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Literatura

Dia Mundial da Poesia: versos ocupam espaço na capital 

Autores e slammers mantêm o gênero vivo ao levar os versos para as ruas do DF

Caroline Purificação

21/03/2026 9h00

Atualizada 20/03/2026 19h37

maíra valéria e caio gomez

Maíra Valéria e o ilustrador Caio Gomez do livro de poesia “Amarga”. – Foto: Imagens cedidas pela fonte/Maíra Valéria

O que é a poesia? Para o famoso poeta brasileiro Oswald de Andrade “é a descoberta das coisas que nunca vi”. Para Carlos Drummond de Andrade, a “poesia, morte secreta”. Já para Mário Quintana, “no fundo, a poesia é isto: a eternização do momento”. Neste sábado (21), é celebrado o Dia Mundial da Poesia. E essa forma de arte segue forte no Distrito Federal, seja por meios de autores brasilienses ou pela poesia falada, o slam (batalha de poesias).

A data comemorativa foi criada em 16 de novembro de 1999 na 30ª Conferência Geral da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco). O intuito da celebração é promover a diversidade linguística e enaltecer a troca cultural. Outras datas também são usadas para celebrar a poesia: Dia Nacional da Poesia no Brasil, comemorada no dia 14 de março, marcado pelo nascimento do poeta Castro Alves; Dia Nacional da Poesia, no dia 31 de outubro, aniversário do escritor Carlos Drummond de Andrade; e o dia 20 de outubro, celebrado o Dia do Poeta. 

Ana Rossi, poeta e professora do Instituto de Letras da Universidade de Brasília (UnB), explica que a poesia é uma forma de arte construída a partir do trabalho com a palavra e seus significados. Do ponto de vista técnico, trata-se de um gênero literário presente em todas as culturas, com características que variam conforme os contextos históricos e sociais. Ela destaca ainda que a poesia não se limita à escrita, tendo também uma dimensão oral importante. No Brasil, essa tradição aparece em manifestações como o repente nordestino e a poesia falada dos slams. 

“A cena literária de Brasília oferece uma riqueza muito grande de manifestações literárias e poéticas, ainda muito pouco reconhecidas. Enquanto Presidente do Sindicato dos Escritores do DF, vejo que as academias literárias proporcionam uma gama de lançamentos, saraus, clube de leitura, rodas de conversa que honram tanto a poesia como a literatura no Distrito Federal”, relatou.

Ela diz que as datas oficiais são fundamentais para comemorar a poesia e a literatura, além de dar visibilidade ao gênero e as  obras produzidas no DF. “A poesia tem uma importância fundamental, pois ela constitui uma entrada importante para a construção de um pensamento claro, como também para o conhecimento de poetas que expressam suas experiências de vida no mundo, e, que reverbera também na formação de leitores”, comentou.

Poesia brasiliense

A jornalista e escritora brasiliense, Maíra Valéria, é um dos destaques no cenário poético de Brasília. Ela conta que a poesia e a escrita sempre estiveram presentes em sua vida, mas por medo deixou o talento escondido por algum tempo. O primeiro zine lançado foi a obra “Faz sol & chuva em Brasília”, de 2019, em parceria com o ilustrador Caio Gomez. Desde então ela não parou mais e diz que “saiu do armário poético”. Agora, a autora está no processo de publicação de mais um livro de poesia, o “Amarga”, vencedor do 2º Prêmio Tato Literário.

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A jornalista lançou o primeiro livro em 2029 e fala que “saiu do armário poético”. – Foto: Imagens cedidas pela fonte/Maíra Valéria

A respeito do cenário da poesia clássica na capital, ela relata: “a poesia produzida no DF é riquíssima, variada e cheia de potência. Temos grandes nomes, como Nicolas Behr, Noélia Ribeiro e Tatiana Nascimento, e cito também outros poetas que gosto muito também, como Kuzman, Nadja Rodrigues, Letícia Bispo, Rogério Bernardes, Gabriella Rendeiro, Karine Souza e tantos outros”.

Para ela, o gênero retém o interesse dos leitores mais do que o senso comum imagina. Ela alerta sobre as dificuldades na distribuição e circulação dos livros que os escritores encontram na profissão. “Mas nós, autores e autoras independentes, somos teimosos e estamos por aí, em eventos, encontros e utilizando a internet como aliada na busca por demolir fronteiras e promover, de fato, a bibliodiversidade no Brasil”, comentou.

Maíra acredita que a data mundial para celebrar a poesia representa um momento de enaltecer e divulgar o gênero, a fim de resgatar memórias das obras que existem em Brasília, no Brasil e no mundo. Ela afirma ainda que suas obras  buscam ampliar tensões do cotidiano e questões sociais que muitas vezes passam despercebidas, além de abordar temas como amor, trabalho, tecnologia e a vida urbana.

No mais recente lançamento “Amarga”, ela intensifica esses elementos ao retratar uma personagem marcada pelo cansaço, pelos traumas e pelas pressões do mundo contemporâneo. A obra foi escrita em meio a jornadas de trabalho intensas e à maternidade, e passou por diversas revisões até a versão final.

Para além das páginas 

Para além das páginas, a poesia também pode ser falada, como no slam. O movimento cultural surgiu nos Estados Unidos em 1980 e chegou ao Brasil por volta de 2008. O movimento diferenciado ganhou popularidade no país e na capital e tem crescido com o passar dos anos. A poeta Ari, de 23 anos, atua como slammer desde 2024. Ela contou ao Jornal de Brasília que a poesia entrou na sua vida aos 9 anos, na escola que estudava, como uma forma de desabafo.

poeta ari
O slam é uma batalha de poesia falada com performances autorais. – Foto: cedidas pela fonte/Poeta Ari

“Eu descobri o slam através das batalhas e movimentos culturais da quebrada, onde vi que a poesia podia ser falada, vivida e compartilhada coletivamente. Foi ali que eu entendi que minha voz também tinha espaço. Escrever no papel é um processo mais íntimo, mais silencioso. Já a poesia falada tem corpo, tem presença, tem troca. No slam, a forma como você fala, sua entonação e sua emoção fazem toda a diferença, a poesia ganha outra potência”, relatou.

Nas apresentações da artista são notados temas como vivência periférica, violências, maternidade, luto e questões sociais que a atravessam enquanto mulher periférica no DF. A respeito da importância da poesia no DF, ela esclarece: “a poesia tem um papel fundamental no DF, principalmente por ser um território muito marcado por desigualdades. Ela conecta pessoas, fortalece movimentos culturais e ajuda a contar histórias que muitas vezes são invisibilizadas. Poesia é transformar vivência em voz”. 

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A poeta começou no slam em 2024 e na arte fala sobre a suas vivências na periferia do DF. – Foto: Imagens cedidas pela fonte

Poesia no quadradinho 

O slam é uma forma de poesia que tem crescido muito no Distrito Federal nos últimos anos. No último dia 26 de fevereiro deste ano, Brasília recebeu a primeira edição do SLAM BR25 e o Campeonato Brasileiro de Poesia Falada do Centro-Oeste, com a coordenação e organização da poeta brasiliense Meimei Bastos.

Ainda para celebrar o mês da poesia, o Espaço Cultural Renato Russo irá promover no próximo dia 28 de março mais um dia do evento “Palco Poético – encontro de poesias”. A programação acontece das 14h às 20h na Praça Central do ECRR. Entre os destaques estão a Feira Palco Poético e apresentações de figuras importantes da área. 

Confira a lista de autores brasilienses:

  • Receba Dantas – Se eu fosse capaz de amar 
  • Sofia Lopes – Galatea: Ficções e Delicadezas
  • Gabriella Rendeiro – Paisagens Insulínicas
  • Karine Sousa – Traslado Sob Céu Enxuto 
  • Jade Luísa – O Olho Esquerdo da Lua
  • Lílian Saeko Taba – Cirandinha das Plantas
  • Gustavo Dourado – Lingu@gente 
  • Paulo Dagomé – A Poética do Abismo
  • Kuzman – Voz Para Cavar Por Dentro
  • Francisco Alvim – Poesia Marginal 

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