Em temporada no Distrito Federal, a escritora e multiartista maranhense Lília Diniz lança neste sábado (17), Vozes de Mussambê, seu nono livro, no Balaio Café, na Universidade de Brasília (UnB). O evento acontece a partir das 17h, com entrada gratuita, e integra a circulação nacional da obra, que já nasce premiada.
Integrante da Academia Imperatrizense de Letras e da Academia de Letras do Brasil – Seção DF, Lília apresenta em Vozes de Mussambê um conjunto de 23 contos que dão forma literária a histórias reais, sobretudo de mulheres atravessadas pela cultura da violência. As narrativas partem de experiências vividas, escutadas e compartilhadas ao longo da trajetória da autora, sem apagar a dor, mas também sem reduzir essas vidas ao sofrimento.
“O meu processo de escuta foi acontecendo de forma muito natural, sobretudo no escutar a mim mesma”, afirma Lília. Vítima de diferentes violências ao longo da vida, ela conta que, ao abordar essas questões em poemas declamados, passou a receber relatos de outras mulheres. “Fui percebendo o quanto essas experiências são, infelizmente, comuns entre nós. Esse processo se deu no campo da escrevivência, como nos ensina Conceição Evaristo: a escrita nasce da vida, da memória e da experiência compartilhada, não como exposição da dor, mas como possibilidade de elaboração e resistência.”
Entre as inspirações do livro está uma tia da autora, que narra as violências sofridas com uma leveza surpreendente. “Ao reconhecê-la como uma grande contadora de histórias, pedi permissão para escrever algumas de suas experiências. Depois de escrever três histórias, li para ela e tive sua aprovação”, relembra. A transição da poesia e do teatro para a prosa também marcou o processo criativo. “Gosto de exercitar minha experiência literária como uma brincante. No vasto território da ressignificação, a escrita é sempre um brinquedo novo.”

O título da obra faz referência ao mussambê, planta medicinal usada na medicina popular como expectorante. A imagem da planta — que ajuda a “limpar o chiado no peito” e expulsar o que sufoca — tornou-se eixo central do livro. “Quando pensei em Mussambê como nome desse povoado, foi inicialmente pela sonoridade da palavra, que me remetia a uma brincadeira de infância”, conta a autora. A compreensão mais profunda veio a partir de vivências pessoais e estudos sobre plantas medicinais. Benzedeira e estudiosa do tema, Lília reconhece no mussambê uma guiança para a escrita. “É nesse espaço que as vozes das personagens encontram escuta, desenham seus silêncios e constroem estratégias de sobrevivência.”
Cada conto recebe o nome de uma planta, convocando saberes ancestrais ligados à natureza, à memória e à cura. Curiosamente, essa escolha só se consolidou na etapa final do livro, a partir das ilustrações da artista plástica Ju Lama, desenvolvidas com a técnica da serigrafia botânica. “Foi como se o mussambê passasse a organizar o livro como um eixo simbólico. Cada conto se torna um sopro, uma pausa, uma tentativa de recompor o território do corpo e da memória”, explica Lília.

O projeto gráfico é assinado pelo designer brasiliense Haroldo Brito, que traduziu visualmente o processo coletivo da obra, incluindo o conceito do “DNA das palavras”. A materialidade do livro dialoga diretamente com sua origem: uma imersão realizada no Maranhão, na Reserva Extrativista Mata Grande, em Davinópolis, onde a equipe conviveu com mulheres da comunidade em dias de escuta sensível, oficinas e diálogos sobre direitos humanos, com foco nos direitos das mulheres e das crianças.
“Esse atravessamento foi visceral”, afirma a autora. A experiência coletiva moldou não apenas a escrita, mas toda a concepção do livro. O projeto enfrentou ainda os impactos da pandemia: a campanha colaborativa para impressão foi interrompida pelo lockdown de 2020, adiando o lançamento. “Foi quando compreendi que Vozes de Mussambê não é um livro solitário, mas uma voz coletiva que se manifesta na palavra escrita”, reflete.
Financiado pelo Fundo de Apoio à Cultura do Distrito Federal (FAC-DF/2019), com apoio do Sesc-MA, Vozes de Mussambê foi premiado pelo Edital Edelvira Marques (2022), da Fundação Cultural de Imperatriz. Após o lançamento em Brasília, a obra segue para o Maranhão, com agenda prevista para fevereiro, passando por São Luís e Imperatriz.
Mais do que um livro, Vozes de Mussambê se apresenta como um gesto coletivo de cuidado e resistência. “São partilhas intensas que me fizeram compreender a magnitude de uma proposta construída na circularidade e no compromisso com transformações sociais”, conclui Lília Diniz, reafirmando a literatura como um dos caminhos possíveis na construção de um mundo sem violências.
Lançamento ‘Vozes de Mussambê’ – de Lília Diniz
Quando: 17/01/26 (sábado) — 17h
Onde: Balaio Café – UnB
Entrada: franca
Nas redes: www.instagram.com/liliadinizpoetaitz