A escritora e artista Renata Weber lança em Brasília, neste sábado (31), o romance experimental O Ano Um, publicado pela Editora Quelônio (SP). O evento acontece na DeCurators da 412 Norte e apresenta ao público uma obra que desafia fronteiras entre literatura, artes visuais e som, propondo uma experiência de leitura que passa também pelo corpo, pela escuta e pelo gesto.
Primeiro romance da autora, O Ano Um acompanha Regina, uma mulher que passa a escrever notas cotidianas como tentativa de “ancorar o fio da memória” diante do avanço do esquecimento. A narrativa se constrói como um arquivo frágil: registros, lembretes, fragmentos de histórias, poemas e observações que tentam conter aquilo que, aos poucos, se embaralha e ameaça desaparecer.

Essa instabilidade é levada ao limite na forma do livro. Em vez de páginas costuradas e numeradas, O Ano Um se apresenta como um livro-objeto composto por folhas soltas, presas apenas por cola de bloco de papelaria. “Em algum ponto, com o texto já escrito, não pareceu correto costurar as páginas de uma história onde tudo se embaralha”, explica Renata. Para ela, a juntada de papéis é provisória, arbitrária, assim como a memória da personagem. “Tudo indica que as coisas vão mudar, que as notas vão ser embaralhadas ou perdidas.”
O manuseio do livro faz parte da narrativa. O leitor é convidado a lidar com a instabilidade do objeto, com a irritação de não conseguir “domar” o livro, de não poder indicar o número de uma página ou de vê-lo escapar da lógica tradicional da estante. “Fazer a pessoa apreender a história manipulando e tentando domar um objeto me interessa. Me parece que é um jeito de contar a história também”, afirma a autora.
No centro da obra está a ideia de resistência, prática e poética. Regina organiza papéis, preserva documentos, registra fatos como forma de permanecer. “Ela quer ficar, luta contra as forças que promovem seu desaparecimento”, diz Renata. Ao mesmo tempo, a personagem reconhece que muito já se perdeu e que há névoa nesse processo. Entre a tentativa de lembrar e a aceitação da perda, surge também uma curiosidade sobre o futuro e a construção de um novo modo de existir. “Tentar lembrar é crucial, mas acho que Regina quer também deixar ir, quer saber perder, quer construir para si um novo jeito de levar a vida.”
Além do livro impresso, O Ano Um ganha uma segunda camada em formato de livro sonoro, narrado pela própria autora, com desenho e trilha sonora de Wagner Morales e audiodescrição com roteiro de Rita Louzeiro. Longe de ser apenas uma leitura em voz alta, o áudio cria atmosferas com percussões, efeitos e guitarra, acompanhando o desaparecimento gradual das palavras e das lembranças.
“A massa sonora que o Wagner compôs fez a narração crescer e o livro ganhar outras camadas”, destaca Renata, que recomenda a experiência combinada. “Eu recomendo vivamente que as pessoas leiam O Ano Um dando o play no livro sonoro. É uma experiência de imersão de apenas 1 hora e 20 minutos, o tempo de um cinema.”

No lançamento, o público poderá ver também as oito monotipias abstratas que integram a obra, produzidas pela autora com tinta de carimbo sobre papel pólen e apresentadas em uma miniexposição. Após a apresentação do livro e do trabalho sonoro, haverá um bate-papo com Renata Weber e a convidada Sílvia Roncador.
Vivendo e trabalhando em Brasília, Renata Weber transita entre literatura, música e artes visuais, além de atuar como psicóloga e pesquisadora em saúde mental. O Ano Um, viabilizado pelo Fundo de Apoio à Cultura (FAC) do Distrito Federal, marca sua estreia no romance com uma obra que aposta na delicadeza, na instabilidade e na experiência sensorial como formas de narrar o que escapa.
Serviço
Lançamento O Ano Um
Data: 31 de janeiro de 2026, às 19h
Local: DeCurators (412 Norte, Bloco C)