Ao longo da vida, somos criados para associar a morte à velhice. Quando pensamos na morte de um familiar, o primeiro pensamento costuma ser que a pessoa mais velha partirá antes de nós. O habitual é acreditar que o país morrerão antes dos filhos.
Mas o que acontece quando a morte vem de quem não se espera? Quando atinge um pai ou uma mãe que perde um filho? Quando essa ordem natural é quebrada… É justamente essa a proposta do livro “A escuridão do Ventre”, que reúne contos assinados por Clara Arreguy, o livro será lançado no dia 09 deste mês, a partir das 19h, no restaurante Beirut da 109 Sul.
Aos 66 anos, jornalista, escritora, Clara Arreguy chega no 35º livro de sua carreira. Fundadora da editora Outubro Edições, ela propõe uma obra que encara de frente um dos temas mais difíceis da experiência humana. São 22 contos distribuídos em histórias que abordam diferentes formas de luto parental, inspirados em histórias reais, escrito de forma literária sem compromisso com factual.
Clara conta como surgiu a ideia de abordar um tema tão sensível. “ A obra nasceu a partir do acompanhamento e da ajuda para um amigo que perdeu o filho de 32 anos. Eu estive ao lado dele, em momentos que parecem ser banais. Mas não são, como encerrar a conta do banco, apagar redes sociais, doar às roupas, fechar a casa. Tudo isso faz parte do luto. São os pequenos passos do pós morte, que se torna devastador”, relata.
A experiência pessoal, somada à leitura do livro francês Le mot qui n’existe pas (“A palavra que não existe”), foi decisiva para a construção da obra. A narrativa aborda a ausência de um termo que nomeie pais que perdem filhos, lacuna que, para Clara, evidencia a dimensão dessa dor. “Se você perde pai ou mãe, é órfão. Se perde o companheiro, é viúvo. Mas, se perde um filho, não existe uma palavra. É como se a linguagem não desse conta dessa perda”, afirma. A partir dessa reflexão, as histórias começaram a se acumular, muitas inspiradas em situações próximas, como a de uma vizinha que perdeu o filho assassinado na saída de uma boate em Ceilândia. “Eu tinha apenas o fato. A partir dele, construí os personagens e imaginei como aquela noite aconteceu”, explica.
Outras narrativas vieram de conversas mais íntimas, como a de uma amiga que perdeu o filho por suicídio e pediu que Clara escrevesse a história. “Ela me disse: ‘Você quer escrever a história do meu filho?’. A gente sentou, conversou horas, ela me contou tudo. Eu cheguei em casa, escrevi, mandei para ela e ela respondeu: ‘É isso’.”
A autora reforça que não escreve relatos nem biografias. “Eu não tenho compromisso com a fidelidade aos fatos. Um fato, uma frase, uma situação me inspiram e eu escrevo literatura”, afirma. “Eu invento uma história a partir disso.” Para ela, a literatura não tem o papel de oferecer consolo ou respostas. “Eu não escrevo autoajuda. Não tenho mensagem. Não tenho condição de consolar quem passa por isso. Eu só tenho histórias para contar.”
Após quatro anos concluído, o livro encontrou o momento certo para chegar ao público. O lançamento, adiado pelo peso emocional do tema, só se tornou possível quando a própria autora atravessou o luto pela perda de um irmão próximo. A experiência pessoal reforçou a necessidade de falar sobre a morte, mesmo quando o assunto causa desconforto, e consolidou a convicção de que a obra precisava existir. O acolhimento dos leitores, marcado por interesse e sensibilidade diante do tema, tem surpreendido Clara e confirmado que, embora dolorosa, a literatura também é espaço de escuta, identificação e elaboração do luto.
Serviço
Lançamento do livro A escuridão do Ventre
Autora: Clara Arreguy
Data: 9 deste mês
Horário: a partir das 19h
Local: Restaurante Beirut – 109 Sul
Formato: lançamento com sessão de autógrafos