Por Davi Silveira
Há quem diga que para tirar uma foto é necessário enxergar o mundo através de uma lente. Beabá da fotografia, missão simples para quem fotografa diariamente. Seria possível, então, aprender a tirar foto após perder a visão? Foi isso que fez Luciano Ambrósio, um apaixonado por poesias, que ingressou em um curso de fotografia, mesmo sem o correto funcionamento de sua própria lente. No dia 17 de novembro, Luciano lançará seu livro “Meu Olhar”, onde, através de poesias e fotos, se expressa sobre seu modo de fazer arte. O lançamento será feito na Biblioteca Luiz Gama, no Senado Federal, às 18h30, em cerimônia aberta ao público.
Para ele, a poesia e a fotografia se complementam. “Em determinado momento do livro, há um poema em que digo que quero deixar algo para o mundo: quero escrever com imagens e mostrar com palavras. É isso que eu busco. Quero que a minha imagem diga algo sobre o meu olhar, sobre aquilo que vejo e quero mostrar. E, ao mesmo tempo, quero que a minha poesia fale, porque ela também evoca muitas imagens, descrições e paisagens.”, explica Luciano.
Para fotografar, o autor primeiro reconhece o espaço ao seu redor através do tato, da textura do chão sob seus pés e pelos sons. Após o reconhecimento, ele utiliza um aplicativo de celular que descreve imagens em voz alta para confirmar o enquadramento, e aí então, finalmente, “click”. Um leve tremor nas imagens e uma composição menos previsível são as consequências de uma fotografia sem visão plena. Para ele, isso não diminui a fotografia, pelo contrário, é o que a torna autêntica. “Isso caracteriza bem que é uma foto de um cego, de uma pessoa com um olhar diferenciado”, afirma.
Luciano começou a escrever antes de aprender a fotografar. Após perder a visão, suas poesias foram fundamentais para se manifestar através da arte. Mesmo escrevendo de forma constante, Luciano não imaginava suas obras sendo publicadas. Foi quando ingressou em um curso de fotografia e, em uma oficina, o conselho de um professor o fez despertar para uma nova forma de se expressar. “Busquem aquela imagem do cotidiano para a qual ninguém está prestando atenção, que ninguém está vendo ”, disse o professor.
Segundo o artista, a principal dificuldade do curso foi a ajuda excessiva de quem saía com ele para ajudá-lo nas fotografias. Luciano sempre ia para as saídas de campo acompanhado de algum outro aluno para facilitar o reconhecimento do ambiente, mas, por vezes, a ajuda virava intromissão na imagem que ele queria captar, atrapalhando a sua visão única e autoral do mundo.
Aos futuros fotógrafos e poetas com deficiência visual, Luciano diz que a deficiência não é uma barreira e não impede ninguém de enxergar as coisas. “A pessoa cega só não enxerga com os olhos. Ela tem todos os outros sentidos, e é por meio deles que também consegue enxergar o mundo. O tato enxerga. A audição enxerga. O cheiro enxerga. Todos esses sentidos podem direcionar o seu olhar. E esse olhar vai ser todo seu, um olhar próprio, único e rico.”, afirma o fotógrafo.