Neste sábado (31), a Oto Livraria, na 302 Norte, recebe das 13h às 18h, mais uma edição do Dia do Quadrinho Nacional em Brasília, feira dedicada à produção brasileira de histórias em quadrinhos e, especialmente, ao fortalecimento da cena autoral do Distrito Federal. Realizado desde 2021, o evento reúne quadrinistas, editoras independentes e iniciativas editoriais que refletem o momento de expansão e renovação vivido pelo setor.
Segundo o jornalista e produtor cultural Pedro Brandt, responsável pela organização da feira, a evolução do evento acompanha diretamente o crescimento da produção local. “Me surpreende o surgimento de mais quadrinistas e de mais publicações. Há alguns anos, eu me queixava que a cena de quadrinhos de Brasília estava estagnada, sempre com as mesmas pessoas e sem muita novidade. De uns tempos para cá, isso mudou”, afirma. Para ele, além do aumento no número de autores, chama atenção o salto de qualidade: “estão sendo publicados mais HQs de qualidade, tanto nos roteiros quanto na arte”.
A programação desta edição reforça esse movimento ao reunir desde nomes já consolidados no mercado internacional até novos talentos. Entre os destaques está Tiago Palma, desenhista brasiliense que atualmente trabalha para a Marvel Comics, e a jovem Duda Carneiro, que assina a arte de divulgação do evento e lança a HQ “Alice e Fernanda – Caçadoras de Alienígenas”. A diversidade não é casual. Brandt explica que a curadoria prioriza a constância de publicações e a qualidade dos trabalhos apresentados. “Boa parte dos participantes estará lançando algum quadrinho no evento — e alguns já foram indicados a premiações como o HQMIX. A ideia é mostrar como as histórias em quadrinhos são plurais e como temos produções muito diferentes sendo feitas no Distrito Federal.”

Entre os lançamentos previstos, está o segundo número da coletânea “Menu”, do selo Simbiose, que reúne diversos autores. Das 16h às 18h, parte da equipe participa de uma sessão de autógrafos na livraria. A editora MMarte, de Goiânia, marca presença com dois lançamentos: “Metralha”, biografia em quadrinhos do cantor Nelson Gonçalves, e “Vila-Velha – A cidade da bolha”, HQ inédita do mestre Flavio Colin (1930–2002).
Para Brandt, “Vila-Velha” é um dos pontos altos da feira. “Trata-se de uma obra inédita do Colin, que é um dos maiores autores de quadrinhos que o Brasil já teve, dono de um traço inconfundível. Essa HQ deveria ter sido publicada no começo dos anos 1990, mas a editora faliu. A obra ficou na gaveta esse tempo todo. É praticamente um achado arqueológico”, destaca.
O evento também apresenta lançamentos autorais como “Tranquilo, mas agiliza”, de Pedro Sangeon, coletânea do personagem Gurulino; as graphic novels “Em três dias trago a pessoa amada” e “Céu Rosa-Poeira”, da dupla Rafael Moura e Jailson Soares; além de “As aventuras de Texas Ranger & Lincoln Júnior – A balada de Minouette”, do trio Candango HQ. O público ainda poderá adquirir edições da Marvel Comics com arte de Tiago Palma e a coletânea “MPS 90”, de Wes Samp, em homenagem aos 90 anos de Mauricio de Sousa.
Um dia para celebrar
Mais do que um espaço de vendas, o Dia do Quadrinho Nacional em Brasília aposta no encontro direto entre autores e leitores como estratégia de fortalecimento do mercado independente. “Proporcionar esse contato é muito poderoso”, avalia Brandt. “Uma pessoa jovem que gosta de desenhar, ao conhecer alguém como o Tiago Palma, pode se sentir inspirada a seguir esse caminho. Ao mesmo tempo, as publicações independentes mostram que é possível aprender o ‘faça você mesmo’ e criar os próprios quadrinhos.”
A importância da data também se reflete no fortalecimento de iniciativas coletivas que atuam como porta de entrada para novos autores. Para Ricardo Diniz, quadrinista e idealizador da coletânea e da feira Dead Rabbit Comics, o Dia do Quadrinho Nacional cumpre um papel estratégico ao ampliar o alcance da produção independente. “A valorização do quadrinho nacional com datas como esta é algo muito bom para a cena, principalmente agora, em uma época em que temos tantos artistas nacionais nesse meio. Nós, da Dead Rabbit Comics, sempre tentamos não só valorizar o quadrinho nacional, como também levar a cultura das HQs em geral para um público maior, que muitas vezes não tem tanto acesso a gibis”, afirma.
Segundo ele, além da circulação das obras, os eventos presenciais ajudam a revelar os bastidores da produção e a criar redes entre artistas. “São importantes para quem quer trabalhar nesse meio conhecer outras pessoas, outros artistas e fortalecer a cena. Também têm um papel fundamental no incentivo à leitura, especialmente entre crianças e jovens, um público que hoje está distante dos quadrinhos.”
Essa dimensão formativa e de acesso é ressaltada também pela quadrinista Cora Ronron, autora da HQ Maldição, indicada ao Troféu HQMIX. Para ela, o Dia do Quadrinho Nacional funciona como um catalisador de descobertas — tanto para o público quanto para os próprios artistas. “É uma data para celebrar todo mundo que faz e fez quadrinhos no Brasil. Graças às atividades, exposições e palestras promovidas nesse período, o público consegue acessar nosso trabalho de forma muito mais fácil, conhecer a nossa história e até dar o pontapé inicial para começar a própria jornada nos quadrinhos”, explica.
Cora destaca ainda como essas ações ajudam a dar visibilidade a produções autorais e locais. Ambientada na Universidade de Brasília, Maldição dialoga diretamente com vivências estudantis e temas como identidade, sexualidade e carreira. “Apesar de Brasília ser a capital do país, ela ainda é pouco representada na mídia fora da ótica política. Os quadrinhos permitem mostrar a cidade a partir da vida cotidiana, criando identificação com o público e fortalecendo uma cena que é diversa e profundamente conectada com o território.”
Criado em 1984 pela Associação dos Quadrinhistas e Caricaturistas de São Paulo (AQC-SP), o Dia do Quadrinho Nacional é celebrado em 30 de janeiro, em referência à publicação de “As aventuras de Nhô Quim”, de Angelo Agostini, em 1869. Em Brasília, a data vem sendo comemorada pela Oto Livraria desde 2021, consolidando-se como um dos principais encontros da cena independente de HQs na capital.
Dia do Quadrinho Nacional em Brasília
Data: 31 de janeiro (sábado)
Horário: 13h às 18h
Local: Área externa da Oto Livraria (302 Norte, bloco E, loja 39, subsolo)
Acesso livre