual”, destacou. Essa, inclusive, é a indicação dela para os leitores do JBr.
A professora e fotógrafa Arlete Magalhães, 27 anos, estava procurando um livro para dar de presente. Ela cultiva o hábito de ler desde a infância e gosta de passar adiante o amor aos livros. “Quando eu estudava no Fundamental II, comecei com os livros da biblioteca da escola. Acho que o primeiro livro que eu li foi sobre caça ao tesouro, depois foi A Moreninha, Vidas Secas, A Baleia“, lembrou. Na biblioteca do ensino médio, ela leu toda a saga de Game of Thrones. “Acho que a escola foi fundamental para esse enriquecimento cultural de leitura. Do gostar mesmo”, salientou. Por isso, hoje ela aplica projetos de leitura na sala de aula.

Desde um cantinho na mesa, com livros para quando os alunos terminam a atividade: “Deixo ali esses livros à vontade deles, quando eles sentem a necessidade. Trabalho também com a leitura coletiva, levo todo mundo para fora em uma roda de leitura”, citou. Mas ela acredita que os alunos também têm que descobrir, por eles mesmos, o gosto pelos livros e quais gêneros literários falam mais com eles. “Ainda existe uma dificuldade bem grande em recuperar esse hábito da leitura e eu acho que falta incentivo dos pais em casa, de ter esse acesso em casa. Porque acho que a escola sozinha não consegue”, declarou. Para finalizar, ela indicou um livro que é um dos seus favoritos e que ela considera que todo mundo deveria ler: O Menino do Pijama Listrado, de John Boyne.
Listas de livros para ler
Indicações de Aline Guimarães (@clubedomdaamizade) para os leitores do JBr:
– Oração para desaparecer – Socorro Acioli
– Mata Doce – Luciany Aparecida
– A palavra que resta – Stenio Gardel
– O Grande Gatsby – F. Scott Fitzgerald
– O ninho – Betânia Pires Amaro
– Mau hábito – Alana Portero
– Memória de menina – Annie Ernaux
– Ensaios de despedida – Elisama Santos
– Santo de casa – Stefano Volp
– Um defeito de cor – Ana Maria Gonçalves
As indicações de Marina Mara (@poetamarinamara)
– A Rosa do Povo – Carlos Drummond de Andrade
– A Terra dá, a Terra quer – Antônio Bispo dos Santos (Nêgo Bispo)
– Becos da Memória – Conceição Evaristo
– Ideias para adiar o fim do mundo – Ailton Krenak
– Não vou mais lavar os pratos – Cristiane Sobral
– Ninfa Morta: Uma história do ódio às mulheres – Marcia Tiburi
– O Oráculo da Noite: A história e a ciência do sonho – Sidarta Ribeiro
– Peles Negras, Máscaras Brancas – Frantz Fanon
– NECA – Amara Moira
– Um Defeito de Cor – Ana Maria Gonçalves
Cinthia Carvalho do @cinthiaquedisse indicou aos leitores do JBr:
– Ciranda de Pedra – Lygia Fagundes Telles
– Capitães de Areia – Jorge Amado
– A vida pela frente – Émile Ajar
– Olhos D’Água – Conceição Evaristo
– Crônica de uma morte anunciada – Gabriel Garcia Marques
– O livro dos abraços – Eduardo Galeano
– O arroz de palma – Francisco Azevedo
– Véspera – Carla Madeira
– Quarto de despejo – Carolina Maria de Jesus
– A cor Púrpura – Alice Walker
– A vida invisível de Eurídice Gusmão – Martha Batalha
– O filho de mil homens – Valter Hugo Mãe